Passado/Presente

a construção da memória no mundo contemporâneo

Archive for the ‘Crítica’ Category

O passado em discurso directo

Posted by Rui Bebiano em 12-11-2007

Image Hosted by ImageShack.usA História da PIDE, o livro de Irene Flunser Pimentel que constitui uma versão condensada da sua tese de doutoramento e foi agora publicado pela Temas & Debates, vale, entre outros atributos, pela forma criteriosa e documentada como devolve essa sombra da nossa história recente que tende, por vezes, a ser ampliada ou então esbatida. Não, a PIDE não foi uma cópia caseira da Gestapo ou da italiana OVRA, como no-la apresenta uma certa memória heróica da resistência ao fascismo português. Mas não foi também a instituição policial «benévola», quase paternal, que o regime caído em 1974, corroborado por alguns escritos contra-revolucionários posteriores, apresentou como um mero serviço público. O conhecimento da sua verdadeira dimensão e dos seus mecanismos essenciais sai reforçado com esta obra que passa desde já a constituir um instrumento indispensável para uma compreensão adequada de um dos lados mais negros do Estado Novo e do peso dos silêncios e das cumplicidades que ele nos legou.

Este trabalho levanta, no entanto, um problema metodológico que, ao contrário daquilo que se passa por exemplo em Espanha ou na América Latina, se mantém recorrente na historiografia portuguesa contemporânea: o dos entraves colocados à utilização, ou mesmo à validade, do testemunho oral, que a autora entendeu pôr deliberadamente de parte. Utilizou, naturalmente, esse direito de se servir ou não de determinadas fontes documentais que é prerrogativa de todo o historiador. Desde que este justifique essa exclusão, o que a autora fez com clareza na introdução. Mas já me parece bastante discutível a explicação que procura dar das razões pelas quais desqualifica o testemunho oral, por si tomado, essencialmente, como «’provocado’ pelo historiador que, ao interrogar a testemunha, constrói a sua própria fonte, utilizando-a à maneira de um produtor».

Sendo verdade que este problema se coloca, ele requer, justamente, não a desistência, mas um cuidado suplementar da parte desse mesmo historiador, forçando-o a confrontar os testemunhos orais entre si e na relação com outro tipo de fontes, escritas ou não, servindo-se apenas das informações que podem ser aferidas e claramente identificadas. A própria autora reconhece, muito correctamente, que existe hoje uma «profusão de artigos que colmatam a ausência dos que foram esbulhados ou não podem ser consultados». E por «artigos» podemos entender aqui, parece-me, outras fontes que não apenas os materiais provenientes dos arquivos oficiais. Porque não então as fontes orais? Que diferença de valia tem esta por comparação como testemunho pessoal escrito? E, partindo do princípio segundo o qual não passará pela cabeça de ninguém fazer a história do Holocausto e do Gulag sem recorrer aos seus sobreviventes (sejam eles as vítimas ou seus carrascos), por que motivo se coloca a dúvida em determinadas situações e não noutras?

[continua aqui>>]

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Abril de novo

Posted by Miguel Cardina em 15-10-2007

O título é algo exagerado: 25 de Abril: Mitos de uma Revolução não pretende explorar o imaginário político e cultural da revolução que Abril abriu. Também não procura – seria outra linha possível, talvez a menos interessante, da «hipótese mitológica» – desmontar ideias-feitas sobre o acontecimento, ou pelo menos não o faz para além daquilo que todo o exercício historiográfico é na sua essência, ou seja, uma revisão crítica das leituras do passado. Sendo «um balanço» (p.19) do conhecimento disponível sobre o 25 de Abril, recorrendo a várias fontes e à ampla bibliografia, nomeadamente de teor memorialístico, já existente, a obra de Maria Inácia Rezola distingue-se pela capacidade de estruturar uma narrativa rente aos factos que consegue, com particular mestria, ir apontando constantemente grelhas interpretativas que vão iluminando os principais momentos do período revolucionário. Nesta medida, estamos perante um texto de evidente alcance pedagógico e uma das poucas sínteses consistentes e desapaixonadas sobre o biénio de 1974-1976. Uma revisão deficiente e a omissão de uma bibliografia final anunciada (p.373), não chegam para ofuscar a importância desta obra: uma porta para conhecer essa história muito evocada mas ainda repleta de discursos sinuosos e contraditórios.

Maria Inácia Rezola (2007), 25 de Abril. Mitos de uma Revolução. Lisboa: A Esfera dos Livros [ISBN 978-989-626-054-5]

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A sociedade do hiperconsumo

Posted by passadopresente em 21-09-2007

Image Hosted by ImageShack.usGilles Lipovetsky, professor de filosofia na Universidade de Grenoble, autor de vasta obra publicada onde reflecte sobre as sociedades contemporâneas (A Era do Vazio, O Luxo Eterno ou O Crepúsculo do Dever, entre outros), teórico da «hipermodernidade», esteve há pouco tempo em Portugal para participar numa conferência subordinada ao tema A Busca da Felicidade que decorreu na Culturgest, na qual se pretendeu reflectir a felicidade do ponto de vista científico e das suas implicações nas práticas sociais e culturais no mundo contemporâneo. Recentemente foi publicado entre nós o seu último ensaio, A felicidade paradoxal – Ensaio sobre a Sociedade do Hiperconsumo (Le bonheur paradoxal. Essai sur la societé d’hyperconsommation, publicado em 2006, pelas edições Gallimard), uma reflexão sobre a sociedade de consumo actual.

Depois do aparecimento do capitalismo de massas, no fim do século XIX, e da «sociedade de abundância», no pós-guerra, o mundo vive hoje uma nova forma de consumo, iniciada nas duas últimas décadas e marcada pela oferta permanente de produtos em escala e intensidade jamais observadas. Segundo Lipovetsky entrou-se assim num terceiro estádio do capitalismo, ao qual chamou «a sociedade do hiperconsumo».

O autor analisa a relação paradoxal que, em seu entender, os indivíduos celebram hoje com um universo dominado pelo mercado, onde nem a esfera da intimidade consegue escapar. Num curto espaço de tempo, novos modos de vida e costumes instituíram uma nova hierarquia de objectivos e uma nova relação do indivíduo com as coisas e o tempo, consigo próprio e com os outros. A vida no presente sobrepôs-se às expectativas do futuro histórico e o hedonismo, às militâncias políticas. Em contrapartida, a febre do conforto ocupou o lugar das paixões nacionalistas e os lazeres substituíram a revolução, diz o filósofo. Em suma, o melhor-viver tornou-se uma paixão das massas, o objectivo supremo das sociedades democráticas, um ideal exaltado em cada esquina. O bem-estar tornou-se o novo deus, sendo o consumo o seu templo e o corpo a sua permanente liturgia, acrescenta. [por Alexandra Silva] [continua aqui>>]

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Servir o Povo!

Posted by Miguel Cardina em 19-09-2007

«Servir o Povo» é o nome de um pequeno texto evocativo escrito por Mao Zedong, em Setembro de 1944, e que se tornou num famoso slogan agitado durante o período da Revolução Cultural. Mas é também, desde 2005, o título de uma curiosa sátira política escrita por Yan Lianke e que se encontra actualmente banida na China – apesar, segundo consta, de percorrer com fluidez os círculos clandestinos que em regra este tipo de proibições alimenta. O mote narrativo é bastante simples: Liu Lian é uma ex-enfermeira casada com um oficial de topo de Exército do Povo, que inicia um acalorado envolvimento amoroso com Wu Dawang, um jovem camponês que trabalha em sua casa. Por meio de jogos eróticos que se servem, ironicamente, da disciplina criada pelo maoísmo, Liu e Wu descobrem na destruição de pequenas peças domésticas ligadas ao universo simbólico revolucionário, o caminho para uma libertação peculiar que envolve, desde logo, o corpo e o prazer. Domínios que ambos vão redesenhando, com pouca inocência mas algum heroísmo, à medida que o sexo lhes permite ir retirando a normatividade imposta do exterior. A edição portuguesa da obra, segundo se dá a entender aqui, estará para breve.

Yan Lianke (2007), Serve the People!. London: Constable. 228 pp. [ISBN: 978-1-84529-504-2]

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Trachimbrod

Posted by passadopresente em 16-09-2007

Image Hosted by ImageShack.usEverything is Illuminated é um filme que quase não espanta. Simples, metódico, colorido. O espanto vem depois, no fim e apenas quando nos apercebemos que todas as respostas ficam dadas sem ter sido necessário fazer-lhe as perguntas. Além da banda-sonora, étnica, folclórica e meditativa, assinada por Paul Cantelon, autor de bandas-sonoras de filmes como Kill your Darlings (2006) ou Issaquena (2002), é o desenraizamento dos alicerces que presidem à construção da matéria romanesca, o pressuposto de onde se parte que acaba por surpreender. O enredo, nada complexo mas eficaz, intenso e extraordinário, baseado no romance de Jonathan Safran Foer com o mesmo nome, resulta numa performance de loucos disfarçados, afoitos e incendiários do próprio destino porque inconscientemente comprometidos com a regulação do papel da memória nas respectivas vidas.

