Passado/Presente

a construção da memória no mundo contemporâneo

Archive for the ‘Notas’ Category

História e fotografia em exposição

Posted by passadopresente em 08-12-2007

O Museu de Fotografia de Reiquiavique, na Islândia, tem em exibição a exposição de fotojornalismo Afternoon Press Photography in Iceland: 1960-2000, uma retrospectiva que materializa a fotografia como suporte documental da recuperação narrativa da história do passado recente daquele país.

Na origem do projecto encontra-se o conceito de fotografia jornalística enquanto objecto simultaneamente estético e documental, que, pela sugestão e pela evocação concisa e permanente, resgata fracções de segundo de momentos que são parte integrante da história. Como referiu Susan Sontag, o jornalismo fotográfico tem desempenhado um papel insubstituível na forma como condiciona e influencia a nossa percepção dos eventos contemporâneos.

[por Sandra Guerrero Dias] [continua aqui>>]

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A sociedade do hiperconsumo

Posted by passadopresente em 21-09-2007

Image Hosted by ImageShack.usGilles Lipovetsky, professor de filosofia na Universidade de Grenoble, autor de vasta obra publicada onde reflecte sobre as sociedades contemporâneas (A Era do Vazio, O Luxo Eterno ou O Crepúsculo do Dever, entre outros), teórico da «hipermodernidade», esteve há pouco tempo em Portugal para participar numa conferência subordinada ao tema A Busca da Felicidade que decorreu na Culturgest, na qual se pretendeu reflectir a felicidade do ponto de vista científico e das suas implicações nas práticas sociais e culturais no mundo contemporâneo. Recentemente foi publicado entre nós o seu último ensaio, A felicidade paradoxal – Ensaio sobre a Sociedade do Hiperconsumo (Le bonheur paradoxal. Essai sur la societé d’hyperconsommation, publicado em 2006, pelas edições Gallimard), uma reflexão sobre a sociedade de consumo actual.

Depois do aparecimento do capitalismo de massas, no fim do século XIX, e da «sociedade de abundância», no pós-guerra, o mundo vive hoje uma nova forma de consumo, iniciada nas duas últimas décadas e marcada pela oferta permanente de produtos em escala e intensidade jamais observadas. Segundo Lipovetsky entrou-se assim num terceiro estádio do capitalismo, ao qual chamou «a sociedade do hiperconsumo».

O autor analisa a relação paradoxal que, em seu entender, os indivíduos celebram hoje com um universo dominado pelo mercado, onde nem a esfera da intimidade consegue escapar. Num curto espaço de tempo, novos modos de vida e costumes instituíram uma nova hierarquia de objectivos e uma nova relação do indivíduo com as coisas e o tempo, consigo próprio e com os outros. A vida no presente sobrepôs-se às expectativas do futuro histórico e o hedonismo, às militâncias políticas. Em contrapartida, a febre do conforto ocupou o lugar das paixões nacionalistas e os lazeres substituíram a revolução, diz o filósofo. Em suma, o melhor-viver tornou-se uma paixão das massas, o objectivo supremo das sociedades democráticas, um ideal exaltado em cada esquina. O bem-estar tornou-se o novo deus, sendo o consumo o seu templo e o corpo a sua permanente liturgia, acrescenta. [por Alexandra Silva] [continua aqui>>]

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Trachimbrod

Posted by passadopresente em 16-09-2007

Image Hosted by ImageShack.usEverything is Illuminated é um filme que quase não espanta. Simples, metódico, colorido. O espanto vem depois, no fim e apenas quando nos apercebemos que todas as respostas ficam dadas sem ter sido necessário fazer-lhe as perguntas. Além da banda-sonora, étnica, folclórica e meditativa, assinada por Paul Cantelon, autor de bandas-sonoras de filmes como Kill your Darlings (2006) ou Issaquena (2002), é o desenraizamento dos alicerces que presidem à construção da matéria romanesca, o pressuposto de onde se parte que acaba por surpreender. O enredo, nada complexo mas eficaz, intenso e extraordinário, baseado no romance de Jonathan Safran Foer com o mesmo nome, resulta numa performance de loucos disfarçados, afoitos e incendiários do próprio destino porque inconscientemente comprometidos com a regulação do papel da memória nas respectivas vidas.

