Passado/Presente

a construção da memória no mundo contemporâneo

Das casas dos mortos

Posted by Rui Bebiano em 07-12-2006

Estaline em grupoO subtítulo recorda uma certa literatura antisoviética do tempo da Guerra Fria. Mas Estaline – A Corte do Czar Vermelho, do historiador britânico Simon Sebag Montefiore, não é, de forma alguma, um livro de propaganda. Tendo ganho em 2004 o History Book of The Year Award, atribuído pelos British Book Awards, resulta antes de um trabalho prolongado, desenvolvido no terreno ao longo dos anos 90, época na qual Montefiore percorreu uma boa parte da ex-URSS, pesquisando e escrevendo ao mesmo tempo artigos para o Sunday Times, o New York Times e a Spectator. Ao estudo e à experiência que foi acumulando, juntou, a partir de 2000, um trabalho minucioso, e surpreendentemente rápido, sobre os arquivos pessoais dos antigos membros do Politburo do Partido Comunista, entretanto libertos para a consulta pública.

Não é mais uma biografia de Estaline, mas antes um relato, bastante pormenorizado, da vida íntima, ou daquela preservada da exposição pública, dos principais dirigentes da União Soviética e das suas famílias durante o período no qual o georgiano de Gori assumiu a direcção do Partido e do Estado. Tal qual essa vida decorreu nos espaços fechados ­– gabinetes, corredores e antecâmaras, alpendres de dachas, conclaves partidários, mas também salas de tribunal, câmaras de tortura, prisões e paredões de fuzilamento – de onde apenas saíam para executarem decisões, ou, como aconteceu a um grande número deles, para serem abatidos e apagados da história.

Trata-se pois de um relato à «huis clos», sobre um universo até há pouco tempo conservado impenetrável ou confinado aos testemunhos bastante parciais de quem apenas episodicamente o entrevira e pôde «viver para contá-lo». Desta vez, quem fala são também os relatórios mantidos ultra-confidenciais durante décadas, as cartas directamente dirigidas ao «pai dos povos», os bilhetes pessoais trocados durante as reuniões ou durante almoços e jantares, os telegramas urgentes, até mesmo as caricaturas naïf e as piadas brejeiras com as quais os dignitários do regime aliviavam a imensa tensão na qual viviam.

Porque é esse o traço mais terrível e evidente que emerge deste livro. Conhece-se hoje bastante bem a dimensão dos processos de Moscovo, das purgas internas constantes e discricionárias, das deportações em massa, da organização brutal e do colossal crescimento do Gulag. Mas, afora os testemunhos pessoais – que podem sempre ser acusados de parciais ou de episódicos (veja-se Bukharine, minha paixão, de Anna Larina Bukharina, traduzido por Ludgero Pinto Basto e editado em 2005 pela Terramar) – permanecia por reconhecer a dimensão da tensão, das sobrecargas de trabalho, da exigência constante, do medo sem fim, no qual estes homens – incluindo-se neles o próprio José Vissarianovich, gradualmente transformado num misógino e num maníaco da suspeita – permanentemente viviam, alimentando uma concepção paranóica do poder e da actividade política comum aos «grandes homens» que se elevaram dos restantes rodeando-se de salafrários e de yes men. Aqui, com a agravante de, como nos mostra este livro terrível mas também fascinante (apesar de alguns desagradáveis pormenores de tradução e da pavorosa capa escolhida para a edição portuguesa), serem todos eles, igualmente, semi-homens incapazes de colocarem a compaixão, e a capacidade para pensar pela própria cabeça, acima do destino colectivo, inexorável, e permanentemente vigiado, que acreditavam partilhar.

Simon Sebag Montefiore (2006), Estaline – A Corte do Czar Vermelho. Lisboa: Alêtheia. Trad. de Mário Dias Correia. 666 pp. [ISBN: 989-622-024-7]

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