O contexto histórico emergente é o do rescaldo de uma Segunda Guerra Mundial perspectivada essencialmente a partir daquela que foi uma das suas mais complexas e discutíveis causas propulsoras: a mitologia racista dos judeus enquanto raça inferior e perniciosa. Tributário portanto da longa história do anti-semitismo na sua vertente mais extrema e hedionda, Everything is Illuminated entretém-se depois, ou entretanto, num enquadramento espacial que não acontece ao acaso porque sincronizado com o que acima ficou exposto, que se transcende e se substancializa numa Ucrânia que se perfila através de edifícios decrépitos e abandonados, ruas vagamente vazias, silêncios e espaços preenchidos pela incontornável memória de uma guerra ainda latente.

Apesar, assim, do enredo se oferecer essencialmente ao meio milhão de judeus ucranianos dizimados durante a ocupação alemã, trata-se igualmente de reaver, explicando, e através da restauração de determinadas memórias entretanto extraviadas, o presente de um país gravemente afectado pela desordem do passado. [por Sandra Guerreiro Dias] [continua aqui>>]

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V.V. Putin contado às crianças

Posted by Rui Bebiano em 02-09-2007

«Ninguém se iluda: a imagem que temos dos outros povos, ou de nós próprios, encontra-se associada à história que nos contaram quando éramos pequenos.» A frase abre Comment on Raconte l’Histoire aux Enfants, um dos mais conhecidos livros de Marc Ferro, publicado em 1981 (seguido, quatro anos depois, de L’Histoire sous Surveillance). Desde cedo perceberam os poderosos a importância da manipulação do passado no processo de perpetuação do seu poder, da sua imagem, da sua vontade e do seu legado. Foram, porém, os regimes totalitários do século XX que mais longe levaram a apropriação desse passado pelo poder e a sua manipulação como factor de controlo das sociedades e de construção do «homem novo», procurando gerir de uma forma eficaz o conhecimento do mundo vivido que deveria ser transmitido às novas gerações. Os regimes de tipo fascista e comunista, sustentados por uma representação monolítica da realidade e uma visão unívoca do seu movimento, não negligenciaram (como não negligenciam os seus sobreviventes) educar de forma «certa» as suas juventudes, mobilizando as suas organizações, controlando o aparelho educativo e propagandístico, sonegando as visões alternativas ou demonizando-as de forma liminar. As concepções fundamentalistas no domínio do religioso procuram ainda imitá-los, se bem que hoje o façam num universo onde a porosidade das fronteiras parece tornar essa acção depuradora cada vez mais difícil. Mas não impossível: nas escolas religiosas de diversos grupos ultra-ortodoxos cristãos ou judaicos, em numerosas madrassas ou centros de formação de futuros «mártires», é esse o ideal narrativo e pedagógico a perseguir. Contar da forma «certa» e camuflar o que se não deve conhecer. Fornecer certezas e elidir a dúvida.

A decisão recente do presidente russo, Vladimir Putin, no sentido de mandar redigir – não por historiadores credíveis, mas sim por um conjunto de consultores políticos – e distribuir como guia para a redacção dos novos manuais escolares, de uma História Contemporânea da Rússia. 1945-2006, comporta a semente de um retrocesso àquele estado de coisas, unindo-se a uma deriva crescentemente autoritária e expansionista que Moscovo já não esconde. Segundo um extenso artigo do Público, desvaloriza-se ali o Holocausto e os crimes de Mao, relativiza-se o genocídio perpetrado no Camboja pelos khmers vermelhos, faz-se equivaler a «hegemonia global» dos Estados Unidos à política externa do Terceiro Reich, amacia-se o Gulag, comparam-se os assassínios em massa da era soviética (a maioria deles, relembre-se, efectuada em tempo de paz) ao uso da bomba atómica norte-americana em tempo de guerra, e elogia-se José Estaline, «figura contraditória (…), demonizado por algumas pessoas e para outras um herói pelo papel que desempenhou na Grande Guerra Patriótica [a Segunda Guerra Mundial] e na expansão territorial» e também «o mais bem-sucedido líder da União Soviética». Para além, naturalmente, de se atribuir um relevo ímpar ao «rumo do presidente V. V. Putin em direcção à consolidação da sociedade», marcado principalmente por uma «restauração da posição da Rússia na política externa.» A comunidade de historiadores da Rússia tem, na sua generalidade, reagido com indignação a esta reescrita da história e à sua deriva nacionalista e autoritária, mas a verdade é que, entretanto, novos milhões de russos irão ser educados neste processo de manipulação da verdade. O resultado desta nova torrente de «lavagem» aos cérebros de toda uma geração ainda não pode ser conhecido, naturalmente. Mas permite-nos conjecturar de maneira legítima sobre o mal que transportará consigo. Pavel Danilin, um dos responsáveis por esta História putiniana, avisa: «temos que nos purgar do lixo, nem que seja à força».

Publicado também em A Terceira Noite

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A «orquestra negra»

Posted by Miguel Cardina em 21-08-2007

Em 1981, Margarethe von Trota realizou Die Bleierne Zeit, uma visão ficcionada sobre a vida de Christiane Ensslin e Gudrun Ensslin, miltantes das RAF / Baader-Meinhof, grupo que durante os anos setenta semeou um rasto de medo e violência na antiga parte ocidental da Alemanha. O título do filme foi traduzido para italiano como Anni di Piombo (anos de chumbo), expressão que servia igualmente para caracterizar os acontecimentos ocorridos neste país sensivelmente durante os mesmos anos. Nessa altura, grupos de extrema-esquerda e de extrema-direita, fortemente críticos da democracia parlamentar e convencidos da utilidade da violência como arma política, dedicaram-se a um conjunto variado de acções terroristas que visavam desestabilizar o ordenamento político resultante do pós-guerra.

A dia 12 de Dezembro de 1969, a bomba que rebentou no interior do Banco Nacional de Agricultura, em Milão, marca o início desse processo de tensão crescente. Eram 16.37. e a explosão causou dezasseis mortos e oitenta e oito feridos. Nos quarenta minutos seguintes, outros engenhos explosivos rebentam em Roma e Milão, provocando mais 17 feridos. O episódio ficaria conhecido como «Massacre de Piazza Fontana». À comoção imediata juntou-se a certeza policial de que por detrás do atentado estariam grupos anarquistas, nomeadamente o Círculo 22 de Março, tendo sido os seus militantes capturados nos dias sucessivos. Um deles, Giuseppe Pinelli caiu de um quarto andar enquanto era interrogado pelo comissário Luigi Calebresi. Segundo os autos policiais, tratara-se de um suicídio. Apesar dos indícios apontarem para a existência de uma «pista negra» – ou seja, a implicação de núcleos de extrema-direita no atentado – essa hipótese foi debilmente investigada. Em 1990, porém, o juiz Salvini decide reabrir o processo, conduzindo as equipas de investigação a novos e surpreendentes resultados.

Sete anos depois, em 1997, os jornalistas Fabrizio Calvi e Frederic Laurent publicam Piazza Fontana – La verità su una strage, no qual relatam o complexo de relações, conluios e objectivos das várias organizações que, de uma maneira ou de outra, estiveram envolvidas na chamada «estratégia de tensão». Desde logo, Ordem Nova, uma pequena organização extremista de direita animada por um vigoroso espírito anti-comunista e pela nostalgia relativamente à República de Saló. Mas não só. O que os autores procuram mostrar, suportados em testemunhos e documentos da época, é que a «estratégia» foi teleguiada por membro da NATO e por elementos no interior do aparelho de Estado italiano, através da Gládio, organização clandestina criada no contexto da guerra-fria e destinada a responder a uma eventual invasão soviética da Europa. Em «Orquestra Negra», o documentário que Jean-Michel Meurice realizou com base na investigação dos dois jornalistas, estes fios aparentemente soltos servem para compor uma trama policial bastante plausível.

