Passado/Presente

a construção da memória no mundo contemporâneo

Grãos na engrenagem

Posted by Rui Bebiano em 11-11-2006

FriedmanDentro da teia comunicacional, activa e omnipresente, só o autismo dos regimes totalitários permite hoje o vislumbre de um mundo que permanece inequivocamente inspeccionado e mudo. O controlo da informação em países como a Coreia do Norte ou a China Popular, como Cuba ou a Arábia Saudita, possibilita ainda, excepcionalmente, a manutenção de mundos à parte, dentro dos quais a acção dos governos, e as leituras da história que este impõem, se inscrevem em rígidas pautas feitas de falas consentidas e de silêncios impostos. Nos Estados que vivem sob uma democracia formal, capaz de conviver com uma liberdade de opinião e de expressão que a Internet alargou a novas fronteiras, o controlo é menos directo e violento, embora mais subtil. Traduz-se, essencialmente, na omissão de informação, no «esquecimento» das vozes polémicas, na imposição de discursos inócuos de tão padronizados. No caso extremo das posições indesejadas que parecem poder colidir com o interesse público, estes processos são, aliás, consentidos pela generalidade dos cidadãos. No prefácio que escreveu para The Secret Histories, James Carroll sublinhou que, ao contrário daquilo que acontece no sistema totalitário, «numa democracia os segredos considerados abusivos são conservados com recurso a uma colaboração entre o governo e o governado». Os média, de uma forma particularmente significativa, podem até «transformar-se em instrumentos de um obstinado não-conhecer, que induz a população a olhar para outro lado».

Esta antologia, organizada e comentada por John S. Friedman, jornalista americano que é também realizador de cinema documental, partiu deste princípio para tentar reunir um conjunto de textos que, de forma singular, se tivessem mostrado capazes de quebrar esse consenso, contribuindo, de maneira poderosa e visível, para produzirem viragens importantes na opinião pública e na política dos governos perante situações e problemas «desejavelmente» ignorados pelos principais meios de comunicação. Pode encontrar-se aqui uma certa «história secreta» de diversos conflitos armados, desde a Segunda Guerra Mundial ao Vietname, ou achar-se o processo de revelação pública de situações como a violação dos direitos humanos durante o Holocausto e em May Lai, o genocídio do Ruanda, a tortura de prisioneiros muçulmanos em Abu Ghraib. O empenhado secretismo de ambos os lados da Guerra Fria é também representado por um vasto conjunto de materiais que se ocuparam da repressão no Gulag soviético ou dos abusos domésticos – a maioria dos exemplos reportam-se, de facto, à realidade americana – de Nixon, de J. Edgar Hoover, da CIA ou do FBI. A preservação dos segredos sobre o nuclear, as experiências médicas governamentais utilizando a radioactividade e o LSD, a forçada omissão do conhecimento público acerca dos efeitos nefastos do tabaco ou sobre o prevalecimento das actividades do crime organizado, constam também dos documentos de choque que este volume reúne. Estes incluem dados e factos que os governos ou, pelo menos, aqueles que em determinado momento neles detiveram o controlo do poder, teriam decerto preferido que jamais se tivessem tornado do conhecimento público. E também um conjunto de provas a propósito de forma como, por vezes, uma informação singular concebida fora das áreas de decisão – e divulgada, a contracorrente, sob a forma de notícia de jornal, de folha de fax, de texto policopiado, de programa da rádio ou de vídeo amador – pode suscitar transformações de grande impacte e duração, ajudando a compreender viragens aparentemente bruscas.

John S. Friedman, ed. (2005), The Secret Histories. Hidden Truths That Challenged The Past And Changed The World. New York: Picador. 530 pp. [ISBN: 0-312-42517-1]

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