Passado/Presente

a construção da memória no mundo contemporâneo

Testemunhas do esquecimento

Posted by passadopresente em 15-10-2006

Por Rui Miguel Brás

I Will Bear WitnessQuem foi Victor Klemperer? Professor universitário alemão, de origem judia, nascido em 1881 e falecido em 1960. O essencial: Klemperer, ao contrário de grande parte da comunidade judaica alemã, sobreviveu ao nazismo sem fugir do país e sem ser deportado para um campo de concentração. Improvável, mas não impossível. Por ser casado com uma ariana cristã, Klemperer, protestante por credo e judeu por descendência, manteve-se na eminência da deportação, acabando sempre por evitá-la.

De Victor Klemperer não teria ficado memória se, aos cinquenta e dois anos, não se visse no centro do fenómeno nazi. Foi em 1933, com a chegada de Hitler ao poder, que Victor Klemperer iniciou os seus diários, obra que asseguraria a permanência do seu nome na História. Asseguraria? Talvez não. Quem ainda lembra os diários?

O que encontramos em I Will Bear Witness: A diary of the nazi years, 1933-45 (dividido em duas edições – 1933-41 e 1942-45 – e ainda sem edição portuguesa), não são simples apontamentos quotidianos sobre as iniquidades do regime: são ensaios rigorosos sobre a natureza do nazismo, sobre as suas raízes culturais e sobre a utilização da linguagem na propaganda nazi. Tendo permanecido em Dresden, destituído do título de professor, desempregado e impossibilitado de frequentar bibliotecas públicas, Klemperer dedicou-se por inteiro aos seus diários e, estando no centro do horror nazi, pôde relatar as violências e as humilhações sofridas pelos judeus. Foi essa convivência quotidiana e próxima que possibilitou as reflexões presentes nos diários, que constituem um momento raro de lucidez, numa época em que quase todos os relatos sobreviventes sofriam de excesso de dramatismo ou efabulação. Denunciou o clima de ódio e desconfiança vivido entre a comunidade judaica, movida pelo medo da delação, em contraste com a ilusória solidariedade romântica que, durante muito tempo, se julgou existir.

Victor KlempererKlemperer sofreu nas mãos dos nazis, mas não cedeu: manteve sempre o tom indignado e inconformado com o conformismo dos seus compatriotas, e disse dos diários, da escrita, que era a sua forma de resistência, de se manter humano, de não deixar a barbárie cair no esquecimento – I will bear witness. Viu no nazismo, na sua motivação, o pecado tardio da pátria alemã: o pangermanismo, consequência do ultra-romantismo alemão, e identificou o anti-semitismo como um motor bem oleado, servindo de bode expiatório aos sonhos imperiais de Hitler. Estruturalmente, Klemperer considerou o Nacional-socialismo a prática rigorosa das ideias de Rousseau, pondo em causa o nazismo como fenómeno de extrema-direita.

Os diários só foram encontrados trinta anos após a morte do autor, em 1960. À época o nazismo já tinha sido estudado e mais que estudado: dissecado. Klemperer não foi uma lufada de ar fresco, porque merecia um escrutínio mais profundo. E não foi um sucesso editorial, porque não caiu na facilidade do sentimentalismo, no cliché da tragédia ou na demonização de Hitler. Klemperer sabia que o nazismo tinha sido obra de homens, não de monstros. Convém lembrar o seu testemunho. Para não testemunharmos algo de pior: o esquecimento.

Victor Klemperer (1998), I Will Bear Witness: A Diary of the Nazi Years, 1933-1941. London: Random House. 544 pp. [ISBN: 037-5753-78-8]

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