Todavia, o filme não se detém numa linha narrativa que é explorada no livro: a existência de uma espécie de internacional neofascista, inspiradora da operação de 12 de Dezembro de 1969, e que tinha a sua sede em Lisboa. [continua aqui>>]

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O veneno que desgastou o franquismo

Posted by Miguel Cardina em 15-08-2007

Estudiantes contra FrancoNo final da década de sessenta, Carrero Blanco – o sucessor oficioso de Franco que, em 1973, seria assassinado pela ETA – definia os estudantes universitários espanhóis como seres «envenenados de corpo e alma». Em 2004, a expressão viria a ser utilizada por José Álvarez Cobelas, no título da sua importante obra sobre a oposição universitária madrilena ao franquismo e é agora evocada por Elena Hernández Sandoica, Miguel Ángel Ruiz Carnicer e Marc Baldó Lacomba – autores de Estudiantes Contra Franco (1939-1975). Oposición Política y Movilización Juvenil – para dar conta do irreversível processo de desafectação estudantil nos anos finais do franquismo.

O veneno a que se refere Carrero Blanco – a contestação das pautas ideológicas, sociais e culturais da ditadura – havia permanecido praticamente inoperante até finais da década de cinquenta. A intensa depuração que se seguiu à guerra civil, com a execução ou o exílio – físico e psicológico – de muitos professores e alunos republicanos, ajudara a sedimentar a ordem saída do alzamiento. Se o fim da 2.ª guerra mundial abriu espaço, por momentos, a uma crise de legitimidade internacional, no início da década de cinquenta a vitória consolidada sobre os últimos fogachos da resistência republicana, as relações amigáveis com a Santa Sé e o novo jogo de interesses provenientes da «guerra fria» – que levou a que os Estados Unidos passassem a ver Espanha como um tampão seguro ao avanço do comunismo – proporcionou um reforço da aceitação internacional do regime. [continua aqui>>]

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Fátima revista

Posted by Rui Bebiano em 10-08-2007

Fátima Nestes dias de calor e praia, o Público tem vindo a divulgar uma selecção de textos retirados da Enciclopédia de Fátima, obra colectiva editada pela Principia e organizada por D. Carlos Azevedo, bispo auxiliar de Lisboa, e pelo cónego Luciano Cristino, ligado ao Santuário de Fátima. Numa sinopse da obra, pode ler-se que esta pretende ser um «estudo pioneiro e interdisciplinar que aborda de forma multifacetada, científica e rigorosa os acontecimentos de Fátima». Um dos organizadores afirmou ainda que se trata de «oferecer aos interessados uma interpretação aberta, serena, crítica, teologicamente fundada e historicamente objectiva». Não vi à venda este Dicionário de mais de 600 páginas e suspeito até que seja difícil encontrá-lo nas livrarias que frequento, mas depois de ler os passos seleccionados fiquei com alguma curiosidade. Não podendo fazer um comentário crítico detalhado sem o conhecer melhor, existe porém alguma coisa, nos fragmentos que tenho lido, que me deixa razoavelmente apreensivo. [continua aqui>>]

[Original e comentários, com alguns contributos, em A Terceira Noite]

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Foi Assim para Zita Seabra

Posted by Rui Bebiano em 15-07-2007

Perante Foi Assim, o livro autobiográfico de Zita Seabra agora publicado pela Aletheia, torna-se difícil sustentar um registo de equidade crítica, quando a maior parte daquilo que lemos insinua, pelo seu conteúdo temático e pelo próprio tom da escrita, uma rejeição que nem sempre é boa conselheira. Como seria de esperar, a recusa apriorística da possibilidade de ler o livro instalou-se, de imediato, entre pessoas mais ou menos próximas do Partido Comunista ou dos sectores situados à esquerda do PS. E muitas daquelas que o leram, fizeram-no sobretudo à procura das imprecisões ou dos juízos que permitissem depreciar o que a autora escreveu. Acontece, porém, que contando-me entre os portugueses que se distanciaram no passado e se distanciam hoje das suas posições públicas, me interesso particularmente pela história recente do nosso país. Tenho, por isso, a obrigação de procurar compreender, sem preconceitos e com algum esforço de análise, o interesse prático deste volume. Foi aquilo que procurei fazer no artigo crítico que pode ser lido no blogue A Terceira Noite>>.

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Permitido Proibir

Posted by Miguel Cardina em 06-07-2007

ProibidoTemos assistido nos últimos tempos a reiteradas preocupações com uma certa amnésia social relativamente ao nosso passado recente. Estas queixas vieram de novo ao de cima com a vitória de Salazar no concurso televisivo Grandes Portugueses, ocasião que serviu para lastimar publicamente o débil conhecimento que as gerações mais jovens têm do Estado Novo. Uma das razões para esta carência de memória – outras existirão, porventura mais importantes – está no modo como o período tem sido escrito e descrito. Não me refiro ao facto das narrativas que dispomos serem em regra geral «empenhadas», uma vez que o conhecimento do passado se alimenta tanto de boas memórias como de trabalhos historiográficos rigorosos. Refiro-me, isso sim, à quase ausência de obras que consigam revelar, com informalidade e até mesmo humor, os traços marcantes da época, tornando-a assim mais próxima e compreensível para quem dela não teve experiência.

Isto por si só já seria motivo suficiente para saudar Proibido!, de António Costa Santos, texto no qual o autor aborda, com um invejável sentido do humor, a sanha proibitiva do regime salazar-marcelista: da censura aos livros à vigilância no vestuário, da interdição da Coca-Cola à impossibilidade da mulher viajar sem autorização, da necessidade de licença para usar isqueiro até à proibição de andar descalço, da repressão aos beijos públicos até à obstrução do casamento às enfermeiras. Tudo narrado de maneira ligeira e concisa, com explicações pontuais sobre a natureza e o contexto de algumas destas proibições e relatos divertidos sobre esse «tempo caricaturo, mas sem graça» (p.15), no qual o «Direito teve muito poucas áreas de indiferença, metendo o nariz em tudo, sem balança, nem venda» (p.11). O grafismo não é dos piores da Guerra & Paz, ainda que as imagens no interior sejam algo repetitivas e abundantes. A prosa, felizmente, sai ilesa.

António Costa Santos (2007), Proibido!. Lisboa: Guerra & Paz. 193 pp. [ISBN 978-989-8014-59-7]

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Livro de memórias pouco comum

Posted by Rui Bebiano em 24-06-2007

João FreireEnquanto lia as 598 páginas e as 2.296 notas em letra pequeníssima de Pessoa Comum no seu Tempo, o livro de memórias de João Freire que a Afrontamento acaba de editar, percebi que partilhava com ele, sendo dez anos mais novo, muitas das referências da infância e da pré-adolescência. O conhecimento directo ou indirecto de muitas das figuras mencionadas, as primeiras e as segundas leituras, os hábitos comuns, determinadas imagens, valores ou maneiras de dizer, provam que, no Portugal das últimas décadas da vida biológica de Salazar, quase tudo permanecia imutável. Recordei também que, tal como o autor embora mais brevemente, passei pela experiência do serviço militar, da deserção, do trabalho operário, da militância na esquerda radical e da vida universitária. Só não estive exilado porque, in extremis, o 25 de Abril me poupou esse incómodo, quando a mala já se encontrava feita e alguns contactos estabelecidos. Estes factores determinaram, assim, uma abordagem do livro que jamais poderia ser «distanciada». Tentarei ser apenas justo.

Começo por anotar dois aspectos que conferem a Pessoa Comum no seu Tempo uma marca absolutamente peculiar. Por um lado, este é um relato de uma meticulosidade, de um pormenor, evidenciando uma tal capacidade de memorização, que, se não o tornam único, pelo menos o inserem no pequeno núcleo de textos memorialistas portugueses capazes de produzirem uma abordagem efectivamente exaustiva do passado vivido pelo autor. Ao mesmo tempo, existe aqui algo de igualmente raro, traduzido numa relação de aparente disparidade entre a vida invulgar que se descreve e uma escrita que se pode qualificar como conservadora, se não mesmo anacrónica, na sua relação com o lugar geracional e o percurso específico do autor. Para além de que lhe falta também um cuidado, no domínio do trabalho literário, que todo o texto memorialista deve conter, de forma a mais facilmente partilhar com o leitor os momentos singulares e os estados de espírito. Detecta-se em muitos momentos uma discursividade enfática, por vezes convencional e socialmente situada, certas vezes quase obsequiosa, que prejudica a fluidez da escrita e lhe retira alguma capacidade para absorver o leitor. Este é, porém, um aspecto que acaba por se revelar de reduzida importância.

