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a construção da memória no mundo contemporâneo

Guerra Civil e guerra de culturas

Posted by Rui Bebiano em 19-10-2006

Guerra CivilNa Breve História da Guerra Civil de Espanha, o conflito que tem integrado parte da memória traumática da esquerda europeia surge como uma «guerra de culturas». Helen Graham, professora de História de Espanha na Royal Halloway da Universidade de Londres, insiste neste aspecto, sublinhando o facto das culturas em confronto não terem visto as suas matrizes definidas apenas a partir da oposição entre democracia e autoritarismo. Toma-as antes como resultado de incompatibilidades mais profundas, ocorridas entre mundos paralelos que se não suportavam reciprocamente, que existiam em potência antes do início do conflito (alguns deles vindos mesmo do século anterior), e que teriam sido exacerbadas por este. Para Graham, o «nós» e o «eles» como extremos inconciliáveis, integradores de profundas diferenças culturais e potenciadores de identidades excludentes, teriam sido, afinal, «categorias forjadas pela experiência violenta da guerra».

O livro funciona como uma sinopse para quem pretenda conhecer de forma amena os contornos essenciais da Guerra espanhola. Mas define-se também como obra estimulante, de utilidade para quem os conheça já e procure agora uma abordagem crítica do seu desenvolvimento e da forma como a sua memória se articulou com a longa experiência da governação franquista e com os conflitos silenciados e os dilemas do pós-franquismo.

A autora é peremptória ao demarcar os campos dentro dos quais se foram desenvolvendo as culturas em guerra, embora a separação nem sempre coincidisse rigorosamente com a linha de fronteira traçada entre os que apoiavam declaradamente a República e aqueles que se haviam colocado do lado dos militares golpistas. Observavam-se neste domínio sucessivos choques: «a cultura urbana e os estilos de vida cosmopolitas versus a tradição rural; o secular versus o religioso; o autoritarismo versus as culturas políticas liberais; o centro versus a periferia; o papel tradicional do género feminino versus a “nova mulher”; e até mesmo os jovens versus os velhos, uma vez que os conflitos geracionais também se faziam sentir». O uso quase indiscriminado da violência sobre os civis, como um dos aspectos mais evidentes da Guerra Civil e «ensaio-geral» para as matanças que iriam marcar o grande conflito mundial que se aproximava, é destacado como parte integrante, essencial, desse confronto de culturas.

Guerra Civil de EspanhaConhecendo-se bem a existência dos crimes contra civis cometidos pelas duas partes, a autora fala, no entanto, de uma «assimetria da violência». Esta teria sido determinada pelo facto de um dos lados (o republicano) a exercer fundamentalmente através de grupos ou de bandos não-controlados, de eficácia limitada, enquanto o outro (o rebelde) o fazia sistematicamente através de execuções patrocinadas pelo exército ou pela polícia, às quais os tribunais e as autoridades locais reinstaladas fechavam os olhos. De ambos os lados, porém, é conhecida a escolha das vítimas determinada pelos particularismos culturais que as definiam como pertencendo «inevitavelmente» ao campo do inimigo. Os que se batiam do lado da República perseguiam assim, particularmente, os membros do clero (estima-se em cerca de 7.000 o número de religiosos mortos), alguns aristocratas locais e latifundiários, figuras que simbolizavam simplesmente a velha ordem (como o cantor da igreja ou o tocador do sino da aldeia). Nas áreas controladas pelos golpistas assassinavam-se sobretudo os intelectuais e os profissionais liberais conotados com a esquerda ou com o anticlericalismo, as «mulheres-livres» (como a «pecaminosa» Amparo Barayón, mulher do romancista Ramón Sender, ou Pilar Espinosa, morta apenas por «tener ideas») ou os homossexuais (como García Lorca e outros). O terror surgia, assim, não apenas como acto de guerra, mas também enquanto instrumento aniquilador de uma dada ordem e de imposição de uma outra.

A dimensão desta guerra cultural terá sido subavaliada por parte da historiografia da Guerra Civil, ocupada principalmente com os confrontos militares, a distribuição dos poderes e a responsabilidade das organizações políticas. O movimento, a decorrer neste momento em Espanha, no sentido da recuperação da memória do conflito e da revisão da sua história – durante longos anos escamoteadas a sucessivas gerações – tem contribuído para ultrapassar esses limites. Este livro de Helen Graham – ilustrado, aliás, com uma importante iconografia de guerra, pintada como horror mas também como «fiesta» – ajuda a entender melhor uma parte deste processo.

Helen Graham (2006), Breve História da Guerra Civil de Espanha. Lisboa: Tinta da China. Trad. de Vladimiro Nunes. 216 pp. [ISBN: 972-8955-13-8]

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