Passado/Presente

a construção da memória no mundo contemporâneo

Memórias inventadas

Posted by passadopresente em 07-10-2006

Por Rui Miguel Brás

Há uma questão crucial com que todas as nações têm de lidar: a memória colectiva. Os diferentes países têm diferentes formas de lembrar o passado, de mantê-lo vivo ou sepultá-lo, e são tantos os casos de manipulação dos factos como de indiferença. Quando a lembrança é boa, a questão quase não se põe. Mas quando a lembrança é má, urge perguntar: que fazer? Com o totalitarismo a questão complicou-se. Primeiro, porque a memória dos regimes totalitários era e é uma memória dolorosa e tem um peso incalculável. Depois, porque durante o século XX os Estados adquiriram um poder de manipulação dos factos gigantesco, o que socorreu os vários totalitarismos, mas também os regimes democráticos que lhes sucederam, na manutenção ou na destruição da memória colectiva.

Isaiah Berlin costumava dizer que o Holocausto só tinha tido uma boa consequência: a consciência, dupla, do ancestral anti-semitismo e do então recente fenómeno totalitário. Com o fim do Fascismo e do Nazismo, Franco e Salazar ficaram sem âncora ideológica – mesmo que, ideológica e estruturalmente, os regimes português, espanhol, italiano e alemão fossem bastante distintos entre si. Tardou o fim das ditaduras em Espanha e Portugal mas, desde o fim da 2ª Guerra, esse fim era previsível e, mais que isso, inevitável. A União Soviética, porém, ainda durou, e só em 1989, com a queda do Muro de Berlim, é que houve uma perspectiva homogénea de liberdade na Europa.

Mas o fim dos vários totalitarismos fez com que os Estados, recém democráticos, recém libertos, à deriva, tivessem de lidar com um desafio problemático: a memória. Como lembrar um passado bárbaro e sanguinário sem horrorizar as populações? Como suavizá-lo sem correr o risco de ser esquecido? Como lidar com uma realidade que, durante muitos anos, ainda há-de assombrar um povo, um país, uma identidade? A opção que se generalizou foi transformar a memória em questão cultural, fenómeno sociológico, curiosidade bibliotecária; e, simultaneamente, apagar as réstias quotidianas dos regimes. Por exemplo criar museus nos campos de concentração, mas apagar os vestígios do Nazismo da cidade, das ruas, das praças, dos edifícios. [mais>>]

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