Em tudo o mais, de facto, este volume revela-se absolutamente excepcional e, como se verá adiante, de uma grande utilidade. Estrategicamente, reúno os seus seis capítulos em três blocos, cada um dos quais é desenvolvido através de processos diferenciados de codificação semântica que lhe são próprios. O primeiro deles refere-se aos antecedentes familiares, ao meio social de origem, à infância e à adolescência do autor, à sua entrada no meio militar e à sua vida como oficial da Marinha, até ao momento em que decidiu desertar do teatro de guerra em Moçambique, bem como à sua carreira desportiva (capítulos 1, 2 e 3). O segundo bloco respeita à sua intensa vida como exilado político em França e ao percurso político que o haveria de conduzir ao anarquismo (capítulos 4 e 5). O último bloco reporta o trajecto de João Freire (JF) como sociólogo e professor universitário (capítulo 6). [continua aqui>>]

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Um livro contra a fé

Posted by Rui Bebiano em 07-06-2007

Sam HarrisNão é fácil defender a importância de uma obra como esta. Quando se multiplicam os livros, discursos, colóquios, debates e números de revistas que pretendem colocar em diálogo islamismo e cristianismo, ou que intentam provar «cientificamente» que se completam, e quando a defesa da laicidade parece confinar-se à teimosia de uns quantos excêntricos fora do tempo, não é fácil declarar, e tentar demonstrar, que ambos são males transportando consigo, em quaisquer das suas múltiplas formas, a opressão e a guerra. Mas é isso que procura fazer o filósofo americano Sam Harris em O Fim da Fé. Religião, Terrorismo e o Futuro da Razão, recém-editado pela Tinta da China.

Um dos argumentos centrais deste livro aponta para o carácter negativo de um novo dogma, do qual são portadores os «crentes moderados» e também aqueles que, não sendo pessoas de fé, entendem a religião como uma área intocável e essencialmente positiva da experiência humana: uns e outros «imaginam que o caminho para a paz só será desbravado quando cada um de nós tiver aprendido a respeitar as crenças injustificadas dos outros». O que leva Harris a declarar, e a propor-se mostrar, que, ao invés, «o próprio ideal de tolerância religiosa (…) é uma das principais forças que nos arrasta para o abismo».

Numa recente entrevista ao suplemento Babelia, Fernando Savater afirma, reciclando o velho aforismo de Marx, que «mais do que ópio, a religião é cocaína». Isto é, ela não se limita a anestesiar, a entorpecer, mas é capaz de produzir estados psicóticos produtores de uma suspensão do tempo e de ilusões com um elevado potencial de violência. O livro de Harris parte também, de alguma forma, do entendimento da religião como uma doença, e como uma doença perigosa, cujo alastramento é favorecido por dois mitos que procura desarmadilhar: o primeiro associado ao facto da maioria de nós acreditar «que é possível retirar coisas boas da fé», o segundo vinculado à crença de que as coisas terríveis que por vezes se cometem em nome da religião «são produto, não da fé em si mesma, mas da nossa natureza mais ignóbil (…) em relação à qual as crenças religiosas constituiriam o melhor (senão mesmo o único) remédio». [continua aqui>>]

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A canção das balas

Posted by Miguel Cardina em 01-06-2007

The Bullet's SongQue estranho vínculo aproxima as vidas de personagens tão diversas como André Malraux, T.E.Lawrence (Lawrence da Arábia), Ernst Jünger, Arthur Koestler, Gabriele D’Annunzio, Willi Münzenberg, Benito Mussolini, Che Guevara ou Filippo Tommaso Marinetti? Na opinião de William Pfaff, todos eles seriam produto da crise cultural e moral que levou, na sequência da I Guerra Mundial, a que valores como o «espírito cavalheiresco», a «virtude» e o «heroísmo» fossem substituídos por códigos de conduta baseados na «transcendência individual» e em «utopias assentes em ficções históricas». No seu recente The Bullet’s Song: Romantic Violence and Utopia, o autor defende que este novo tipo de violência política ter-se-ia sustentado em convicções vitalistas que tendiam a amalgamar estética e política, processo manifestado não apenas no contexto dos fascismos da primeira metade do século, mas também em algumas expressões do marxismo dissidente e nas rebeliões estudantis de finais de sessenta.

Apesar do estilo escorreito e de algumas reflexões peculiares sobre a vida das personagens em causa, a obra de Pfaff possui algumas fragilidades, nomeadamente na estruturação dos seus eixos argumentativos centrais. Assim, o «espírito cavalheiresco», supostamente desgastado no período posterior a 1914, aparece mencionado em T.E.Lawrence, Ernst Jünger ou em Vladimir Peniakoff – soldado que teve um exército privado durante a II Guerra Mundial – nomes que precisamente atestariam a erosão do conceito. De modo semelhante, se por um lado se afirma que a I Guerra Mundial «pôs fim à percepção do heroísmo individual como um ideal social», nas páginas seguintes é possível encontrar inúmeras marcas dessa aspiração, como o seja o culto do «herói» efectuado pelos futuristas, profusamente citados ao longo do texto.

Manifestando uma certa simpatia pela ideia de guerra enquanto testemunho da dimensão trágica da existência – espaço de «terror e piedade» no qual se pode encontrar por vezes a «catarse» –, Pfaff deixa-se conduzir por uma tonalidade acusatória, nem sempre explícita, mas central na condução da obra. Algumas reflexões pertinentes sobre a história intelectual do século XX não deixam de ser ofuscadas por uma evidente nostalgia relativamente a determinados códigos de conduta aristocráticos que, supostamente, faziam do mundo um lugar mais habitável. No fim, fica-se com a perturbadora ideia de que existira uma espécie de violência benigna até ao momento em que a «utopia», o «niilismo» e a «busca da transcendência individual» fizeram a sua entrada no plateau da história.

William Pfaff (2004), The Bullet’s Song. Romantic Violence and Utopia. New York: Simon & Schuster. 368 pp. [ISBN 0-684-80907-9]

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Sobre a «terceira via»

Posted by Rui Bebiano em 17-05-2007

Raimundo NarcisoAcabei de ler Álvaro Cunhal e a dissidência da terceira via, de Raimundo Narciso, editado pela Ambar. O livro apresenta-se como narrativa pormenorizada de um episódio da trajectória pós-Abril do Partido Comunista Português. Começo por aquilo que nele me parece menos positivo. Retive, logo desde as primeiras páginas, a sensação de que este relato talvez merecesse ter sido publicado há mais tempo, contribuindo dessa forma para ampliar o combate político do qual o seu autor foi um dos protagonistas. Cerca de vinte anos depois dos acontecimentos aqui referidos, poderia também ser agora a altura para propor uma leitura interpretativa e historicamente contextualizada dos acontecimentos, o que aqui não foi feito. Além disso, perpassam por todo o volume vestígios de uma certa «língua de madeira», que nos fala ainda a partir de dentro do léxico comunista. E, como se sabe, o distanciamento crítico passa sempre pelo uso de uma linguagem diversa daquela utilizada no universo do objecto estudado. De qualquer forma, Raimundo Narciso incorpora no seu discurso um forte sentido da ironia, o qual tempera bastante a aridez. [continua aqui>>]

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O caminho sinuoso do liberalismo antitotalitário

Posted by Miguel Cardina em 09-05-2007

O Poder e os IdealistasFoi apenas um último exemplo: durante as recentes eleições presidenciais francesas, o candidato vencedor, Nicolas Sarkozy, atacou «Maio de 68» e os seus «herdeiros» por terem criado uma sociedade na qual a autoridade e a hierarquia são frequentemente postas em causa. Nada de novo, conhecendo-se a enorme dificuldade da direita em compreender as mudanças e o seu apelo estrutural à ordem. Na verdade, e no contexto em que a afirmação foi produzida, ela serviu mais para induzir a necessidade de um político duro para enfrentar o presente do que para fazer um julgamento da época. Não foi assim em 2001. Cinco fotos publicadas na revista Stern, datadas de 1973 e onde se observava Joschka Fischer em combates de rua com a polícia, e um excerto de um texto de Daniel Cohn-Bendit, de 1975, no qual se evocava o ambiente anti-repressivo de um jardim-de-infância que então dirigiu, deram azo a uma infinidade de reflexões sobre o niilismo e a apologia da violência que a época teria condensado.

Muitas das intervenções optaram pela caricatura e pelo exemplo desgarrado. Não foi o caso do americano Paul Berman, que redigiu um extenso ensaio, publicado no Verão de 2001 na revista New Republic, e que, redesenhado, constitui o primeiro capítulo de O Poder e os Idealistas, livro publicado em 2005 nos EUA e editado entre nós já este ano. Berman, também ele um antigo soixante-huitard, analisa o caso Fischer/Cohn-Bendit, integrando-o devidamente à luz das práticas e discursos da Nova Esquerda dos anos sessenta e setenta. Em última análise, o que estava em causa era tão só um confronto entre a geração idealista de 68, que havia tomado o poder, e as correntes conservadoras que se lhe opunham.

É outra, porém, a tese fundamental do livro. Nos capítulos seguintes, Berman esforça-se por demonstrar a ideia – polémica mas não completamente inovadora – de que as origens do intervencionismo liberal de hoje estão numa espécie de «Internacional imaginária de 1968», composta por antigos esquerdistas que confrontaram as suas anteriores crenças revolucionárias com a crítica ao totalitarismo efectuada, entre outros, por Arendt e Glucksmann. Este percurso geracional aparece representado simbolicamente em duas figuras que, de certo modo, assinalam o princípio e o fim deste processo: Che Guevara, o guerrilheiro internacionalista, e Bernard Kouchner, fundador da organização Médicos Sem Fronteiras, e impulsionador de uma espécie de «guevarismo dos direitos humanos» (p.221). A intervenção da NATO no Kosovo, em 1999, teria servido para colocar em prática esta ideia da autoridade moral das intervenções militares em nome das vítimas das ditaduras. Alguns dos argumentos ensaiados viriam a reaparecer no contexto pós-11 de Setembro para justificar as opções bélicas conduzidas a partir de Washington. Os antigos militantes de 68 – ou, pelo menos, uma parte deles – convertidos ao «humanismo das más notícias», dividiram-se quanto aos métodos de derrubar Saddam, mas mantiveram-se fiéis a um traço da juventude: a sua «paixão pela justiça social e pela liberdade» (p.289) acima das legitimidades impostas pelas fronteiras.

Paul Berman (2007), O Poder e os Idealistas. A geração idealista de 68 e a sua subida ao poder. Lisboa: Alêtheia Editores, 291 pp. [ISBN: 978-989-622-082-2]

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Cuba, a ilha imaginária

Posted by Miguel Cardina em 30-04-2007

che e sartreA imagem de Cuba como sinónimo de utopia, festa e liberdade deve-se, em grande medida, ao contexto específico dos anos sessenta e aos debates que então atravessam a esquerda. Cuba representava, simultaneamente, uma afronta veemente ao imperialismo americano e a possibilidade de um socialismo alternativo àquele que era proposto por Moscovo. Como em nenhum outro caso, os intelectuais ocidentais desempenharam um papel fundamental na disseminação deste fascínio pela ilha caribenha. O último livro de Iván de la NuezFantasia Roja. Los intelectuales de izquierdas y la Revolución cubana – fala precisamente deste «cubanismo de uma zona da esquerda ocidental» (p.15), que ainda hoje parcialmente se mantém, agora numa mistura de admiração voluntariosa pelo regime de Havana e de recuperação de temas próprios de um tempo pré-revolucionário.

Iván de la Nuez (n. 1964), um escritor cubano radicado em Barcelona, explora neste texto o fascínio dos intelectuais ocidentais comprometidos com Cuba, obsessão essa que «talvez mereça uma explicação mais psicológica do que política, mais erótica do que ideológica, mais pessoal do que social» (p.11). A viagem é feita através das representações construídas por gente tão diversa como Jean-Paul Sartre, Régis Debray, Giangiacomo Feltrinelli, Oliver Stone, Sydney Pollack, Wim Wenders, Graham Greene, Max Aub, Ry Cooder ou David Byrne. Apesar das profundas diferenças assinaladas, todos eles ajudaram a criar uma ilha paralela, que este ensaio revisita de forma crítica. [continua aqui>>]

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A tradução como crime

Posted by Rui Bebiano em 29-04-2007

Comprei Um Olhar Sobre o Holocausto, livro já com alguns anos da historiadora e antropóloga australiana Inga Clendinnen editado agora pela Prefácio (Reading the Holocaust, Cambridge U. Press, 1999), onde esta examina testemunhos de sobreviventes como Primo Levi ou Charlotte Delbo. Não conhecia a edição original e, reconheço agora que ingenuamente, confiei no facto de a qualidade das traduções de livros editados em Portugal ter vindo nos últimos anos a melhorar bastante. O volume tem 302 páginas, mas abandonei-o num instante. É que não tinha assim tanta necessidade de o ler que justificasse o tormento que foi seguir a tradução assinada por A. Mata. E foi praticamente impossível descortinar um parágrafo que não contivesse frases inteiras absolutamente incompreensíveis ou vertidas para um português inenarrável, quase ilegível, desprovido do mínimo exigível de cuidado literário ou mesmo de sentido. Ao acaso: «Eu estava especialmente aterrorizada com os alemães porque eles claramente glorificavam a sua perversidade»; ou «apesar da similaridade dos motivos, as duas experiências estudadas [as duas Guerras Mundiais] tiveram resultados diferentes»; ou ainda «sobre o Holocausto eu não tinha nenhum sentimento de compreensão acumulada». Isto só nas primeiras duas páginas de texto. Continuando: «Experimentei opiniões académicas correntes», «face a uma catástrofe destas dimensões, tão propositadamente infligida, a perplexidade é uma indulgência», «os ciganos eram classificados como insociáveis», «os ciganos fizeram do esquecimento uma arte», «há um mistério principal sobre a compreensão», etc., etc., etc. Já agora: como pode alguém que simplesmente leia livros com alguma regularidade referir-se aos Romani (os ciganos do leste europeu) como Romanos? E parei na página 48, final do capítulo I, pois toda a paciência tem os seus limites.

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Um antídoto contra a intolerância

Posted by Miguel Cardina em 27-03-2007

A «ilusão da singularidade» corresponde à tentação de aprisionar o ser humano dentro de limites estreitos e unilaterais, processo que é responsável pela lógica de conflito e de violência sectária que tem vindo a recrudescer neste início de século. Este é a ideia central que atravessa Identidade e Violência. A Ilusão do Destino, o último livro de Amartya Sen, recentemente publicado entre nós pela Tinta-da-China. Problematizando as novas orientações no campo da integração das minorias ensaiadas pelo governo britânico nos últimos anos, bem como o badalado conceito de «choque civilizacional», lançado em 1993 por Samuel Huntington, Sen produz um argumentado – e, por vezes, libertador – documento que visa sobretudo «resistir à miniaturização dos seres humanos» (p.238).

Na verdade, cada indivíduo é um ser multidimensional, tecido por uma espécie de caleidoscópio de pertenças entre os quais não existe frequentemente nenhuma contradição – nem necessariamente um cruzamento. Como aponta o autor, uma mesma pessoa pode ser «um cidadão americano de origem caraibense, com antepassados africanos, um liberal, uma mulher, um vegetariano, um maratonista, um historiador, um professor, um romancista, um feminista, um heterossexual, um defensor dos direitos dos homossexuais, um amante do teatro, um activista ambiental, um entusiasta do ténis, um músico de jazz» (p.15). O que a violência sectária faz é transformar o ser humano numa criatura unidimensional, absolutizando uma identidade específica, quase sempre genuína – «um hutu é realmente um hutu, um tigre tamil é claramente um tamil, um sérvio não é um albanês e uma alemão adepto da filosofia nazi é com certeza um alemão» (p.227) – redesenhando de acordo com lógicas beligerantes de objectivação do «inimigo» que são, simultaneamente, redefinições de uma suposta identidade única e matricial. Sen identifica esta linha de raciocínio, não apenas nos fundamentalismos religiosos contemporâneos, mas nas teses de Huntington, que dividem o mundo em compartimentos civilizacionais. [continua aqui>>]

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Os católicos contra a ditadura: a vez da voz

Posted by Rui Bebiano em 20-03-2007

Católicos contraSó recentemente se começaram a reconhecer de um modo sistemático as formas da oposição ao salazarismo organizadas à margem da actividade do Partido Comunista ou dos seus aliados tácticos e companheiros de jornada. A capacidade de organização e a tenacidade combativa dos comunistas, associadas às consequências da demonização que deles fazia o regime anterior, contribuíram em larga medida para fazer passar à condição de figurantes as outras formas e os outros espaços de resistência. Sem questionar a importância decisiva do PCP no combate contra a ditadura, é preciso reconhecer que se encontra ainda por estudar, por exemplo, a definição de uma «oposição cultural» crescentemente alargada e diversificada ao longo dos últimos vinte anos do Estado Novo, capaz de definir vivências e imaginários alternativos traduzíveis numa desafectação crescente de parte importante da juventude universitária e urbana, dos sectores artísticos e intelectuais e de muitos elementos das profissões liberais e da classe média. Por sua vez, a dissidência individual, inevitavelmente menos notória, permanece em larga medida por reconhecer, se exceptuarmos referências pontuais surgidas neste ou naquele obituário, ou então em homenagens públicas mais ou menos tardias.

