Passado/Presente

a construção da memória no mundo contemporâneo

Nostos + Algos

Posted by Rui Bebiano em 01-10-2006

Por muito tempo, a nostalgia permaneceu associada ao sofrimento determinado pelo afastamento prolongado das origens, ou então à recordação insistente de um passado considerado perdido. No século XVI, certos tratadistas militares avaliaram o estado de espírito que lhe subjazia como uma doença, tendo o suíço Joahannes Hofer acabado por fixar o termo na Dissertatio Medica de Nostalgia (1688), onde reuniu as palavras do grego clássico que nomeiam dor (algos) e regresso (nostos), para se referir a «um desregulamento da imaginação, de onde resulta que o suco nervoso toma sempre uma mesma direcção no cérebro, e que, por esse motivo, se firma em uma única e mesma ideia, o desejo de regressar à pátria». Tratava-se, para Hofer, de um estado particular de melancolia, que havia conduzido uma quantidade apreciável de estudantes, criados e mercenários de origem helvética a desejarem ardentemente o retorno à região da qual haviam partido e aos hábitos sociais que tinham abandonado, descurando por isso os seus deveres. Naturalmente, esta fixação do pensamento num alhures passado não era nova – lembre-se a presença constante, na consciência de Ulisses, do lar em Ítaca – mas a enunciação da sua natureza patológica era-o sem dúvida, prevalecendo como dominantes até aos finais do século XIX e sobrevivendo na actualidade. O Houaiss associa-a ainda a formas de «melancolia profunda causada pelo afastamento da terra natal», ou a «distúrbios comportamentais e/ou sintomas somáticos», se bem que a reconheça, de uma forma menos definitiva, como «estado de tristeza sem causa aparente».

NostalgiaMas existe uma leitura mais recente, e positiva, que a reconhece como momento de deleite ou enquanto veículo de esperança. O New Oxford Dictionary of English encara-a já como «um anseio de natureza sentimental ou uma ávida atracção pelo passado, tipicamente por um período ou um lugar com o qual se torna possível estabelecer associações agradáveis». E a russa Svetlana Boym atribui à atitude nostálgica, em The Future of Nostalgia, um significado mais denso e de uma natureza não necessariamente negativa ou doentia. Distingue, porém, aquilo a que chama de «nostalgia reconstitutiva», preocupada com a recuperação ou a «reconstituição» do passado, de uma «nostalgia reflectida», a qual procura ultrapassar o limiar da história, imergindo, voluntária ou involuntariamente, «nos sonhos de um outro lugar e de um outro tempo». Aceita-a também, de uma forma optimista, como modalidade daquilo que designa por «emoção histórica», extremamente sensível, como acontece com todas as emoções, às constantes flutuações da psicologia individual e colectiva, mas dotada igualmente de virtualidades dinâmicas, tanto no processo de interpretação do mundo – seja ele o passado ou o presente – como na forma de nele interferir. Indo mais longe ainda, Pam Cook considera, num livro que aborda a conexão entre nostalgia e cinema, que mesmo «não sendo progressiva em si mesmo», a primeira «pode fazer parte da transição para o progresso e a modernidade», através de um procedimento que designa como «let’s pretend»: os eventos do passado como que são «reconstituídos» perante uma audiência do presente, estabelecendo, por intervenção voluntária desta última, uma conexão dinâmica entre ambos os tempos, aquele que terá sido efectivamente vivido e o que é essencialmente representado. Um filão imenso para quem pretenda reconhecer os efeitos dinâmicos do passado e as formas de processar, contemporaneamente, as suas releituras.

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