Passado/Presente

a construção da memória no mundo contemporâneo

Um regresso ao passado

Posted by Rui Bebiano em 01-10-2006

A história da esquerda radical em Portugal começa a ser feita. Exceptuando estudos ainda dispersos e preambulares, a regra, porém, tem sido a produção de algumas generalidades introduzidas em obras de referência, e de reportagens, de teor mais ou menos anedótico ou sensacionalista, sobre o «passado revolucionário» de algumas figuras públicas. E se as abordagens compreensivas daquele universo são raras, mais raros ainda são os testemunhos fornecidos pelos seus intérpretes directos. A publicação de Conquistadores de AlmasMemórias de uma militância e prisões políticas, da autoria de Pinto de Sá, sugere uma mudança neste panorama.

Trata-se de um volume algo extenso para aquilo que tem para dizer, povoado de detalhes e de informações redundantes, os quais, por vezes, só não se tornam irrelevantes porque o livro se assume desde o início como um esforço confessional, exaustivo, que se pretende documentado, de ajuste de contas com o passado. Certos aspectos transformam-no, porém, em obra que merece ser lida com alguma atenção.

Mao�smoDesde logo um factor perturbante: estas são as memórias de um «traidor». Alguém que integrou uma franja da oposição ao Estado Novo, mas que, confrontado com a prisão e o interrogatório da PIDE, rapidamente transigiu com os valores que defendera, fornecendo à polícia informações que possibilitaram outras prisões e o transformaram num seu informador activo e diligente. Facto que Pinto de Sá (PdS) tenta explicar pela interferência de uma capacidade de «conquista das almas» e de «massacre de personalidades» que a PIDE teria mantido. Esta experiência corresponderá a um fragmento do passado que outros portugueses partilharam e que não deixa de integrar o nosso lastro histórico. De facto, nem todos possuíam a mesma capacidade física, emocional e política para resistir à polícia: muitos sobreviveram a essa provação renegando as convicções e integram hoje a nossa sociedade democrática. Mas nem por isso a sua memória deve ser apagada.

Parte da originalidade do livro encontra-se também na forma como este testemunha o processo de politização de um estudante universitário comum, quase sem referências políticas e culturais prévias. Mostram-se traços do início do processo de revolta que são comuns a grande parte da juventude urbana que emergiu nos anos 60 («a minha idade de contestação começou um dia em que ouvi na rádio o “Satisfaction” dos Rolling Stones», p. 18). Mas o mais importante é, neste aspecto, a descrição pormenorizada da gestação e nascimento de um «jovem maoísta», que ia balançando entre leituras apressadas e nem sempre compreendidas de alguns textos clássicos do marxismo e do leninismo, a imersão num activismo frenético e muitas vezes sem norte, e um desejo de aproximação às «massas» e ao «povo», sempre distantes e fortemente idealizados.

Esta situação terá suscitado situações inquietantes, das quais é um bom exemplo a de PdS. Aquilo a que ele chama de «estado de paranóia” (p. 149) constitui, de facto, algo de notável no processo de formação da esquerda radical – e em particular na sua vertente maoísta – durante as décadas de 1960-70. A partir da experiência pessoal, aborda a discrepância entre a forma triunfalista como os jovens radicais imaginavam o desejo de mudança das «massas», o estado organizativo daquela que se considerava parte da sua suposta vanguarda, e a efectiva realidade sociológica e política. À compreensão deste aspecto associa, aliás, uma parte da argumentação que usa para explicar a sua traição, uma vez que, a dado momento, se apercebe finalmente do isolamento: «contrariamente aos elementos do PCP, (…) que se sentiam parte de metade da Humanidade e em regra tinham muitos laços afectivos e familiares com tradições de oposição ao regime, eu estava só» (p. 189).

Deste distanciamento parte também a crítica que faz da atitude de crença no derrube da ditadura por parte de um sector que partilhava igualmente de uma outra concepção ditatorial do exercício do poder, partilhando «ideologias que foram em grande parte responsáveis pelo século mais sangrento da História» (p. 302), minimizando PdS essa vertente da oposição ao regime salazar-marcelista. Fica pois, no ar, a ideia de que todos aqueles grupos de jovens ter-se-ão batido por uma causa sem sentido e condenada a ser execrada pela História. Prestando maior atenção às circunstâncias do processo histórico, o autor teria percebido que, podendo ser essa uma leitura contemporânea, no tempo e no meio em que emergiu ela correspondeu a uma forma empenhada e generosa de combater a ditadura. Contribuindo, ainda que em escala reduzida, para adensar uma rejeição que o 25 de Abril levou depois às últimas consequências.

Com alguma solidez interpretativa, com investigação suplementar sobre movimentos congéneres e sobre a própria realidade estudantil, com uma escrita mais cuidada e menos repetitiva, Pinto de Sá teria, por certo, produzido um livro bastante mais útil e interessante. O que não significa que, enquanto testemunho vivido e original de uma época, deixe de ter alguma utilidade. Servindo ainda, provavelmente, para exorcizar alguns fantasmas pessoais.

Pinto de Sá (2006), Conquistadores de Almas – Memórias de uma militância e prisões políticas (1970-1976). Lisboa: Guerra & Paz. 328 pp. [ISBN: 989-8014-09-1]

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

 
%d bloggers like this: