Por Rui Miguel Brás
De Victor Klemperer não teria ficado memória se, aos cinquenta e dois anos, não se visse no centro do fenómeno nazi. Foi em 1933, com a chegada de Hitler ao poder, que Victor Klemperer iniciou os seus diários, obra que asseguraria a permanência do seu nome na História. Asseguraria? Talvez não. Quem ainda lembra os diários?
O que encontramos em I Will Bear Witness: A diary of the nazi years, 1933-45 (dividido em duas edições – 1933-41 e 1942-45 – e ainda sem edição portuguesa), não são simples apontamentos quotidianos sobre as iniquidades do regime: são ensaios rigorosos sobre a natureza do nazismo, sobre as suas raízes culturais e sobre a utilização da linguagem na propaganda nazi. Tendo permanecido em Dresden, destituído do título de professor, desempregado e impossibilitado de frequentar bibliotecas públicas, Klemperer dedicou-se por inteiro aos seus diários e, estando no centro do horror nazi, pôde relatar as violências e as humilhações sofridas pelos judeus. Foi essa convivência quotidiana e próxima que possibilitou as reflexões presentes nos diários, que constituem um momento raro de lucidez, numa época em que quase todos os relatos sobreviventes sofriam de excesso de dramatismo ou efabulação. Denunciou o clima de ódio e desconfiança vivido entre a comunidade judaica, movida pelo medo da delação, em contraste com a ilusória solidariedade romântica que, durante muito tempo, se julgou existir.
Os diários só foram encontrados trinta anos após a morte do autor, em 1960. À época o nazismo já tinha sido estudado e mais que estudado: dissecado. Klemperer não foi uma lufada de ar fresco, porque merecia um escrutínio mais profundo. E não foi um sucesso editorial, porque não caiu na facilidade do sentimentalismo, no cliché da tragédia ou na demonização de Hitler. Klemperer sabia que o nazismo tinha sido obra de homens, não de monstros. Convém lembrar o seu testemunho. Para não testemunharmos algo de pior: o esquecimento.
Victor Klemperer (1998), I Will Bear Witness: A Diary of the Nazi Years, 1933-1941. London: Random House. 544 pp. [ISBN: 037-5753-78-8]