Passado/Presente

a construção da memória no mundo contemporâneo

O caminho sinuoso do liberalismo antitotalitário

Posted by Miguel Cardina em 09-05-2007

O Poder e os IdealistasFoi apenas um último exemplo: durante as recentes eleições presidenciais francesas, o candidato vencedor, Nicolas Sarkozy, atacou «Maio de 68» e os seus «herdeiros» por terem criado uma sociedade na qual a autoridade e a hierarquia são frequentemente postas em causa. Nada de novo, conhecendo-se a enorme dificuldade da direita em compreender as mudanças e o seu apelo estrutural à ordem. Na verdade, e no contexto em que a afirmação foi produzida, ela serviu mais para induzir a necessidade de um político duro para enfrentar o presente do que para fazer um julgamento da época. Não foi assim em 2001. Cinco fotos publicadas na revista Stern, datadas de 1973 e onde se observava Joschka Fischer em combates de rua com a polícia, e um excerto de um texto de Daniel Cohn-Bendit, de 1975, no qual se evocava o ambiente anti-repressivo de um jardim-de-infância que então dirigiu, deram azo a uma infinidade de reflexões sobre o niilismo e a apologia da violência que a época teria condensado.

Muitas das intervenções optaram pela caricatura e pelo exemplo desgarrado. Não foi o caso do americano Paul Berman, que redigiu um extenso ensaio, publicado no Verão de 2001 na revista New Republic, e que, redesenhado, constitui o primeiro capítulo de O Poder e os Idealistas, livro publicado em 2005 nos EUA e editado entre nós já este ano. Berman, também ele um antigo soixante-huitard, analisa o caso Fischer/Cohn-Bendit, integrando-o devidamente à luz das práticas e discursos da Nova Esquerda dos anos sessenta e setenta. Em última análise, o que estava em causa era tão só um confronto entre a geração idealista de 68, que havia tomado o poder, e as correntes conservadoras que se lhe opunham.

É outra, porém, a tese fundamental do livro. Nos capítulos seguintes, Berman esforça-se por demonstrar a ideia – polémica mas não completamente inovadora – de que as origens do intervencionismo liberal de hoje estão numa espécie de «Internacional imaginária de 1968», composta por antigos esquerdistas que confrontaram as suas anteriores crenças revolucionárias com a crítica ao totalitarismo efectuada, entre outros, por Arendt e Glucksmann. Este percurso geracional aparece representado simbolicamente em duas figuras que, de certo modo, assinalam o princípio e o fim deste processo: Che Guevara, o guerrilheiro internacionalista, e Bernard Kouchner, fundador da organização Médicos Sem Fronteiras, e impulsionador de uma espécie de «guevarismo dos direitos humanos» (p.221). A intervenção da NATO no Kosovo, em 1999, teria servido para colocar em prática esta ideia da autoridade moral das intervenções militares em nome das vítimas das ditaduras. Alguns dos argumentos ensaiados viriam a reaparecer no contexto pós-11 de Setembro para justificar as opções bélicas conduzidas a partir de Washington. Os antigos militantes de 68 – ou, pelo menos, uma parte deles – convertidos ao «humanismo das más notícias», dividiram-se quanto aos métodos de derrubar Saddam, mas mantiveram-se fiéis a um traço da juventude: a sua «paixão pela justiça social e pela liberdade» (p.289) acima das legitimidades impostas pelas fronteiras.

Paul Berman (2007), O Poder e os Idealistas. A geração idealista de 68 e a sua subida ao poder. Lisboa: Alêtheia Editores, 291 pp. [ISBN: 978-989-622-082-2]

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