Os grupos organizados têm também permanecido quase na penumbra. A corrente socialista ainda não possui um estudo detalhado sobre a sua génese e desenvolvimento (um livro de Susana Martins constitui uma primeira tentativa). A esquerda radical só recentemente começou a ser objecto de estudo sistemático (principalmente com José Pacheco Pereira e Miguel Cardina), enquanto a actividade dos sectores católicos de oposição, apesar de recorrentemente mencionados e hoje publicamente «representados» na intensa acção cívica de muitos dos seus antigos activistas, continua por conhecer. Se exceptuarmos alguns textos de António Alçada Baptista e de João Bénard da Costa, a importância deste grupo tem sido recordada apenas em evocações episódicas, por vezes de pendor algo nostálgico, como aconteceu na comemoração dos quarenta anos da fundação da revista O Tempo e o Modo.

Um contributo novo e relevante para alterar este estado de coisas acaba, entretanto, de ser proporcionado por Joana Lopes, autora de Entre as brumas da memória. Os católicos portugueses e a ditadura, publicado pela Ambar. [continua aqui>>]

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«Crítica e Alternativas para uma Civilização Diferente»

Posted by passadopresente em 21-02-2007

Por Alexandra Silva

Raiz & Utopia Com os acontecimentos do 25 de Novembro de 1975, que dá a vitória às forças moderadas democráticas, lideradas pelo chamado «grupo dos Nove» e pelo Partido Socialista, termina a agitação revolucionária que se seguiu ao golpe militar do 25 de Abril. Nos anos seguintes viria a viver-se uma democracia marcada pelo processo revolucionário. No panorama político e social a cultura não tende a ser um território prioritário, daí ir construindo a sua história de adiamentos e de exigências impossíveis.

A problemática da cultura que acompanhava de perto a modernização viria a constituir um dos vazios mais gritantes da reflexão teórica do pós-25 de Abril. Diário de Notícias, Diário de Lisboa e Vida Mundial constituíam a excepção num universo em que a colaboração dos intelectuais era restrita.

Se no período imediato ao pós-25 de Abril se verifica uma quase-ausência de intervenções culturais marcantes, elas pronunciar-se-ão mais claramente a partir do ano de 1976. Com a restauração da liberdade de imprensa assistira-se ao aparecimento de inúmeras publicações de carácter doutrinário e partidário e o aumento considerável de tiragens e vendas. Como consequência dos acontecimentos políticos, a ordem cultural pós-25 de Abril sofreria uma mutação radical, perdendo a função simbólica de espaço de disputa e conflito de ideologias para se transformar, como diz Eduardo Lourenço, numa «espécie de transcendência». Em 1977 amplia-se a reflexão pela escrita: nascem revistas, algumas de efémera duração, muitas delas editadas fora de Lisboa, em várias áreas da cultura. A maioria teve uma duração brevíssima. Podem destacar-se a Arco-íris («cadernos de ideias literárias», Porto), a Persona (revista de crítica literária, Porto), os Cadernos de Literatura (Coimbra), a Sema («ou a significação que se pretende possível dum traço duma letra dum sinal», Lisboa) e a Fenda («magazine frenética», Coimbra).[mais>>]

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A violência, o medo e os rostos defronte

Posted by Miguel Cardina em 14-02-2007

Vitimas de SalazarExiste já uma considerável produção memorialística proveniente do diversificado campo da oposição ao Estado Novo. Em 2001, António Ventura publicou o catálogo Memórias da Resistência. Literatura autobiográfica da resistência ao Estado Novo, no qual antologiou noventa e nove extractos de livros escritos por activistas da luta contra o regime de Salazar e Caetano. Desde essa data, mais livros – subtraia-se à contabilidade as inúmeras crónicas ou testemunhos sobre o assunto – foram adicionados a esta lista, estando actualmente o número de relatos desta natureza bem acima da centena. Um exemplo último foi a edição das memórias de Edmundo Pedro, dedicadas ao período da sua formação ideológica e permanência no campo de concentração do Tarrafal.

Por outro lado, e no campo académico, a abordagem dos processos de luta oposicionista tem vindo a interessar um número crescente de investigadores, com alguns deles a deslocarem o foco de atenção para o «outro lado», o lado dos mecanismos, dos fenómenos e dos actores da repressão política. Recentemente, duas teses de doutoramento foram dedicadas a esta temática. Em 2004, Dalila Cabrita Mateus publicou A PIDE/DGS na Guerra Colonial: 1961-1974 – tendo, em 2006, dado à estampa Memórias do Colonialismo e da Guerra, conjunto de quarenta entrevistas, efectuadas no âmbito do referido trabalho, a portugueses e africanos perseguidos pelo seu empenhamento independentista – e Irene Flunser Pimentel apresentou, já este ano, A Polícia Internacional de Defesa do Estado. Direcção Geral de Segurança (PIDE/DGS). História da Polícia Política do Estado Novo, cuja publicação se anseia para breve.

Vítimas de Salazar, de João Madeira, Irene Flunser Pimentel e Luís Farinha, permite percorrer esse duplo caminho que atravessa resistência e repressão. Ao mesmo tempo que aborda a violência cometida pelas autoridades, recupera o rosto daqueles que arriscaram romper o cerco e lutar, das mais variadas formas, contra o regime ditatorial. Como declara João Madeira na introdução, este não é o estudo sistemático «que é globalmente indispensável» e «que tem vindo a ser parcelarmente realizado» sobre este domínio. Ainda assim, convém esclarecer que a obra não se limita a coligir e elucidar situações mais ou menos emblemáticas, mais ou menos desconhecidas – tarefa já de si altamente louvável – mas proporciona uma útil visão de conjunto sobre os mecanismos da repressão política. [mais>>]

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Clássicos para todos

Posted by passadopresente em 11-02-2007

Por Adriana Bebiano

GoldhillDentro do fenómeno recente do interesse popular pelo passado, merece particular destaque a produção que tem por matéria a Antiguidade Clássica. Toma diversas formas: desde romances e filmes que popularizam e reflectem versões estereotipadas das culturas clássicas, passando pela produção teatral de versões – por vezes, reescritas – dos dramas clássicos, pela publicação de tradução de poesia e mesmo pelo ensaio. Este representa talvez a vertente mais interessante do fenómeno, uma vez que, ao contrário da narrativa, da poesia ou do teatro, o ensaio tem por público-alvo, em regra, o círculo restrito dos especialistas de uma área específica do saber. Porém agora acontece que podemos encontrar ensaios que, sendo da autoria de académicos especialistas, são de leitura acessível aos leigos. Entre as publicações portuguesas recentes realço títulos como Grécia Revisitada (2004), de Frederico Lourenço, ou Caminhos do Amor em Roma (2006), de Carlos Ascenso André.

Amor, Sexo e Tragédia. A Contemporaneidade do Classicismo (2006) é justamente um livro deste tipo. Trata-se da tradução portuguesa de Love, Sex & Tragedy (2004), da autoria de Simon Goldhill, classicista de Cambridge. A modulação que o subtítulo em português introduz revela-se mais adequada ao conteúdo do que o título inglês, porventura sedutor para um público mais amplo. O que Goldhill pretende demonstrar é precisamente a contemporaneidade das culturas clássicas e, mais ainda, a importância do (rigoroso) conhecimento dessas culturas para a compreensão da nossa própria actualidade, em questões como o amor, o sexo ou a tragédia – prometidos no título – mas também a política, a guerra, a língua e práticas culturais diversas. [mais>>]

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A incrível e útil memória de Edmundo Pedro

Posted by passadopresente em 02-02-2007

Por João Tunes
Publicado originalmente em Água Lisa (6)

Edmundo Pedro

Não tinha necessariamente que coincidir: um homem singular escrever um livro de memórias singular. Mas é o caso de Memórias, um combate pela liberdade, volume cobrindo o período que vai da infância até à saída de Edmundo Pedro do Campo de Concentração do Tarrafal, no imediato pós-guerra mundial e com 27 anos de idade. Assim, o período abrangido por estas “memórias” inclui não só a sua infância revolucionária (começou-a mais a saga das prisões, com 14 anos) como a adolescência e a primeira fase da vida adulta, em que o substancial se desenrolou como prisioneiro do Tarrafal para onde entrou com 17 e saiu com 27 anos! Logo aqui, ressalta a primeira grande odisseia especial, a sua vivência dramática de criança-adolescente combatente contra a ditadura, pelo comunismo e com uma personalidade formada na clandestinidade e na prisão. Abrangendo o seu período de “crente” no marxismo-leninismo da primeira metade do século XX (o mesmo que enformou Pavel, Bento Gonçalves e Cunhal, entre tantos mais). Porque a decepção só viria a seguir. [mais>>]

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Duas noites com Scorsese

Posted by Rui Bebiano em 16-01-2007

De Sica Rossellini FelliniA tecnologia do digital permite agora um retorno sistemático à memória do cinema. Pelas mãos de Martin Scorsese, uma pequena caixa com quatro dvd que acaba de ser editada conduz-nos assim através de duas viagens por uma época decisiva da história dos cinemas americano e italiano. Aquela que mais indiscutivelmente marcou, ainda que apenas como um eco, a formação essencial de grande parte dos realizadores contemporâneos, bem como a sensibilidade e a «recordação fílmica» de sucessivas gerações dos amantes da arte.

A possibilidade de uma recuperação dos filmes dos anos cinquenta é, aliás, tanto mais importante quanto a televisão quase deixou de os passar. Hoje, a generalidade dos canais interessa-se mais por filmes dotados de uma visualidade capaz de se impor de maneira imediata a um público nivelado por baixo, e isso significa, desde logo, o recurso incontornável à cor, a argumentos providos de «acção», a um erotismo contemporâneo e a todo o tipo de efeitos especiais. O entretenimento comanda a programação do cinema televisivo, deixando implícito que quem não gostar deverá procurar alternativas por sua própria conta e risco.

Estes filmes apontam, porém, numa outra direcção. Enquanto uma parte do público revê neles imagens e enredos que para si serão matriciais, a outra pode descobrir por seu intermédio um universo que actualmente se encontra quase compulsivamente afastado das salas de projecção. É esse o exercício para o qual nos convida Scorsese, colocado aqui na posição do rapaz italo-americano de classe média-baixa que, pela década de 1950, na sua casa familiar de Little Italy, descobria, através do pequeno monitor de cantos curvos de uma televisão a preto e branco – por vezes em cópias cortadas e de baixa qualidade, inevitavelmente dobradas em inglês – a magia e a veemência dramática do grande cinema.

A caixa transporta dois dvd duplos: o primeiro deles com Uma Viagem com Martin Scorsese pelo Cinema Americano (1995), que ainda não pude ver, e o outro A Minha Viagem a Itália (1999), que me ocupou em duas intensas noites. A partir do fundador Roma città aperta (1945), de Roberto Rossellini, o autor de Taxi Driver percorre ali algumas das referências do cinema italiano do pós-guerra e o seu imediato desenvolvimento, centrado nas diversas fases dessa revolução neorealista que, tanto no domínio dos processos da realização quanto no que respeita ao impacto junto da sensibilidade do espectador, redefiniria para sempre a arte do cinema. Um trajecto de revisitação sentimental, através de filmes-documento, considerados centrais nas obras do mesmo Rossellini, de Vittorio De Sica, de Luchino Visconti, de Federico Fellini ou de Michelangelo Antonioni, que nos ensinam e, ao mesmo tempo, nos deixam algo ébrios de uma beleza antiga mas muito bem conservada. Rendidos, durante 246 minutos, ao puro prazer de ver contar histórias – e de ver correr a história – tendo a câmara por confidente.

Adenda – Como é sabido, o bom conhecimento de uma língua não faz um bom tradutor. Em Portugal, a tradução de livros tem vindo a melhorar nos últimos anos, mas a televisão e o cinema continuam a aceitar tradutores que, por vezes, não possuem um background cultural mínimo para a tarefa que lhes foi destinada. Neste caso, o trabalho executado parece bastante razoável, mas aqui e ali tropeçamos com palavras em relação às quais teria sido conveniente o recurso a algumas leituras. Exemplo: os omnipresentes partigiani (plural de partigiano) repetidamente convertidos em partidários!

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Os anos do prazer

Posted by passadopresente em 15-01-2007

Por Sandra Guerreiro Dias

JazzO lançamento pela Blue Note da antologia Placebo Years 1971-1974, de Marc Moulin, constitui um notável exercício de revisitação/revisão estética dos finais da década de 1960 e inícios da seguinte. Se tivermos em conta as implicações existentes entre as artes e o seu contexto, amplamente equacionadas e desenvolvidas por autores tão diversos como Comte, Guyau ou Marcuse, não será arriscado afirmar que um exercício de revisão estética é também um movimento de re-observação de determinado momento histórico. Entretanto, se para Marcuse, em A Dimensão Estética, o alcance intersectivo da arte se materializa numa derivação de limites e sentidos produzidos pelo social, então «a lógica interna da obra de arte termina na emergência de outra razão, outra sensibilidade que desafiam a racionalidade e a sensibilidade incorporadas nas instituições sociais determinantes». Pode assim concluir-se que a arte, enquanto formulação estética radicada no seu mandato, além de representar, suporta interpretações do real que, muitas vezes, o problematizam e amplificam, completando, as suas leituras, simulações e figurações. [mais>>]

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O celibatário e as mulheres

Posted by Miguel Cardina em 04-01-2007

celibatoAs ditaduras tendem a criar sistemas de valores rígidos no centro dos quais, frequentemente, o ditador se representa. Exímio neste jogo de simulacros, Salazar soube projectar-se, não como ícone, mas como espectro indissociável do pulsar ideológico do regime. Solitário como um padre, asceta como um santo, Salazar ficcionou-se ausente do lugar que ocupava através de uma «retórica da invisibilidade», como lhe chamou José Gil. O poder era um vício corruptor que o ditador aceitava suportar como quem sofre de uma vocação sacerdotal.

Esta imagem difundiu-se junto de variados quadrantes políticos. Para os defensores do Estado Novo, Salazar governava com a sabedoria e a austeridade que apenas se permitem aos estadistas que ousam não ter vida privada. Por seu turno, militares oposicionistas, como Henrique Galvão e Humberto Delgado, criticavam o ditador por ter destruído a virilidade do povo português. Na sua Carta Aberta ao Dr. Salazar, publicada no Brasil nos anos 60, Galvão acusa-o de ter desvertebrado «oito milhões de portugueses de quem fez pobres celenterados, que para aí andam ao sabor das correntes do Fado, de Fátima e do Futebol». Para a área do velho republicanismo, o «fradalhão de Santa Comba» era o reflexo consequente de um dado país – rural, beato e estéril.

Numa altura em que alguns rumores afiançam uma votação honrosa no concurso televisivo Grandes Portugueses, uma série de livros editados nos últimos meses de 2006 permitem identificar algumas das facetas menos conhecidas do ditador. Neste particular, destaque-se Os Amores de Salazar, de Felícia Cabrita, que retrata, em forma de reportagem alargada, as «façanhas amorosas» de um homem que era tudo menos «imune às imposições ou disposições da carne». Ainda que recorrendo a algumas adjectivações porventura forçadas – «Troca-Tintas», «Casanova provinciano» ou «Don Juan» são expressões que aparecem frequentemente a colorir o texto – a autora consegue ir além do registo meramente vouyeristico. Fazendo uso de fontes pouco visitadas – cartas, diários, agendas e depoimentos –, Felícia Cabrita revela o outro lado desse espelho no qual o ditador se quis dar a ver. [mais>>]

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Das casas dos mortos

Posted by Rui Bebiano em 07-12-2006

Estaline em grupoO subtítulo recorda uma certa literatura antisoviética do tempo da Guerra Fria. Mas Estaline – A Corte do Czar Vermelho, do historiador britânico Simon Sebag Montefiore, não é, de forma alguma, um livro de propaganda. Tendo ganho em 2004 o History Book of The Year Award, atribuído pelos British Book Awards, resulta antes de um trabalho prolongado, desenvolvido no terreno ao longo dos anos 90, época na qual Montefiore percorreu uma boa parte da ex-URSS, pesquisando e escrevendo ao mesmo tempo artigos para o Sunday Times, o New York Times e a Spectator. Ao estudo e à experiência que foi acumulando, juntou, a partir de 2000, um trabalho minucioso, e surpreendentemente rápido, sobre os arquivos pessoais dos antigos membros do Politburo do Partido Comunista, entretanto libertos para a consulta pública.

Não é mais uma biografia de Estaline, mas antes um relato, bastante pormenorizado, da vida íntima, ou daquela preservada da exposição pública, dos principais dirigentes da União Soviética e das suas famílias durante o período no qual o georgiano de Gori assumiu a direcção do Partido e do Estado. Tal qual essa vida decorreu nos espaços fechados ­– gabinetes, corredores e antecâmaras, alpendres de dachas, conclaves partidários, mas também salas de tribunal, câmaras de tortura, prisões e paredões de fuzilamento – de onde apenas saíam para executarem decisões, ou, como aconteceu a um grande número deles, para serem abatidos e apagados da história.

