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a construção da memória no mundo contemporâneo

Um antídoto contra a intolerância

Posted by Miguel Cardina em 27-03-2007

A «ilusão da singularidade» corresponde à tentação de aprisionar o ser humano dentro de limites estreitos e unilaterais, processo que é responsável pela lógica de conflito e de violência sectária que tem vindo a recrudescer neste início de século. Este é a ideia central que atravessa Identidade e Violência. A Ilusão do Destino, o último livro de Amartya Sen, recentemente publicado entre nós pela Tinta-da-China. Problematizando as novas orientações no campo da integração das minorias ensaiadas pelo governo britânico nos últimos anos, bem como o badalado conceito de «choque civilizacional», lançado em 1993 por Samuel Huntington, Sen produz um argumentado – e, por vezes, libertador – documento que visa sobretudo «resistir à miniaturização dos seres humanos» (p.238).

Na verdade, cada indivíduo é um ser multidimensional, tecido por uma espécie de caleidoscópio de pertenças entre os quais não existe frequentemente nenhuma contradição – nem necessariamente um cruzamento. Como aponta o autor, uma mesma pessoa pode ser «um cidadão americano de origem caraibense, com antepassados africanos, um liberal, uma mulher, um vegetariano, um maratonista, um historiador, um professor, um romancista, um feminista, um heterossexual, um defensor dos direitos dos homossexuais, um amante do teatro, um activista ambiental, um entusiasta do ténis, um músico de jazz» (p.15). O que a violência sectária faz é transformar o ser humano numa criatura unidimensional, absolutizando uma identidade específica, quase sempre genuína – «um hutu é realmente um hutu, um tigre tamil é claramente um tamil, um sérvio não é um albanês e uma alemão adepto da filosofia nazi é com certeza um alemão» (p.227) – redesenhando de acordo com lógicas beligerantes de objectivação do «inimigo» que são, simultaneamente, redefinições de uma suposta identidade única e matricial. Sen identifica esta linha de raciocínio, não apenas nos fundamentalismos religiosos contemporâneos, mas nas teses de Huntington, que dividem o mundo em compartimentos civilizacionais. [continua aqui>>]

Uma resposta to “Um antídoto contra a intolerância”

  1. Este não li, mas o “Desenvolvimento como Liberdade” é magistral.
    Foi um dos aspectos centrais da minha tese, e vejo nele uma obra genial. Um tratado sobre a tolerância, sobre o interculturalismo, enfim, quase uma elegia à convivência entre povos…🙂
    Recomendo, vivamente!

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