Para se entender os contornos desta ligação, é necessário ter presente a noção de «protesto anti-disciplinar», eixo conceptual através do qual se vai desdobrando o texto. Para Stephens, a radicalidade dos anos sessenta resulta da invenção de uma nova linguagem de protesto, marcada pela celebração da ambiguidade e por uma recusa da «disciplina do político» (p.23). Partindo de uma re-leitura da década que se concentra em algumas vertentes mais radicais da contracultura, geralmente desconsideradas, a autora contesta as interpretações que descrevem os anos sessentaa partir de distinções rígidas como as efectuadas entre activistas e hippies, políticos e apolíticos, radicalismo político e radicalismo cultural.
A nova linguagem de protesto caracteriza-se precisamente por uma transgressão deliberada destas distinções. É isso que Stephens procura demonstrar recorrendo à evocação de acontecimentos como a tentativa de levitação do Pentágono, encenada em 1967, ao exame de práticas e discursos de grupos como os Yippies e os Diggers ou à análise do conceito de «livre», entendido já não apenas como resgate dos constrangimentos sociais, económicos e políticos, à maneira da esquerda tradicional, mas também como uma espécie de «qualidade corpórea» de «ressonâncias metafísicas» (p.43). Longe de ser apolítica, esta nova linguagem afastava-se, isso sim, da ideia de que o político se definisse em torno de noções como organização, hierarquia e liderança. Criticando a inteligibilidade e a coerência ou, dito de outro modo, a racionalidade herdada do Iluminismo, o radicalismo sixtie abriu caminho a um repensamento do sentido e do carácter do político. [mais>>]