Passado/Presente

<i>Wunderkammer</i>

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Por Adriana Bebiano


Cabinet de curiosités, anónimo do final do século XVII
Opificio delle Pietre Dure – Florença

Entre os séculos XVI e XVII era comum encontrar-se, por toda a Europa, em cortes e casas aristocráticas – mais tarde, também em casas de grandes burgueses – um salão, câmara ou «gabinete de curiosidades». «Wunderkammer» – à letra, «quarto das maravilhas» – é a designação em alemão, que ainda hoje é usada em outras línguas, talvez pela particular importância que este fenómeno adquiriu nas cortes alemãs.

Podia tratar-se de um modesto armário ou de um salão, ou mesmo de vários salões, como no caso da Wunderkammer do Imperador Rudolfo II, em Praga. Nesses espaços, eram colocadas em exposição as «curiosidades», artefactos e objectos naturais, coleccionadas pelos seus proprietários. Poderia tratar-se de pássaros, ovos de aves exóticas, ossos e outras relíquias de santos, objectos de contornos não identificados mas supostamente antigos, pedras trabalhadas – mais tarde identificadas como machados pré-históricos, mas então apresentadas como amuletos – objectos de culto de outros povos, cabeças mumificadas, entre outros. Tudo o que tivesse o valor de «exótico» ou de «maravilhoso». Por «maravilhoso» aqui entenda-se o que «causa espanto», por ser estranho ao espaço e à cultura circundantes. A estranheza advinha de virem de geografias distantes ou de passados distantes. Mais exactamente, de um passado indiferenciado.

Estes objectos não eram catalogados ou sequer organizados segundo os padrões habituais na nossa cultura – que se quer «científica» e, por isso, pertinaz na procura da classificação e da arrumação de todo e qualquer objecto ou ideia. A Wunderkammer poderá, com justeza, ser considerada antepassada e progenitora dos museus contemporâneos. O famoso Ashmolean Museu, em Oxford, nasceu justamente a partir do «cabinet of curiosities» que o antiquário Elias Ashmole (1617-1692) doou à Universidade de Oxford em 1698. No entanto, a lógica que presidia à «organização» destes salões encontra-se nos antípodas da que rege os nossos museus. Os objectos eram coleccionados e exibidos de forma não sistemática, num caos celebratório da diversidade. Não havia – ou, pelo menos, no seu momento original, não havia – qualquer hierarquia organizativa, qualquer preocupação com o rigor na situação do tempo ou local de origem de cada um dos objectos, que assim adquiria um valor «em si», desprendido do seu significado de origem. [mais>>]

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