O contexto histórico emergente é o do rescaldo de uma Segunda Guerra Mundial perspectivada essencialmente a partir daquela que foi uma das suas mais complexas e discutíveis causas propulsoras: a mitologia racista dos judeus enquanto raça inferior e perniciosa. Tributário portanto da longa história do anti-semitismo na sua vertente mais extrema e hedionda, Everything is Illuminated entretém-se depois, ou entretanto, num enquadramento espacial que não acontece ao acaso porque sincronizado com o que acima ficou exposto, que se transcende e se substancializa numa Ucrânia que se perfila através de edifícios decrépitos e abandonados, ruas vagamente vazias, silêncios e espaços preenchidos pela incontornável memória de uma guerra ainda latente.

Apesar, assim, do enredo se oferecer essencialmente ao meio milhão de judeus ucranianos dizimados durante a ocupação alemã, trata-se igualmente de reaver, explicando, e através da restauração de determinadas memórias entretanto extraviadas, o presente de um país gravemente afectado pela desordem do passado. [por Sandra Guerreiro Dias] [continua aqui>>]

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Portugal e Espanha: histórias em encontro

Posted by Miguel Cardina em 29-05-2007

Nos próximos meses, serão pelo menos duas as iniciativas que irão confrontar comparativamente a história recente de Portugal e Espanha. A primeira intitula-se III Encontro Luso-Espanhol de História Política, desta feita dedicado à «Formação e a Consolidação do Salazarismo e do Franquismo nas décadas de 1930 e 1940», e decorrerá em Évora, nos dias 4 e 5 de Junho. A segunda – o IX Curso Livre de História Contemporânea – realizar-se-á em Lisboa, entre 12 e 17 de Novembro, numa organização conjunto da Fundação Mário Soares e do Instituto de História Contemporânea. O título genérico do encontro será «História, Memória e Democracia: Portugal/Espanha».

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Hispania Nova: sobre a memória da repressão franquista

Posted by Miguel Cardina em 23-05-2007

Em torno da problematização do passado recente, nomeadamente do período da Guerra Civil e do franquismo, tem-se produzido em Espanha abundante actividade e documentação. O número 7 da revista Hispania Nova disponibiliza um dossier sobre o assunto – intitulado precisamente «Generaciones y memoria de la represión franquista: un balance de los movimientos por la memoria» – que vem continuar a abordagem já iniciada em número anterior.

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Auxiliar de memória

Posted by Rui Bebiano em 02-05-2007

Por teu livre pensamentoEditado pela Assírio & Alvim, Por Teu Livre Pensamento é um livro que evoca os rostos e as memórias de prisão de 25 ex-presos políticos portugueses e que acompanha a exposição patente no Centro Português de Fotografia, no Porto, até ao próximo dia 24 de Junho. As fotografias a preto e branco, imagens recentes sobrepostas aquelas que a PIDE originalmente tirou, são de João Pina. Os textos, da autoria de Rui Daniel Galiza, são essencialmente curtos relatos dos trajectos prisionais dos fotografados, construídos a partir de conversas que se pressente terem sido mais longas e densas.

Todos os fotobiografados são resistentes, oriundos de diversos quadrantes, embora maioritariamente do PCP, como seria de esperar e é justo que assim seja. Homens e mulheres de rostos endurecidos por anos de luta e de trabalho político, marcados pela prisão, pela tortura, por vidas em fuga que lhes foram gravando algumas das rugas que se lhes podem agora notar. Todos, sem excepção, a merecerem a admiração dos que chegaram depois e deles herdaram o sacrifício da liberdade. Os trajectos mais extraordinários são, porém, o de Emídio Guerreiro (que jamais foi comunista e cuja vida, para utilizar um lugar-comum, dava de facto um filme) e o de Edmundo Pedro (que declara ter sido afastado do partido contra sua vontade). Ambos contêm uma dimensão de imprevisibilidade, por vezes de capacidade para integrar a aventura, que nos permite adivinhar vidas particularmente únicas e complexas. Edmundo Pedro começou, aliás, a publicar entretanto a sua própria autobiografia, a qual prolonga as Memórias do seu pai, Gabriel Pedro, deixadas num documento único que o PCP, contra o desejo expresso do autor, terá sonegado ao conhecimento público.

No conjunto, o volume funciona como um precioso auxiliar da memória, destacando o rosto e a experiência daquelas pessoas, apenas 25 entre muitos milhares possíveis, de modo a que elas jamais possam ser olhadas como um simples sample do imaginário contemporâneo.

