Não é mais uma biografia de Estaline, mas antes um relato, bastante pormenorizado, da vida íntima, ou daquela preservada da exposição pública, dos principais dirigentes da União Soviética e das suas famílias durante o período no qual o georgiano de Gori assumiu a direcção do Partido e do Estado. Tal qual essa vida decorreu nos espaços fechados – gabinetes, corredores e antecâmaras, alpendres de dachas, conclaves partidários, mas também salas de tribunal, câmaras de tortura, prisões e paredões de fuzilamento – de onde apenas saíam para executarem decisões, ou, como aconteceu a um grande número deles, para serem abatidos e apagados da história.
Trata-se pois de um relato à «huis clos», sobre um universo até há pouco tempo conservado impenetrável ou confinado aos testemunhos bastante parciais de quem apenas episodicamente o entrevira e pôde «viver para contá-lo». Desta vez, quem fala são também os relatórios mantidos ultra-confidenciais durante décadas, as cartas directamente dirigidas ao «pai dos povos», os bilhetes pessoais trocados durante as reuniões ou durante almoços e jantares, os telegramas urgentes, até mesmo as caricaturas naïf e as piadas brejeiras com as quais os dignitários do regime aliviavam a imensa tensão na qual viviam.
Porque é esse o traço mais terrível e evidente que emerge deste livro. Conhece-se hoje bastante bem a dimensão dos processos de Moscovo, das purgas internas constantes e discricionárias, das deportações em massa, da organização brutal e do colossal crescimento do Gulag. Mas, afora os testemunhos pessoais – que podem sempre ser acusados de parciais ou de episódicos (veja-se Bukharine, minha paixão, de Anna Larina Bukharina, traduzido por Ludgero Pinto Basto e editado em 2005 pela Terramar) – permanecia por reconhecer a dimensão da tensão, das sobrecargas de trabalho, da exigência constante, do medo sem fim, no qual estes homens – incluindo-se neles o próprio José Vissarianovich, gradualmente transformado num misógino e num maníaco da suspeita – permanentemente viviam, alimentando uma concepção paranóica do poder e da actividade política comum aos «grandes homens» que se elevaram dos restantes rodeando-se de salafrários e de yes men. Aqui, com a agravante de, como nos mostra este livro terrível mas também fascinante (apesar de alguns desagradáveis pormenores de tradução e da pavorosa capa escolhida para a edição portuguesa), serem todos eles, igualmente, semi-homens incapazes de colocarem a compaixão, e a capacidade para pensar pela própria cabeça, acima do destino colectivo, inexorável, e permanentemente vigiado, que acreditavam partilhar.
Simon Sebag Montefiore (2006), Estaline – A Corte do Czar Vermelho. Lisboa: Alêtheia. Trad. de Mário Dias Correia. 666 pp. [ISBN: 989-622-024-7]