Passado/Presente

a construção da memória no mundo contemporâneo

O celibatário e as mulheres

Posted by Miguel Cardina em 04-01-2007

celibatoAs ditaduras tendem a criar sistemas de valores rígidos no centro dos quais, frequentemente, o ditador se representa. Exímio neste jogo de simulacros, Salazar soube projectar-se, não como ícone, mas como espectro indissociável do pulsar ideológico do regime. Solitário como um padre, asceta como um santo, Salazar ficcionou-se ausente do lugar que ocupava através de uma «retórica da invisibilidade», como lhe chamou José Gil. O poder era um vício corruptor que o ditador aceitava suportar como quem sofre de uma vocação sacerdotal.

Esta imagem difundiu-se junto de variados quadrantes políticos. Para os defensores do Estado Novo, Salazar governava com a sabedoria e a austeridade que apenas se permitem aos estadistas que ousam não ter vida privada. Por seu turno, militares oposicionistas, como Henrique Galvão e Humberto Delgado, criticavam o ditador por ter destruído a virilidade do povo português. Na sua Carta Aberta ao Dr. Salazar, publicada no Brasil nos anos 60, Galvão acusa-o de ter desvertebrado «oito milhões de portugueses de quem fez pobres celenterados, que para aí andam ao sabor das correntes do Fado, de Fátima e do Futebol». Para a área do velho republicanismo, o «fradalhão de Santa Comba» era o reflexo consequente de um dado país – rural, beato e estéril.

Numa altura em que alguns rumores afiançam uma votação honrosa no concurso televisivo Grandes Portugueses, uma série de livros editados nos últimos meses de 2006 permitem identificar algumas das facetas menos conhecidas do ditador. Neste particular, destaque-se Os Amores de Salazar, de Felícia Cabrita, que retrata, em forma de reportagem alargada, as «façanhas amorosas» de um homem que era tudo menos «imune às imposições ou disposições da carne». Ainda que recorrendo a algumas adjectivações porventura forçadas – «Troca-Tintas», «Casanova provinciano» ou «Don Juan» são expressões que aparecem frequentemente a colorir o texto – a autora consegue ir além do registo meramente vouyeristico. Fazendo uso de fontes pouco visitadas – cartas, diários, agendas e depoimentos –, Felícia Cabrita revela o outro lado desse espelho no qual o ditador se quis dar a ver. [mais>>]

2 Respostas to “O celibatário e as mulheres”

  1. Se quer que lhe diga, acho muito suspeito este fervor em torno do Salazar – e queira-se ou não, tudo tende para um revisionoismo que começa a cheirar-me a esturro. Como sucede com o Holocausto que se quer não ter existido…e outros
    Já achei interessante o livro em bd sobre o nosso ditador – ironia e sátira q.b.

  2. Miguel Cardina said

    Cara Amélia Pais,
    De facto, muito deste revivalismo pode fomentar uma releitura desculpabilizadora, e até mesmo panegírica, da personagem. Nesta linha, o hipotético lugar honroso de Salazar no concurso Grandes Portugueses é mais um sintoma da relação problemática que mantemos com esse passado recente. Sintoma já revelado, aliás, aquando da polémica sobre a sua (não) inclusão na lista provisória de personalidades.
    De qualquer modo, tanto o livro de Felícia Cabrita, como a reedição aumentada de Máscaras de Salazar, de Fernando Dacosta, ou ainda o(excelente) álbum de BD que cita, parecem-me caminhar noutro sentido. De diferentes maneiras, complexificam a figura mas de modo nenhum a branqueiam.

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