Rui Daniel Galiza e João Pina (2007), Por Teu Livre Pensamento. Histórias de 25 Ex-Presos Políticos Portugueses. Lisboa: Assírio & Alvim, 192 pp. ISBN 978-972-37-1186-8

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A tradução como crime

Posted by Rui Bebiano em 29-04-2007

Comprei Um Olhar Sobre o Holocausto, livro já com alguns anos da historiadora e antropóloga australiana Inga Clendinnen editado agora pela Prefácio (Reading the Holocaust, Cambridge U. Press, 1999), onde esta examina testemunhos de sobreviventes como Primo Levi ou Charlotte Delbo. Não conhecia a edição original e, reconheço agora que ingenuamente, confiei no facto de a qualidade das traduções de livros editados em Portugal ter vindo nos últimos anos a melhorar bastante. O volume tem 302 páginas, mas abandonei-o num instante. É que não tinha assim tanta necessidade de o ler que justificasse o tormento que foi seguir a tradução assinada por A. Mata. E foi praticamente impossível descortinar um parágrafo que não contivesse frases inteiras absolutamente incompreensíveis ou vertidas para um português inenarrável, quase ilegível, desprovido do mínimo exigível de cuidado literário ou mesmo de sentido. Ao acaso: «Eu estava especialmente aterrorizada com os alemães porque eles claramente glorificavam a sua perversidade»; ou «apesar da similaridade dos motivos, as duas experiências estudadas [as duas Guerras Mundiais] tiveram resultados diferentes»; ou ainda «sobre o Holocausto eu não tinha nenhum sentimento de compreensão acumulada». Isto só nas primeiras duas páginas de texto. Continuando: «Experimentei opiniões académicas correntes», «face a uma catástrofe destas dimensões, tão propositadamente infligida, a perplexidade é uma indulgência», «os ciganos eram classificados como insociáveis», «os ciganos fizeram do esquecimento uma arte», «há um mistério principal sobre a compreensão», etc., etc., etc. Já agora: como pode alguém que simplesmente leia livros com alguma regularidade referir-se aos Romani (os ciganos do leste europeu) como Romanos? E parei na página 48, final do capítulo I, pois toda a paciência tem os seus limites.

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Torga e a PIDE

Posted by Miguel Cardina em 28-03-2007

A recente disponibilização, no site da Torre do Tombo, do processo da PIDE de Miguel Torga, motivou uma interessante reportagem no jornal Público, assinada por Sérgio C. Andrade. Uma oportunidade para tomar contacto com o assunto enquanto se espera o lançamento de Miguel Torga e a PIDE – a repressão e os escritores no Estado Novo, do investigador Renato Nunes. [ler a reportagem]

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O Labirinto do Fauno

Posted by Miguel Cardina em 17-03-2007

Em 1944, enquanto Franco consolida a sua vitória sem nenhuma complacência para com os vencidos, permanecem fogachos da resistência republicana em algumas zonas de Espanha. Numa delas – uma montanha a norte de Navarra – Ofélia acompanha a mãe no seu encontro com o odioso capitão franquista com quem recentemente casara e de quem espera um filho. Partindo deste cenário concreto, Guillermo del Toro, constrói o premiado O Labirinto do Fauno. Depois de já ter abordado a temática em «A Espinha do Diabo» (2001), o realizador mexicano volta novamente a tomar como pano de fundo a curva da década de 1930 para 1940, esse tempo propício, nas suas palavras, «para falar de monstros e de opções». Um tempo paradoxal, onde a urgência das escolhas conflui com a força avassaladora das circunstâncias, como se as acções humanas tivessem constantemente de se confrontar com um guião pré-estabelecido. É contra essa «ditadura do real» que a jovem Ofélia se insurge inconscientemente, mostrando que a ilusão que alimenta as fábulas é a mesma que mantém uma rapariga vigilante por entre a sombra dos dias. Relato híbrido – feito de seres mitológicos e dramas realistas que lembram por vezes o universo de Tim Burton ou o último (e algo desastrado) filme de Night Shyamalan – «O Labirinto do Fauno» é também uma poderosa alegoria sobre o franquismo. Uma fábula contra todos os sistemas que absolvem a brutalidade e sublimam a obediência.

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Cinzento esconjurado

Posted by Miguel Cardina em 27-02-2007

Se por outra razão não fosse, O Saudoso Tempo do Fascismo, de Hélder Costa, valeria pela capa: uma foto do gigante de Manjacaze e do anão de Arcozelo – respectivamente, o homem mais alto e mais baixo do mundo, segundo certas edições do Guiness Book of Records – no velório de Salazar. Lado a lado, em pose tensa e respeitosa, estes filhos que a nação passeou como aberrações, vêm dar o último adeus ao ditador. Por detrás da luz central – a vela acesa de um círio – descobrem-se, perfiladas, as forças (ainda) vivas: um chapéu da polícia militar, um lenço da Mocidade Portuguesa, os botões reluzentes de uma farda composta.

