Passado/Presente

a construção da memória no mundo contemporâneo

Archive for Junho, 2007

A Nova Esquerda na Holanda, França e Alemanha

Posted by passadopresente em 28-06-2007

Paul Lucardie é investigador na Universidade de Groeningen. Democratic Radicalism Resurrected: the New Left in the Netherlands, Germany and France foi o título da sua comunicação na conferência New World Coming: the sixties and the shaping of a global consciousness, realizada na Queen’s University, em Kingston (Canadá), entre 13 e 16 de Junho de 2007. Nela, Lucardie traça um quadro comparativo da evolução da Nova Esquerda nos países referidos entre a década de cinquenta e a década de noventa, centrando a sua análise nos «anos quentes» de sessenta. O texto, inédito, aponta as linhas centrais de uma tese de doutoramento já concluída e é apresentado com a devida permissão do autor.

All New Left movements (in the wider sense of the term) seemed to share two characteristics. In the first place, they refused to take sides in the Cold War between Western capitalism and Eastern socialism, unlike social democrats and communists who sided with the former or the latter camp. Many, but certainly not all New Leftists justified their neutralism in pacifist terms; but practically all criticized the nuclear arms race between the USA and the USSR. In the second place, all New Left groups emphasized democracy, which seemed to decline on both sides, in their opinion, and should be renewed and revitalized somehow. How this should be done, was a question that divided the New Left, especially through time. One could distinguish five stages here – going beyond the 1960s. [continua aqui>>]

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Arquivos da CIA desclassificados

Posted by Tiago Barbosa Ribeiro em 27-06-2007

Entre as fontes mais ricas de dados primários sobre o nosso passado recente incluem-se os arquivos de Estados, agências de informação e outras estruturas centrais que acompanharam ou intervieram directamente nos acontecimentos das últimas décadas, precisamente em relação aos quais o conhecimento histórico só agora começa a trabalhar. É por isso relevante noticiar que a agência norte-americana CIA disponibilizou recentemente no seu site milhares de documentos outrora classificados que detalham as suas actividades entre as décadas de 1950 e 1970. A pesquisa pode ser feita a partir daqui.

 :: Adenda :: O New York Times inaugurou um blogue para analisar alguns destes documentos.

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Livro de memórias pouco comum

Posted by Rui Bebiano em 24-06-2007

João FreireEnquanto lia as 598 páginas e as 2.296 notas em letra pequeníssima de Pessoa Comum no seu Tempo, o livro de memórias de João Freire que a Afrontamento acaba de editar, percebi que partilhava com ele, sendo dez anos mais novo, muitas das referências da infância e da pré-adolescência. O conhecimento directo ou indirecto de muitas das figuras mencionadas, as primeiras e as segundas leituras, os hábitos comuns, determinadas imagens, valores ou maneiras de dizer, provam que, no Portugal das últimas décadas da vida biológica de Salazar, quase tudo permanecia imutável. Recordei também que, tal como o autor embora mais brevemente, passei pela experiência do serviço militar, da deserção, do trabalho operário, da militância na esquerda radical e da vida universitária. Só não estive exilado porque, in extremis, o 25 de Abril me poupou esse incómodo, quando a mala já se encontrava feita e alguns contactos estabelecidos. Estes factores determinaram, assim, uma abordagem do livro que jamais poderia ser «distanciada». Tentarei ser apenas justo.

Começo por anotar dois aspectos que conferem a Pessoa Comum no seu Tempo uma marca absolutamente peculiar. Por um lado, este é um relato de uma meticulosidade, de um pormenor, evidenciando uma tal capacidade de memorização, que, se não o tornam único, pelo menos o inserem no pequeno núcleo de textos memorialistas portugueses capazes de produzirem uma abordagem efectivamente exaustiva do passado vivido pelo autor. Ao mesmo tempo, existe aqui algo de igualmente raro, traduzido numa relação de aparente disparidade entre a vida invulgar que se descreve e uma escrita que se pode qualificar como conservadora, se não mesmo anacrónica, na sua relação com o lugar geracional e o percurso específico do autor. Para além de que lhe falta também um cuidado, no domínio do trabalho literário, que todo o texto memorialista deve conter, de forma a mais facilmente partilhar com o leitor os momentos singulares e os estados de espírito. Detecta-se em muitos momentos uma discursividade enfática, por vezes convencional e socialmente situada, certas vezes quase obsequiosa, que prejudica a fluidez da escrita e lhe retira alguma capacidade para absorver o leitor. Este é, porém, um aspecto que acaba por se revelar de reduzida importância.

Em tudo o mais, de facto, este volume revela-se absolutamente excepcional e, como se verá adiante, de uma grande utilidade. Estrategicamente, reúno os seus seis capítulos em três blocos, cada um dos quais é desenvolvido através de processos diferenciados de codificação semântica que lhe são próprios. O primeiro deles refere-se aos antecedentes familiares, ao meio social de origem, à infância e à adolescência do autor, à sua entrada no meio militar e à sua vida como oficial da Marinha, até ao momento em que decidiu desertar do teatro de guerra em Moçambique, bem como à sua carreira desportiva (capítulos 1, 2 e 3). O segundo bloco respeita à sua intensa vida como exilado político em França e ao percurso político que o haveria de conduzir ao anarquismo (capítulos 4 e 5). O último bloco reporta o trajecto de João Freire (JF) como sociólogo e professor universitário (capítulo 6). [continua aqui>>]

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Memória dos tempos radicais

Posted by passadopresente em 17-06-2007

Saído inicialmente em dois números do jornal Público, encontra-se no blogue Estudos Sobre o Comunismo, em versão desenvolvida, o texto Memória dos Tempos Radicais, de José Pacheco Pereira, no qual é abordada a recente vaga de publicação de livros de memórias assinados por antigos militantes da esquerda radical portuguesa das décadas de 1960-1970.

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Um livro contra a fé

Posted by Rui Bebiano em 07-06-2007

Sam HarrisNão é fácil defender a importância de uma obra como esta. Quando se multiplicam os livros, discursos, colóquios, debates e números de revistas que pretendem colocar em diálogo islamismo e cristianismo, ou que intentam provar «cientificamente» que se completam, e quando a defesa da laicidade parece confinar-se à teimosia de uns quantos excêntricos fora do tempo, não é fácil declarar, e tentar demonstrar, que ambos são males transportando consigo, em quaisquer das suas múltiplas formas, a opressão e a guerra. Mas é isso que procura fazer o filósofo americano Sam Harris em O Fim da Fé. Religião, Terrorismo e o Futuro da Razão, recém-editado pela Tinta da China.

Um dos argumentos centrais deste livro aponta para o carácter negativo de um novo dogma, do qual são portadores os «crentes moderados» e também aqueles que, não sendo pessoas de fé, entendem a religião como uma área intocável e essencialmente positiva da experiência humana: uns e outros «imaginam que o caminho para a paz só será desbravado quando cada um de nós tiver aprendido a respeitar as crenças injustificadas dos outros». O que leva Harris a declarar, e a propor-se mostrar, que, ao invés, «o próprio ideal de tolerância religiosa (…) é uma das principais forças que nos arrasta para o abismo».

Numa recente entrevista ao suplemento Babelia, Fernando Savater afirma, reciclando o velho aforismo de Marx, que «mais do que ópio, a religião é cocaína». Isto é, ela não se limita a anestesiar, a entorpecer, mas é capaz de produzir estados psicóticos produtores de uma suspensão do tempo e de ilusões com um elevado potencial de violência. O livro de Harris parte também, de alguma forma, do entendimento da religião como uma doença, e como uma doença perigosa, cujo alastramento é favorecido por dois mitos que procura desarmadilhar: o primeiro associado ao facto da maioria de nós acreditar «que é possível retirar coisas boas da fé», o segundo vinculado à crença de que as coisas terríveis que por vezes se cometem em nome da religião «são produto, não da fé em si mesma, mas da nossa natureza mais ignóbil (…) em relação à qual as crenças religiosas constituiriam o melhor (senão mesmo o único) remédio». [continua aqui>>]

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Entre as Brumas da Memória em Coimbra

Posted by passadopresente em 03-06-2007

Na última 5a. Feira, 31 de Maio, a Livraria Almedina e as Ideias Concertadas organizaram em Coimbra uma sessão de apresentação de Entre as Brumas da Memória – Os Católicos Portugueses e a Ditadura, de Joana Lopes. Participaram Rui Bebiano (cuja intervenção pode ser lida aqui), José Dias e a autora. No final, um intenso debate ajudou a tornar evidente que este livro vem preencher uma lacuna no conhecimento do nosso passado recente e a perspectivar algumas ligações entre esse passado e a actualidade.

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A canção das balas

Posted by Miguel Cardina em 01-06-2007

The Bullet's SongQue estranho vínculo aproxima as vidas de personagens tão diversas como André Malraux, T.E.Lawrence (Lawrence da Arábia), Ernst Jünger, Arthur Koestler, Gabriele D’Annunzio, Willi Münzenberg, Benito Mussolini, Che Guevara ou Filippo Tommaso Marinetti? Na opinião de William Pfaff, todos eles seriam produto da crise cultural e moral que levou, na sequência da I Guerra Mundial, a que valores como o «espírito cavalheiresco», a «virtude» e o «heroísmo» fossem substituídos por códigos de conduta baseados na «transcendência individual» e em «utopias assentes em ficções históricas». No seu recente The Bullet’s Song: Romantic Violence and Utopia, o autor defende que este novo tipo de violência política ter-se-ia sustentado em convicções vitalistas que tendiam a amalgamar estética e política, processo manifestado não apenas no contexto dos fascismos da primeira metade do século, mas também em algumas expressões do marxismo dissidente e nas rebeliões estudantis de finais de sessenta.

Apesar do estilo escorreito e de algumas reflexões peculiares sobre a vida das personagens em causa, a obra de Pfaff possui algumas fragilidades, nomeadamente na estruturação dos seus eixos argumentativos centrais. Assim, o «espírito cavalheiresco», supostamente desgastado no período posterior a 1914, aparece mencionado em T.E.Lawrence, Ernst Jünger ou em Vladimir Peniakoff – soldado que teve um exército privado durante a II Guerra Mundial – nomes que precisamente atestariam a erosão do conceito. De modo semelhante, se por um lado se afirma que a I Guerra Mundial «pôs fim à percepção do heroísmo individual como um ideal social», nas páginas seguintes é possível encontrar inúmeras marcas dessa aspiração, como o seja o culto do «herói» efectuado pelos futuristas, profusamente citados ao longo do texto.

Manifestando uma certa simpatia pela ideia de guerra enquanto testemunho da dimensão trágica da existência – espaço de «terror e piedade» no qual se pode encontrar por vezes a «catarse» –, Pfaff deixa-se conduzir por uma tonalidade acusatória, nem sempre explícita, mas central na condução da obra. Algumas reflexões pertinentes sobre a história intelectual do século XX não deixam de ser ofuscadas por uma evidente nostalgia relativamente a determinados códigos de conduta aristocráticos que, supostamente, faziam do mundo um lugar mais habitável. No fim, fica-se com a perturbadora ideia de que existira uma espécie de violência benigna até ao momento em que a «utopia», o «niilismo» e a «busca da transcendência individual» fizeram a sua entrada no plateau da história.

William Pfaff (2004), The Bullet’s Song. Romantic Violence and Utopia. New York: Simon & Schuster. 368 pp. [ISBN 0-684-80907-9]

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