As propostas de alargamento do «político» a domínios até então insuspeitos, dificilmente encaixáveis nos esquemas teóricos do referido marxismo, acentuavam essa incapacidade de ver a realidade – ou, num registo mais suave, de valorizar as mutações que nela iam ocorrendo. De facto, opera-se, à época, uma politização quase metafísica do mundo que conduziu a novas formas de pensar, sentir e agir, tão radicais quanto distantes dos modelos propagados de transformação social. A difusão nas ruas e nas universidades do enunciado «tudo é político», potenciara uma crítica radical dos costumes, abrira lugar ao nascimento e renovação de alguns movimentos sociais – como o feminismo, o ecologismo ou os movimentos em torno da defesa das minorias e das «identidades» – e transformara o corpo e o quotidiano em questões políticas. Lugares de expressão e de transgressão, de deleite e de visibilidade. Marcuse, Reich e Fromm caucionavam teoricamente essa revolução, os situacionistas, os provos e os Yippies levavam-na até ao extremo e, no campo da «cultura de massas», Bardot e Joplin, Morrison e Dylan, a mini-saia e a pílula mostravam-na presente e difusa.
Contudo, para o puritanismo estalinista dos partidos comunistas tradicionais, estas práticas pouco tinham de «político». Eram vistas como ímpetos imaturos causados por uma objectiva posição de classe ou mesmo, em alguns casos, manifestações de desvio e dissolução moral que preconizavam a confusão entre «fazer amor» e «fazer a revolução». Uma parte dos grupos da esquerda radical pós-68 viria a recuperar e, por vezes, potenciar, este conservadorismo moral receoso de afugentar «as massas». Neste processo, teve particular importância a imagem quase assexuada da revolução cultural chinesa, que fomentou o estabelecimento, no interior destas organizações recém aparecidas, de um rígido controlo de condutas, composto por críticas e auto-críticas, por directivas visando estabelecer o comportamento adequado do revolucionário e por censuras constantes ao «liberalismo» e à «decadência» burguesas.
No contexto de uma forma de militantismo que propunha a indefinição entre vida privada e vida militante, exaltava-se o heroísmo, a abnegação e o espírito de sacrifício, características definidoras do autêntico revolucionário. O entendimento da ideia de libertação como um processo meramente colectivo legitimava, pois, a secundarização dos impulsos, dos desejos e das necessidades individuais. Estranhamente, por outro lado, em muito do empenhamento político ocorrido durante os anos sessenta no espaço comunista e radical é detectável a presença de um dos traços essenciais do universo sixtie: a colocação do corpo e da subjectividade no espaço real e imaginário da transfiguração, do risco e da aventura. Como se a prática estivesse um pouco além da teoria.