Trata-se pois de um relato à «huis clos», sobre um universo até há pouco tempo conservado impenetrável ou confinado aos testemunhos bastante parciais de quem apenas episodicamente o entrevira e pôde «viver para contá-lo». Desta vez, quem fala são também os relatórios mantidos ultra-confidenciais durante décadas, as cartas directamente dirigidas ao «pai dos povos», os bilhetes pessoais trocados durante as reuniões ou durante almoços e jantares, os telegramas urgentes, até mesmo as caricaturas naïf e as piadas brejeiras com as quais os dignitários do regime aliviavam a imensa tensão na qual viviam.

Porque é esse o traço mais terrível e evidente que emerge deste livro. Conhece-se hoje bastante bem a dimensão dos processos de Moscovo, das purgas internas constantes e discricionárias, das deportações em massa, da organização brutal e do colossal crescimento do Gulag. Mas, afora os testemunhos pessoais – que podem sempre ser acusados de parciais ou de episódicos (veja-se Bukharine, minha paixão, de Anna Larina Bukharina, traduzido por Ludgero Pinto Basto e editado em 2005 pela Terramar) – permanecia por reconhecer a dimensão da tensão, das sobrecargas de trabalho, da exigência constante, do medo sem fim, no qual estes homens – incluindo-se neles o próprio José Vissarianovich, gradualmente transformado num misógino e num maníaco da suspeita – permanentemente viviam, alimentando uma concepção paranóica do poder e da actividade política comum aos «grandes homens» que se elevaram dos restantes rodeando-se de salafrários e de yes men. Aqui, com a agravante de, como nos mostra este livro terrível mas também fascinante (apesar de alguns desagradáveis pormenores de tradução e da pavorosa capa escolhida para a edição portuguesa), serem todos eles, igualmente, semi-homens incapazes de colocarem a compaixão, e a capacidade para pensar pela própria cabeça, acima do destino colectivo, inexorável, e permanentemente vigiado, que acreditavam partilhar.

Simon Sebag Montefiore (2006), Estaline – A Corte do Czar Vermelho. Lisboa: Alêtheia. Trad. de Mário Dias Correia. 666 pp. [ISBN: 989-622-024-7]

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Revisitar a indisciplina

Posted by Miguel Cardina em 30-11-2006

Anti-Disciplinary ProtestOs anos sessenta têm servido de objecto a um conjunto diversificado de estudos que visam demonstrar a importância e especificidade desse período histórico na definição da contemporaneidade. Em Anti-Disciplinary Protest. Sixties Radicalism and Postmodernism, a australiana Julie Stephens procura mostrar a correspondência existente entre o radicalismo deste período e a pós-modernidade, rejeitando a leitura comum que descobre uma relação entre o fracasso dos sixties e o desespero político posterior. Ao mesmo tempo, a autora propõe um modo alternativo de equacionar a herança da década, assente na ideia de que foi o sucesso deste movimento, e não o seu fracasso, que abriu caminho ao acolhimento de algumas noções hoje dominantes sobre a política e o político. Por outras palavras, o desencantamento político trazido pela pós-modernidade foi o resultado do reencantamento do político efectuado pela contracultura dos anos sessenta. A tese de Stephens é, no entanto, um pouco mais complexa, introduzindo uma nuance significativa: se, por um lado, a contracultura abriu caminho ao entendimento da política como impasse, por outro, ela não abdicara de um certo ideal difuso de emancipação, ainda que o tenha reconfigurado radicalmente a partir do carácter paródico das suas intervenções.

Para se entender os contornos desta ligação, é necessário ter presente a noção de «protesto anti-disciplinar», eixo conceptual através do qual se vai desdobrando o texto. Para Stephens, a radicalidade dos anos sessenta resulta da invenção de uma nova linguagem de protesto, marcada pela celebração da ambiguidade e por uma recusa da «disciplina do político» (p.23). Partindo de uma re-leitura da década que se concentra em algumas vertentes mais radicais da contracultura, geralmente desconsideradas, a autora contesta as interpretações que descrevem os anos sessentaa partir de distinções rígidas como as efectuadas entre activistas e hippies, políticos e apolíticos, radicalismo político e radicalismo cultural.

A nova linguagem de protesto caracteriza-se precisamente por uma transgressão deliberada destas distinções. É isso que Stephens procura demonstrar recorrendo à evocação de acontecimentos como a tentativa de levitação do Pentágono, encenada em 1967, ao exame de práticas e discursos de grupos como os Yippies e os Diggers ou à análise do conceito de «livre», entendido já não apenas como resgate dos constrangimentos sociais, económicos e políticos, à maneira da esquerda tradicional, mas também como uma espécie de «qualidade corpórea» de «ressonâncias metafísicas» (p.43). Longe de ser apolítica, esta nova linguagem afastava-se, isso sim, da ideia de que o político se definisse em torno de noções como organização, hierarquia e liderança. Criticando a inteligibilidade e a coerência ou, dito de outro modo, a racionalidade herdada do Iluminismo, o radicalismo sixtie abriu caminho a um repensamento do sentido e do carácter do político. [mais>>]

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Grãos na engrenagem

Posted by Rui Bebiano em 11-11-2006

FriedmanDentro da teia comunicacional, activa e omnipresente, só o autismo dos regimes totalitários permite hoje o vislumbre de um mundo que permanece inequivocamente inspeccionado e mudo. O controlo da informação em países como a Coreia do Norte ou a China Popular, como Cuba ou a Arábia Saudita, possibilita ainda, excepcionalmente, a manutenção de mundos à parte, dentro dos quais a acção dos governos, e as leituras da história que este impõem, se inscrevem em rígidas pautas feitas de falas consentidas e de silêncios impostos. Nos Estados que vivem sob uma democracia formal, capaz de conviver com uma liberdade de opinião e de expressão que a Internet alargou a novas fronteiras, o controlo é menos directo e violento, embora mais subtil. Traduz-se, essencialmente, na omissão de informação, no «esquecimento» das vozes polémicas, na imposição de discursos inócuos de tão padronizados. No caso extremo das posições indesejadas que parecem poder colidir com o interesse público, estes processos são, aliás, consentidos pela generalidade dos cidadãos. No prefácio que escreveu para The Secret Histories, James Carroll sublinhou que, ao contrário daquilo que acontece no sistema totalitário, «numa democracia os segredos considerados abusivos são conservados com recurso a uma colaboração entre o governo e o governado». Os média, de uma forma particularmente significativa, podem até «transformar-se em instrumentos de um obstinado não-conhecer, que induz a população a olhar para outro lado».

Esta antologia, organizada e comentada por John S. Friedman, jornalista americano que é também realizador de cinema documental, partiu deste princípio para tentar reunir um conjunto de textos que, de forma singular, se tivessem mostrado capazes de quebrar esse consenso, contribuindo, de maneira poderosa e visível, para produzirem viragens importantes na opinião pública e na política dos governos perante situações e problemas «desejavelmente» ignorados pelos principais meios de comunicação. Pode encontrar-se aqui uma certa «história secreta» de diversos conflitos armados, desde a Segunda Guerra Mundial ao Vietname, ou achar-se o processo de revelação pública de situações como a violação dos direitos humanos durante o Holocausto e em May Lai, o genocídio do Ruanda, a tortura de prisioneiros muçulmanos em Abu Ghraib. O empenhado secretismo de ambos os lados da Guerra Fria é também representado por um vasto conjunto de materiais que se ocuparam da repressão no Gulag soviético ou dos abusos domésticos – a maioria dos exemplos reportam-se, de facto, à realidade americana – de Nixon, de J. Edgar Hoover, da CIA ou do FBI. A preservação dos segredos sobre o nuclear, as experiências médicas governamentais utilizando a radioactividade e o LSD, a forçada omissão do conhecimento público acerca dos efeitos nefastos do tabaco ou sobre o prevalecimento das actividades do crime organizado, constam também dos documentos de choque que este volume reúne. Estes incluem dados e factos que os governos ou, pelo menos, aqueles que em determinado momento neles detiveram o controlo do poder, teriam decerto preferido que jamais se tivessem tornado do conhecimento público. E também um conjunto de provas a propósito de forma como, por vezes, uma informação singular concebida fora das áreas de decisão – e divulgada, a contracorrente, sob a forma de notícia de jornal, de folha de fax, de texto policopiado, de programa da rádio ou de vídeo amador – pode suscitar transformações de grande impacte e duração, ajudando a compreender viragens aparentemente bruscas.

John S. Friedman, ed. (2005), The Secret Histories. Hidden Truths That Challenged The Past And Changed The World. New York: Picador. 530 pp. [ISBN: 0-312-42517-1]

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