Passado/Presente

a construção da memória no mundo contemporâneo

Grandes Portugueses para «portugueses médios»

Posted by Rui Bebiano em 06-11-2006

São muitos os exemplos da relação defensiva que a história tem mantido com a ficção. «A História é um assunto sério», ouvi há dias um historiador declarar publicamente, num sinal de menorização tácita do discurso ficcional, frequente entre as humanidades e as ciências sociais quando alguma delas procura afirmar o seu lugar diante dos outros saberes ou face à opinião pública. Ficava subentendida também uma concepção da escrita da história como vinculada de forma exclusiva à percepção «certificável» do ocorrido, desvalorizadora, no plano epistemológico, dos humores da imaginação e da comunicação enquanto arte. Escrevi há alguns anos um pequeno artigo sobre a história como poética no qual procurei abordar este tema, e conto voltar a ele. Neste momento, prefiro associar o tratamento do passado de forma despojada dos efeitos de sedução a uma outra reflexão, talvez mais urgente.

Numa altura em que o seu conhecimento – mesmo aquele mais elementar e factual – se reduz praticamente, para a maioria das pessoas, a umas quantas generalidades ensinadas até ao 9º ano de escolaridade, a notas avulsas surgidas em alguns jornais diários ou na imprensa light, a rubricas de certos programas e concursos televisivos, ou à interferência dos romances históricos de qualidade literária duvidosa, mais do que lamentar as mudanças impostas por este estado de coisas, importará questionar a concepção litúrgica da história que tem servido de álibi a essa vaga de simplificação. Essa «história-cerimónia» que, em nome da estrita «cientificidade», ou da intenção legitimadora, se exclui por vontade própria do papel pedagógico e de intervenção quotidiana no presente, desvalorizando-se enquanto instrumento da cidadania e isolando-se socialmente.

Constitui aliás um esforço inglório, e que em regra se vira contra os próprios historiadores, a concentração de energias em prédicas contra as imprecisões e as «falsificações da história» introduzidas, inevitavelmente, num número crescente de romances, filmes e séries televisivas de temática histórica, concebidos como ficções ou como documentários semi-ficcionados. [mais>>]

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

 
%d bloggers like this: