Pode separar-se esquecimento e desmemória. Se o primeiro sugere descuido, acidente, o obscurecer casual de reminiscências do passado, a segunda implica um apagamento voluntário da lembrança, o desconhecimento, ou mesmo um desinteresse por áreas do vivido, consideradas irrelevantes e não-instrumentais. A obsessão contemporânea pelo passado − pelos museus e pelos monumentos, pelas comemorações, pelas tradições (recuperadas ou fabricadas) e pela demanda das raízes, tanto quanto pelas biografias, pelos filmes e romances de temática histórica ou pelos velhos ícones reproduzidos em t-shirts e capas de revista − compensa os inevitáveis processos do esquecimento. Mas acentua, ao mesmo tempo, o avanço da desmemória.
Enquanto fonte empírica de conhecimento, a intervenção do testemunho oral, olhado com desconfiança pelos poucos historiadores que ainda acreditam na exclusiva fiabilidade do documento escrito − tão fortuito e ilusório, tão autêntico e útil, quanto os restantes documentos − entra em conflito com essa situação de exclusão. Nas suas hesitações, na sua imprecisão, na sua assumida subjectividade, ele vai caminhando sobre a fronteira porosa que separa real e imaginação. Avança e volta atrás, recua um pouco e projecta-se rapidamente para a frente, contorna os objectos que parecem esmagá-lo, experimentando estratégias de abordagem e de enunciação que devolvem um pouco de vida ao passado e ajudam também a compreendê-lo.
Com pequenas alterações, este texto reproduz parte do meu prefácio a Anos Inquietos. Vozes do Movimento Estudantil em Coimbra (1961-1974), org. de Maria Manuela Cruzeiro e Rui Bebiano (2006). Porto: Afrontamento.