O paradoxo é apenas aparente, sendo conhecida, por parte de todos os que trabalham com o passado e com a memória, esta obrigação de esquecer. Renan insistia já, num texto de 1882, no facto de a criação das nações impor o uso criativo dos acontecimentos passados, implicando esta atitude, pode acrescentar-se, a eliminação consciente de determinados elementos durante o processo de construção das narrativas históricas. Cem anos depois, Benedict Anderson mostrou como o esquecimento selectivo constitui um dos mais importantes mecanismos identitários utilizados na construção da nação enquanto «comunidade imaginada». Um processo inevitável, determinado, quanto mais não fosse, pela incapacidade de conhecer todos os fragmentos do passado e de integrar toda a sua complexidade num discursos completo, harmonioso e inteligível. Todo o «dever da memória» – incluindo aquele que integra preocupações cívicas, como as que se relacionam com a defesa das nacionalidades ou «inculpação histórica» dos crimes de guerra e das formas de genocídio – implica, pois, uma perspectiva assumidamente parcial, permeável à necessidade de esquecer.
Mas deverá esta obrigação de esquecer, de forma a investigar o acontecido, implicar o desinteresse pelas aquisições da memória abertamente induzidas pela experiência do presente? Pelo contrário. Augé declara que a experiência da memória integra a lembrança e a vigilância: «A vigilância é a actualização da lembrança, o esforço para imaginar no presente o que poderia assemelhar-se ao passado». Desta forma, é necessariamente a partir das questões que o presente levanta que se procede à escolha daquilo que deve ser observado e daquilo que deverá, momentaneamente, ignorar-se ou ser colocado como simples elemento de um distante cenário. Não é possível, por exemplo, reconhecer em profundidade os dramas pessoais das vítimas da repressão imposta pelos regimes totalitários se nos concentrarmos nos dramas íntimos e nas justificações subjectivas dos seus algozes. Ao omitir ou relevar, o esquecimento constitui-se então como uma das bússolas para viajar, com orientação e proveito, até ao passado que espera. O que não impõe uma constante reescrita da história, mas o reconhecimento da vinculação dos trabalhos de historiografia que vão sendo iniciados às dúvidas e aos problemas colocados pelo presente.