Em Funes ou a memória, de Jorge Luis Borges, o narrador ensaia uma estranha evocação post-morten de Irineo Funes, um jovem uruguaio que ficara paralisado após uma queda de um cavalo. Condenado a permanecer deitado o resto dos seus dias, Funes adquirira uma memória prodigiosa, uma espécie de dom ou maldição resultante do acidente. Uma noite, o narrador visita Funes e este explica-lhe o projecto de nomear cada sensação na sua exacta singularidade: «não só lhe custava compreender que o símbolo genérico cão abrangesse tantos indivíduos díspares de diferentes tamanhos e diferente forma; incomodava-o que o cão das três e catorze (visto de perfil) tivesse o mesmo nome que o cão das três e um quarto (visto de frente)». Dotado de uma memória absoluta, Funes recordava como quem agrupa objectos, respeitando formas, sequências e sensações. Como quem resgata o passado e o reconstrói, peça a peça, desconhecendo que esse mesmo movimento interditava qualquer tarefa hermenêutica. «Suspeito de que não era muito capaz de pensar. Pensar é esquecer diferenças, é generalizar, abstrair». Jorge Luis Borges chamou a este conto «uma longa metáfora sobre a insónia», notando que o sono, o sonho, o esquecimento, são ingredientes necessários para que a memória não se transforme num fruto estéril.
Jorge Luis Borges (1998), «Funes ou a memória». In: Ficções. Lisboa: Teorema. Tradução de José Colaço Barreiros, pp.97-106. [ISBN: 972-695-330-8]