Passado/Presente

a construção da memória no mundo contemporâneo

Os telegramas da revolução portuguesa

Posted by Tiago Barbosa Ribeiro em 27-10-2006

Kissinger«Morning summary of significant reports»: é este o título do primeiro telegrama do Departamento de Estado que na manhã de 25 de Abril de 1974 chega à Casa Branca e à CIA. Será o primeiro de milhares de telegramas e de outros documentos que os EUA vão acumular sobre Portugal até 25 de Novembro de 1975. Muita da correspondência diplomática enviada pela embaixada norte-americana em Lisboa foi recentemente desclassificada, permitindo uma aproximação aos densos bastidores que influenciaram – decisivamente? – alguns dos acontecimentos no terreno.

Nas missivas da embaixada sucedem-se referências mais ou menos irrelevantes – como as dicas para Henry Kissinger: a transcrição fonética de Balsemão é «Bal Say Maown» e da Sá Carneiro é «Sah Car Ney Row» – até à abordagem dos momentos mais críticos de um processo revolucionário que esteve tantas vezes no limbo de uma malha estratégica entre os grandes corredores da geopolítica da Guerra Fria. A preocupação com a base das Lajes, pouco antes utilizada no apoio a Israel na guerra de Yom Kippur, multiplica-se em muitos telegramas. E, num documento datado de 16 de Julho de 1974, a embaixada afirma que um grupo de banqueiros e industriais está alarmado com a possibilidade de um «communist takeover» no país e pede uma intervenção dos EUA.

Mário Soares, «acima de tudo um pragmático», é um dos portugueses mais citados na correspondência diplomática. Percebe-se que o PS é o partido-chave no esforço de contenção da ingerência soviética e da agitação comunista, sendo apoiado pelos EUA e pela Internacional Socialista (IS): o Partido Social-Democrata Alemão (SPD) e a República Federal Alemã financiaram o PS através da IS e o principal objectivo de Willy Brandt – que permaneceu na presidência do SPD após a demissão como chanceler – seria impedir uma aliança entre os socialistas e os comunistas portugueses após as eleições de 1975.

A análise da documentação existente até finais de 1974 faz sobressair um elevado número de erros, incorrecções ou simples desconhecimentos da embaixada norte-americana sobre a realidade política portuguesa, o que será tanto mais estranho se considerarmos que muitos dos principais actores do PREC já tinham um longo historial na oposição ao Estado Novo. Essas lacunas fazem com que Kissinger nomeie outro dirigente para a embaixada norte-americano de Lisboa em Novembro de 1974: seria Frank Carlucci, um homem da sua absoluta confiança que irá atravessar o Verão Quente de 1975 e estabelecer uma amizade duradoura com Mário Soares. A 7 de Novembro de 1975, num relatório enviado para o Departamento de Estado, Carlucci refere a possibilidade de uma movimentação militar para definir o rumo da revolução – para qualquer dos lados – e afirma que «11 de Novembro é a data de que todos falam». Duas semanas depois, Ramalho Eanes dirigia as operações militares que determinariam o epílogo do PREC e de um período em que Guerra Fria aqueceu temporariamente o país mais ocidental do continente europeu.

Nota: Os arquivos do Departamento de Estado dos EUA encontram-se disponíveis em http://aad.archives.gov/aad/. Na sua edição de 14.Out.06, a revista Actual do semanário Expresso também dedica um artigo a este tema.

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