Passado/Presente

a construção da memória no mundo contemporâneo

Pior do que uma voz que cala é um silêncio que fala

Posted by passadopresente em 06-02-2007

Por Maria Manuela Cruzeiro

Temos um problema com a memória. Sobretudo quando ela é traumática e ainda recente. Têm-no-lo dito das mais variadas formas historiadores, sociólogos, psicólogos, artistas. É talvez esse o nosso maior deficit. Maior ainda do que o económico.

Quando Eduardo Lourenço proclamou «O Fascismo Nunca Existiu» denunciou irónica e provocadoramente essa perturbante realidade, assinalando que a política de silêncio e invisibilidade não terminou com a liquidação da ditadura em 25 de Abril de 1974. As estratégias de branqueamento, ou mesmo de silenciamento, são mais eficazes e difíceis de contrariar quando se mascaram do seu contrário. Isto é, quando iludimos o silêncio com um permanente tagarelar inconsequente e irresponsável. A nossa sociedade está cheia de ruídos tagarelas e de pesados silêncios. Este povo tem opinião sobre tudo mas sabe cada vez menos. Entope os programas da rádio ou televisão que a custo zero preenchem horas a fio com a participação espontânea de ouvintes e telespectadores, mobiliza-se para votar democraticamente qual o maior português de sempre, comove-se com os amores de Salazar, com o exílio de Marcelo, com as vítimas da PIDE ou com a coragem de Aristides Sousa Mendes, mas não responde a um inquérito básico sobre quem foi cada um destes e de outros nomes de portugueses que numa gigantesca operação de marketing disputam os outdoors das nossas cidades com os cartazes do referendo do aborto. Tudo se equivale e iguala, porque tudo acontece nessa mágica fábrica de faz de conta que é a televisão. Aliás parece que só a televisão entusiasma este povo: ainda muito recentemente se apaixonou pelo caso do Sargento Luís – houve em tempos um outro, lembram-se? também era Luís, mas era soldado, e era do PREC – e num ápice reuniu 10.000 assinaturas para o Habeas Corpus, Como há anos se alistou nesse exército anónimo que ocupou ruas e praças por Timor repetindo em uníssono «Somos todos timorenses». Causas que até foram comparadas justamente por esse medidor (mediador) de senso comum que é a comunicação social. Como somos mestres em voos acrobáticos, e muito dados a liberdades poéticas, sem custo vamos do caso do Sargento a Timor e de Timor ao 25 de Abril.

O salto no absurdo justifica-se porque tudo se resolve num faz de conta. É ainda Eduardo Lourenço que diz que até nos grandes momentos da história sempre estivemos ausentes de nós mesmos. Por isso nem a euforia nem a tragédia deixam marcas ou inscrições, para citar José Gil. Porque «vivemo-las, mas não as somos». Nenhuma delas fura a espuma dos dias, nem custa uma insónia a este povo que, por se querer feliz, apaga (se possível pela televisão) a própria história

2 Respostas to “Pior do que uma voz que cala é um silêncio que fala”

  1. Boa tarde,
    ” A nossa sociedade está cheia de ruídos tagarelas e pesados silêncios.Este povo tem opinião sobre tudo mas sabe cada vez menos.”
    Eis uma excelente caracterização / definição deste povo e também da maioria dos seus dirigentes e fazedores de opinião.
    Felicitações.

  2. Pedro said

    Parece-me que não se vai a lado nenhum com conceitos tão vagos como “este povo”. O que é que quer dizer “Este povo tem opinião sobre tudo mas sabe cada vez menos”? Como é que sabe qual é a “opinião” do “povo” sobre “tudo”? E como é que sabe que “ele” “sabe cada vez menos”? O que é que entende por “povo”?
    Sabe qual foi a participação de facto no famigerado “inquérito” sobre os “grandes portugueses”? Creio que ninguém sabe ao certo, nem os promotores da iniciativa. Não tem nada a ver com “mobilização democrática”.
    Camaradas, mais um pequeno esforço se nos queremos libertar dos lugares-comuns e perceber alguma coisa disto.

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