Passado/Presente

a construção da memória no mundo contemporâneo

Ano 100 da República

Posted by Rui Bebiano em 02-10-2006

anticlericalismo
Foto: Ilustração Portugueza, 1910, 2º Vol., p. 588

Decorrerá em 2010 o centenário da proclamação da República Portuguesa. Começam a preparar-se, naturalmente, as celebrações. Algumas cerimónias, números especiais de revistas, álbuns alusivos, colóquios, exposições, eventualmente alguns festejos capazes de mobilizarem o cidadão comum, cada vez menos dado a atribuir alguma importância a estas efemérides.

Durante o Estado Novo, a Primeira República foi recorrentemente olhada como uma experiência de pendor quase maximalista, que o salazarismo execrava de uma forma absolutamente visceral por considerá-la alheia às tradições fundamentais da Nação. Nas escolas primárias, os dezasseis anos de experiência republicana eram referidos em cinco minutos, invariavelmente para serem integrados num tempo de desordem, perseguições e decadência. Num filme de propaganda como A Revolução de Maio (1937), de António Lopes Ribeiro, o período era igualmente associado a práticas de violência pública, irreligiosidade e licença, às quais, ordenadamente, os militares de Braga, e depois Salazar, teriam posto termo. E mesmo após a revolução dos cravos, Vasco Gonçalves declarou, na tomada de posse, em 1974, como chefe do governo provisório, que «de modo algum» desejava ou admitia «um regresso ao triste passado de antes de 1926».

Em sentido inverso, para uma parte significativa da oposição ao regime, os republicanos prefiguravam ainda, pelo menos até aos finais da década de 1950, a imagem de uma democracia, jacobina mas respeitável, cujo regresso era julgado como possível pela própria transformação do regime, sem levar em grande consideração, para além do estritamente necessário, o papel e a influência do Partido Comunista. Mas tanto os comunistas como, mais tarde, os sectores da esquerda radical, foram evidenciando um crescente desinteresse pelo perfil deslocado no tempo e pelo discurso passadista daquele grupo de cavalheiros, saudosos de um tempo que não mais voltaria e adeptos de um «reviralho» que não passava dos seus projectos ultraminoritários.

As leituras do velho republicanismo não parecem hoje ter-se modificado muito, permanecendo na memória como mera referência histórica associada à toponímia local e às cores da bandeira. Um artigo publicado no número 19 da revista Atlântico pelo historiador Rui Ramos sugere entretanto, como forma de recuperação dessa imagem ultrapassada, que as comemorações de 2010 possam servir para apostar no «reconhecimento público de uma tradição importante do Estado, como a tradição do patriotismo cívico». Conhece-se bem a origem histórica desta aproximação, filiada na propaganda republicana das derradeiras décadas do século XIX, e sabemos quais os seus resultados quando alcançado o poder, tendentes a manter uma política capitulacionista diante das grandes potências. Não se me afigura, por isso, particularmente oportuna a sugestão. Aliás, não julgo ver a pátria de tal modo em perigo que possa requerer tal expediente. Mas já me pareceria muito mais interessante, e útil no momento actual, o aproveitamento da efeméride, e das iniciativas que a venham a rodear, para lembrar uma outra tradição que a república vigorosamente afirmou: a do laicismo e, como consequência, a da menorização da influência social do clero e da religião. Sem mimar o «anticlericalismo primário» republicano, tão ultrapassado quanto desnecessário, poderemos aprender alguma coisa, no plano cívico, com a sua luta contra o poder paralelo, recorrentemente emergente, das Igrejas e das suas ramificações.

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