Passado/Presente

a construção da memória no mundo contemporâneo

Pretérito mais-que-perfeito

Posted by Miguel Cardina em 01-10-2006

Aquilo que se nos aparece como imemorial foi por vezes forjado numa esquina próxima do tempo. Num texto já clássico, Eric Hobsbawm e um conjunto de outros historiadores mostraram como algumas das mais recorrentes imagens do passado são, na realidade, «tradições inventadas». A suposta origem remota do kilt escocês (criado em 1730 por um costureiro inglês), a criação das tradições nacionais galesas ou a construção, nas últimas décadas do século XIX, de uma série de cerimoniais associados à monarquia britânica, são algumas das ficções históricas cuja ancestralidade esta obra desmonta.

Criadas num pretérito pouco longínquo, estas «tradições inventadas» vivem da sua simulada colocação num locus inicial e hiper-significado. Uma panóplia de efemérides, lendas e símbolos, encarregam-se de manter viva esta presumível fonte original, dando lugar à afirmação de uma ideia fictícia de continuidade histórica. Foi, sobretudo, entre a segunda metade do século XIX e os inícios do século XX, que se deu a proliferação destes signos, num contexto de emergência dos nacionalismos e da consequente necessidade em erguer Volksgeisten que lhes servissem de base imaterial. Entre nós, é possível apontar vários exemplos desta fabricação institucional de marcas identitárias designadas como eternas ou imutáveis. Dos ranchos folclóricos à domesticação do fado, do galo de Barcelos à portugalização da saudade, uma boa parte da cobertura ideológica do Estado Novo foi construída com recurso a este expediente.

Nos dias de hoje, o processo de revalorização cultural das particularidades e dos localismos deixa-se frequentemente seduzir pela invocação de uma memória supostamente mais «remota» e «autêntica». Repare-se como nos vulgarizados festivais étnicos ou feiras medievais é comum observar-se uma ânsia de reproduzir fragmentos cristalizados do passado, que acabam por patrocinar uma formatação mitológica da memória colectiva. Esta romantização do tempo e do espaço actual tem ainda um outro reflexo na rapidez com que se criam «tradições» e no modo indiscriminado como a palavra vem sendo usada: nos meios estudantis, as praxes, reinventadas há pouco mais de vinte anos, são referidas como se existissem inalteráveis há séculos; nos noticiários, os acidentes de viação ou as fracas prestações escolares a matemática são considerados «tradições nacionais»; em diferentes lugares e circunstâncias, um acontecimento que se realize pela terceira ou quarta vez consecutiva arrisca-se a ser visto como uma «tradição recente».

Curiosamente, o recurso constante à «tradição», mais do que introduzir acrescentos de memória, induz à amnésia. Uma comunidade obcecada pela nostalgia não é necessariamente uma comunidade mais atenta ao substrato cultural de onde vem. Pelo contrário, ela vive numa constante presentificação do tempo acontecido que dificulta a retrospecção crítica e tende a eliminar a diferença que o próprio passado constitui. Felizmente, esta é uma utopia irrealizável: no trabalho monótono de estabelecer o mesmo, haverá sempre quem plante um acrescento, uma divergência, um descaminho. Enfim, uma invenção.

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