Passado/Presente

a construção da memória no mundo contemporâneo

Falar para a História

Posted by Rui Bebiano em 13-10-2006

Pode separar-se esquecimento e desmemória. Se o primeiro sugere descuido, acidente, o obscurecer casual de reminiscências do passado, a segunda implica um apagamento voluntário da lembrança, o desconhecimento, ou mesmo um desinteresse por áreas do vivido, consideradas irrelevantes e não-instrumentais. A obsessão contemporânea pelo passado − pelos museus e pelos monumentos, pelas comemorações, pelas tradições (recuperadas ou fabricadas) e pela demanda das raízes, tanto quanto pelas biografias, pelos filmes e romances de temática histórica ou pelos velhos ícones reproduzidos em t-shirts e capas de revista − compensa os inevitáveis processos do esquecimento. Mas acentua, ao mesmo tempo, o avanço da desmemória.

História oralIsso sucede, em grande parte, porque a informação disponível sobre o vivido é sempre parcial e decorrente de leituras hegemónicas, desenvolvidas tanto ao nível da divulgação histórica, apoiada nos meios de comunicação social, como no domínio dos programas escolares e da produção científica concentrada nas universidades e nos centros de investigação. Estas leituras são, como se sabe, tão pouco ingénuas quanto potencialmente excludentes. Desmemoriados, reconhecemos então como passado apenas o que nos é transmitido por intermédio de uma informação criteriosamente seleccionada: já não tanto aquilo que nos contam ou o que somos capazes de recuperar. Afinal, será «aquilo» o passado («aquilo» que escolheram não omitir, o que decifraram por nós e para nós, a chave de leitura que nos é proposta), ao mesmo tempo que «isto» («isto» que vivemos, o que os testemunhos colaterais também relatam, o que podemos inquirir ou por nós próprios perceber) nos é apresentado muitas vezes como um conjunto de equívocos ou alguma coisa de importância menor.

Enquanto fonte empírica de conhecimento, a intervenção do testemunho oral, olhado com desconfiança pelos poucos historiadores que ainda acreditam na exclusiva fiabilidade do documento escrito − tão fortuito e ilusório, tão autêntico e útil, quanto os restantes documentos − entra em conflito com essa situação de exclusão. Nas suas hesitações, na sua imprecisão, na sua assumida subjectividade, ele vai caminhando sobre a fronteira porosa que separa real e imaginação. Avança e volta atrás, recua um pouco e projecta-se rapidamente para a frente, contorna os objectos que parecem esmagá-lo, experimentando estratégias de abordagem e de enunciação que devolvem um pouco de vida ao passado e ajudam também a compreendê-lo.

Com pequenas alterações, este texto reproduz parte do meu prefácio a Anos Inquietos. Vozes do Movimento Estudantil em Coimbra (1961-1974), org. de Maria Manuela Cruzeiro e Rui Bebiano (2006). Porto: Afrontamento.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

 
%d bloggers like this: