Passado/Presente

a construção da memória no mundo contemporâneo

A canção das balas

Posted by Miguel Cardina em 01-06-2007

The Bullet's SongQue estranho vínculo aproxima as vidas de personagens tão diversas como André Malraux, T.E.Lawrence (Lawrence da Arábia), Ernst Jünger, Arthur Koestler, Gabriele D’Annunzio, Willi Münzenberg, Benito Mussolini, Che Guevara ou Filippo Tommaso Marinetti? Na opinião de William Pfaff, todos eles seriam produto da crise cultural e moral que levou, na sequência da I Guerra Mundial, a que valores como o «espírito cavalheiresco», a «virtude» e o «heroísmo» fossem substituídos por códigos de conduta baseados na «transcendência individual» e em «utopias assentes em ficções históricas». No seu recente The Bullet’s Song: Romantic Violence and Utopia, o autor defende que este novo tipo de violência política ter-se-ia sustentado em convicções vitalistas que tendiam a amalgamar estética e política, processo manifestado não apenas no contexto dos fascismos da primeira metade do século, mas também em algumas expressões do marxismo dissidente e nas rebeliões estudantis de finais de sessenta.

Apesar do estilo escorreito e de algumas reflexões peculiares sobre a vida das personagens em causa, a obra de Pfaff possui algumas fragilidades, nomeadamente na estruturação dos seus eixos argumentativos centrais. Assim, o «espírito cavalheiresco», supostamente desgastado no período posterior a 1914, aparece mencionado em T.E.Lawrence, Ernst Jünger ou em Vladimir Peniakoff – soldado que teve um exército privado durante a II Guerra Mundial – nomes que precisamente atestariam a erosão do conceito. De modo semelhante, se por um lado se afirma que a I Guerra Mundial «pôs fim à percepção do heroísmo individual como um ideal social», nas páginas seguintes é possível encontrar inúmeras marcas dessa aspiração, como o seja o culto do «herói» efectuado pelos futuristas, profusamente citados ao longo do texto.

Manifestando uma certa simpatia pela ideia de guerra enquanto testemunho da dimensão trágica da existência – espaço de «terror e piedade» no qual se pode encontrar por vezes a «catarse» –, Pfaff deixa-se conduzir por uma tonalidade acusatória, nem sempre explícita, mas central na condução da obra. Algumas reflexões pertinentes sobre a história intelectual do século XX não deixam de ser ofuscadas por uma evidente nostalgia relativamente a determinados códigos de conduta aristocráticos que, supostamente, faziam do mundo um lugar mais habitável. No fim, fica-se com a perturbadora ideia de que existira uma espécie de violência benigna até ao momento em que a «utopia», o «niilismo» e a «busca da transcendência individual» fizeram a sua entrada no plateau da história.

William Pfaff (2004), The Bullet’s Song. Romantic Violence and Utopia. New York: Simon & Schuster. 368 pp. [ISBN 0-684-80907-9]

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