Passado/Presente

a construção da memória no mundo contemporâneo

As Cheias de 1967

Posted by Miguel Cardina em 26-11-2007

Há precisamente quarenta anos, chuvas torrenciais abateram-se sobre a área da Grande Lisboa, provocando inúmeras vítimas: 427 mortos indicava o Diário de Notícias a 29 de Novembro de 1967, pouco antes do governo ter imposto a cessação da contagem pública. Algumas zonas de Lisboa, Loures, Odivelas, Vila Franca de Xira e Alenquer foram transformadas em autênticos cemitérios de lama. Num ambiente de comoção geral, promoveram-se peditórios, espectáculos e subscrições visando recolher fundos de apoio aos sinistrados. A «campanha de solidariedade» contou com a participação de centenas de estudantes, muitos deles oriundos de estruturas católicas, e que a partir deste episódio se distanciariam irremediavelmente do regime. Censurada pelo governo, a intervenção estudantil no auxílio à catástrofe, serviu também como um importante motor de politização destas novas gerações que, a partir das universidades, vinham ensaiando modos de contestação menos elitistas e mais aguerridos.

Na imprensa pró-regime, as notícias concentravam-se no júbilo perante a demonstrada «cadeia de solidariedade humana (…) sem distinção de classes», que havia significado a «vitória do homem, que a natureza tinha esmagado», como acentua o Diário da Manhã. Numa leitura distinta, o Solidariedade Estudantil apresentava estatísticas baseadas em dados do Serviço Meteorológico Nacional, mostrando que o máximo de pluviosidade havia ocorrido no Estoril, apesar das mortes terem acontecido nos bairros de lata de Lisboa e arredores e nas zonas pobres do Ribatejo. Também o Comércio do Funchal chamava abertamente a atenção para as causas sociais que haviam estado na base da catástrofe: «nós não diríamos: foram as cheias, foi a chuva. Talvez seja mais justo afirmar: foi a miséria, miséria que a nossa sociedade não neutralizou, quem provocou a maioria das mortes. Até na morte é triste ser-se miserável. Sobretudo quando se morre por o ser». O vídeo traz-nos algumas imagens da tragédia.

[YouTube=http://www.youtube.com/watch?v=37_fzPIA0bA]

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