Passado/Presente

a construção da memória no mundo contemporâneo

Panpoliticismo, outrora

Posted by Miguel Cardina em 16-10-2006

politicaÉ um lugar-comum: só se vê aquilo que a teoria deixa perceber. Durante os anos sessenta, os marxistas de pendor mais «clássico», agarrados às ferramentas conceptuais do materialismo dialéctico, crentes no finalismo histórico e no poder messiânico da classe operária, e preocupados, por isso, em predizer uma revolução que não acontecia, impediam-se de compreender uma outra revolução que estava a acontecer, e que abarcava condições materiais, estilos de vida, relações familiares e liberdades individuais. Numa obra monumental sobre o assunto – The Sixties. Cultural Revolution in Britain, France, Italy and United StatesArthur Marwick demonstrou precisamente como os «longos anos sessenta» – período que o historiador britânico coloca entre a segunda metade da década de cinquenta e a primeira metade da década de setenta – originaram uma «revolução cultural» que, apesar de não se ter revestido das características típicas de uma revolução política e económica, não deixou de modificar com profundidade a paisagem social.

As propostas de alargamento do «político» a domínios até então insuspeitos, dificilmente encaixáveis nos esquemas teóricos do referido marxismo, acentuavam essa incapacidade de ver a realidade – ou, num registo mais suave, de valorizar as mutações que nela iam ocorrendo. De facto, opera-se, à época, uma politização quase metafísica do mundo que conduziu a novas formas de pensar, sentir e agir, tão radicais quanto distantes dos modelos propagados de transformação social. A difusão nas ruas e nas universidades do enunciado «tudo é político», potenciara uma crítica radical dos costumes, abrira lugar ao nascimento e renovação de alguns movimentos sociais – como o feminismo, o ecologismo ou os movimentos em torno da defesa das minorias e das «identidades» – e transformara o corpo e o quotidiano em questões políticas. Lugares de expressão e de transgressão, de deleite e de visibilidade. Marcuse, Reich e Fromm caucionavam teoricamente essa revolução, os situacionistas, os provos e os Yippies levavam-na até ao extremo e, no campo da «cultura de massas», Bardot e Joplin, Morrison e Dylan, a mini-saia e a pílula mostravam-na presente e difusa.

Contudo, para o puritanismo estalinista dos partidos comunistas tradicionais, estas práticas pouco tinham de «político». Eram vistas como ímpetos imaturos causados por uma objectiva posição de classe ou mesmo, em alguns casos, manifestações de desvio e dissolução moral que preconizavam a confusão entre «fazer amor» e «fazer a revolução». Uma parte dos grupos da esquerda radical pós-68 viria a recuperar e, por vezes, potenciar, este conservadorismo moral receoso de afugentar «as massas». Neste processo, teve particular importância a imagem quase assexuada da revolução cultural chinesa, que fomentou o estabelecimento, no interior destas organizações recém aparecidas, de um rígido controlo de condutas, composto por críticas e auto-críticas, por directivas visando estabelecer o comportamento adequado do revolucionário e por censuras constantes ao «liberalismo» e à «decadência» burguesas.

No contexto de uma forma de militantismo que propunha a indefinição entre vida privada e vida militante, exaltava-se o heroísmo, a abnegação e o espírito de sacrifício, características definidoras do autêntico revolucionário. O entendimento da ideia de libertação como um processo meramente colectivo legitimava, pois, a secundarização dos impulsos, dos desejos e das necessidades individuais. Estranhamente, por outro lado, em muito do empenhamento político ocorrido durante os anos sessenta no espaço comunista e radical é detectável a presença de um dos traços essenciais do universo sixtie: a colocação do corpo e da subjectividade no espaço real e imaginário da transfiguração, do risco e da aventura. Como se a prática estivesse um pouco além da teoria.

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