Passado/Presente

a construção da memória no mundo contemporâneo

Sobre a desgraça árabe

Posted by Rui Bebiano em 01-10-2006

Samir KassirEm 2005 Samir Kassir (سمير قصير em árabe) foi assassinado em Beirute aos 45 anos de idade. Professor universitário, jornalista e historiador, filho de um palestiniano-libanês e de uma síria, possuía dupla nacionalidade franco-libanesa e considerava-se essencialmente «um árabe laico», não alienado a uma cultura estrangeira e, estruturalmente, sem qualquer vontade de eliminar aqueles que não pensavam como ele. Enquanto activista de esquerda, bateu-se pela independência da Palestina e pela implantação da democracia no Líbano e na Síria, sendo o autor de Considerações Sobre a Desgraça Árabe (edição original de 2004), um livro transparente e dramaticamente optimista, radicalmente crítico da deriva totalitária e obscurantista que vem dominando o mundo árabe, e que, tendo provavelmente servido para assinar a sua sentença de morte, acaba de ser editado em Portugal.

Nele se aborda o grande impasse no qual todas as sociedades árabes se encontram, enunciando os seus traços mais dramáticos: uma enorme taxa de analfabetismo, disparidade entre os imensamente ricos e os desmedidamente pobres, sobrepovoamento das cidades, desertificação das províncias, estabelecimento de padrões espúrios de intolerância, um crescente isolamento em relação ao resto do mundo. Aos quais se associa a acção coligada dos governos autoritários e dos dignitários religiosos que em larga medida os dominam, a qual – com o apoio dos novos meios de comunicação, e entre eles o da estação de televisão Al-Jazira – trocou a formulação de políticas no sentido da resolução dos problemas pela aceitação de crenças messiânicas que deles desviam as atenções. E que são frequentes vezes apresentadas como parte de um legado histórico que Kassir, com um grande detalhe, mostra ser inexistente. Lembra, por exemplo, que a visão da jhiad bélica, encarnada na figura do istichhadi – aquele que pede o martírio – «só tem um verdadeiro antecedente na cultura árabo-muçulmana, na seita xiita (mas não árabe) dos Assassinos», fundada em 1090 por Hasan ibn al-Sabbah. Facto que uma grande parte dos muçulmanos, bombardeada pela propaganda radical, simplesmente desconhece.

Para muitos dos defensores da ordem obscurantista e do milenarismo mórbido que actualmente dominam esse universo múltiplo que pretendem transformar em uno – e para os seus parceiros ocidentais, que desvalorizam a dimensão da barbárie por considerá-la um aliado táctico na luta contra a globalização capitalista – falar hoje de modernidade árabe constituiria também uma quase «blasfémia intelectual». Porém, o próprio conceito de modernidade possui, tal como Samir Kassir procurou provar, uma tradição no mundo islâmico, não sendo de forma alguma a expressão de um mal, de origem ocidental, diante do qual se impõe apenas a mais intolerante violenta das rejeições.

Kassir anotou ainda, finalmente, que apesar do cerco existe uma saída, tal como existem forças capazes de procurá-la. Sublinhou assim a necessidade de «recusar Huntington» e a ideia de uma oposição violenta entre «eles» e «nós», mas também a importância de «não esquecer Lévi-Strauss», afastando a consideração de qualquer «civilização» como «superior» ou como «decadente», e aceitando sempre que «a humanidade é una, pois deriva de um fundo antropológico comum». A forma como o autor fechou o livro é um apelo que resulta particularmente dramático em função daquilo que lhe aconteceu poucos meses depois: «Que os árabes abandonem o fantasma de um passado inigualável para encararem por fim, de frente, a sua história. E, um dia, para lhe virem a ser fiéis.»

Samir Kassir (2006), Considerações Sobre a Desgraça Árabe. Lisboa: Cotovia. 140 pp. [ISBN: 972-795-162-7]

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