Esta imagem difundiu-se junto de variados quadrantes políticos. Para os defensores do Estado Novo, Salazar governava com a sabedoria e a austeridade que apenas se permitem aos estadistas que ousam não ter vida privada. Por seu turno, militares oposicionistas, como Henrique Galvão e Humberto Delgado, criticavam o ditador por ter destruído a virilidade do povo português. Na sua Carta Aberta ao Dr. Salazar, publicada no Brasil nos anos 60, Galvão acusa-o de ter desvertebrado «oito milhões de portugueses de quem fez pobres celenterados, que para aí andam ao sabor das correntes do Fado, de Fátima e do Futebol». Para a área do velho republicanismo, o «fradalhão de Santa Comba» era o reflexo consequente de um dado país – rural, beato e estéril.
Numa altura em que alguns rumores afiançam uma votação honrosa no concurso televisivo Grandes Portugueses, uma série de livros editados nos últimos meses de 2006 permitem identificar algumas das facetas menos conhecidas do ditador. Neste particular, destaque-se Os Amores de Salazar, de Felícia Cabrita, que retrata, em forma de reportagem alargada, as «façanhas amorosas» de um homem que era tudo menos «imune às imposições ou disposições da carne». Ainda que recorrendo a algumas adjectivações porventura forçadas – «Troca-Tintas», «Casanova provinciano» ou «Don Juan» são expressões que aparecem frequentemente a colorir o texto – a autora consegue ir além do registo meramente vouyeristico. Fazendo uso de fontes pouco visitadas – cartas, diários, agendas e depoimentos –, Felícia Cabrita revela o outro lado desse espelho no qual o ditador se quis dar a ver. [mais>>]