O livro é, obviamente, mais do que o seu delicioso embrulho. Escrito naquele tom descontraído de quem domina a velha arte de contar histórias, O Saudoso Tempo do Fascismo é uma colectânea de relatos situados na fronteira entre o memorialístico, o pedagógico e o humorístico. Recortes do tempo que falam dos bailes e do «arame farpado», da emancipação das mulheres, das críticas à praxe coimbrã, das arrogâncias do poder e do seu escarnecimento, das experiências teatrais, da contestação à guerra colonial, das peripécias que rodearam um inevitável «salto» para Paris. Histórias contadas com uma deliciosa dose de humor e ironia. [mais>>]

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Funes ou um outro elogio do esquecimento

Posted by Miguel Cardina em 10-12-2006

BorgesEm Funes ou a memória, de Jorge Luis Borges, o narrador ensaia uma estranha evocação post-morten de Irineo Funes, um jovem uruguaio que ficara paralisado após uma queda de um cavalo. Condenado a permanecer deitado o resto dos seus dias, Funes adquirira uma memória prodigiosa, uma espécie de dom ou maldição resultante do acidente. Uma noite, o narrador visita Funes e este explica-lhe o projecto de nomear cada sensação na sua exacta singularidade: «não só lhe custava compreender que o símbolo genérico cão abrangesse tantos indivíduos díspares de diferentes tamanhos e diferente forma; incomodava-o que o cão das três e catorze (visto de perfil) tivesse o mesmo nome que o cão das três e um quarto (visto de frente)». Dotado de uma memória absoluta, Funes recordava como quem agrupa objectos, respeitando formas, sequências e sensações. Como quem resgata o passado e o reconstrói, peça a peça, desconhecendo que esse mesmo movimento interditava qualquer tarefa hermenêutica. «Suspeito de que não era muito capaz de pensar. Pensar é esquecer diferenças, é generalizar, abstrair». Jorge Luis Borges chamou a este conto «uma longa metáfora sobre a insónia», notando que o sono, o sonho, o esquecimento, são ingredientes necessários para que a memória não se transforme num fruto estéril.

Jorge Luis Borges (1998), «Funes ou a memória». In: Ficções. Lisboa: Teorema. Tradução de José Colaço Barreiros, pp.97-106. [ISBN: 972-695-330-8]

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Anos 80, e o resto

Posted by Tiago Barbosa Ribeiro em 22-11-2006

«Anos 80: Uma Topologia» é um motivo de vulto para visitar o Porto até finais de Março de 2007. Inaugurada há dias no Museu de Arte Contemporânea de Serralves (MACS), esta exposição impressiona desde logo pela sua dimensão e ambição: uma das maiores jamais apresentadas em todo o mundo sobre a arte dos anos 80, com 4.000 m2 de área expositiva e 250 obras de 70 artistas de todo o mundo, incluindo os portugueses Pedro Cabrita Reis, José Pedro Croft, Ana Jotta, Rui Sanches e Julião Sarmento. A exposição é ainda acompanhada por inúmeras mesas-redondas e conferências que procurarão alimentar a discussão, materializando o desafio maior da iniciativa: quais as leituras possíveis para/sobre os anos 80?

Década de tantas perplexidades e inquietações, os anos 80 propiciaram intensas mudanças sociais, culturais e políticas. Para Portugal, esse tempo significou o fim de um período histórico iniciado em 1974 – ou mesmo em 1926 – e empiricamente constitui uma das mais sólidas grelhas de análise para tantos paradoxos e contradições que hoje subsistem na sociedade portuguesa. Esteticamente, porém, a representação da realidade portuguesa é marginal nesta exposição de Serralves. As explicações são várias, com raiz comum num contexto periférico. De qualquer forma, neste particular, os anos 80 portugueses estão sobretudo ancorados na criação musical. A mesma, curiosamente, que vai sendo agora recuperada – com poucos ou nenhuns vestígios de memorabilia – por uma geração nascida precisamente nessa década. Aliás, isso mesmo se dinamizou na primeira noite da exposição, com uma festa alargada a vários bares da cidade do Porto onde a apresentação dos protagonistas da década significou tão só um re/encontro com muitos roteiros e rostos do presente.

A topologia do MACS permite ultrapassar reducionismos e repetições que já se plasmam a uma década tão próxima, num contexto de afirmação cultural ocidental que então se apropria do discurso pós-moderno para dissolver vanguardas e hegemonias simbólicas. Não por acaso, os principais núcleos geográficos da exposição do MACS são Berlim e Nova Iorque. Sob vários olhares epistemológicos, interessa perceber os eixos de transformação que os anos 80 proporcionaram e de que forma eles se afirmaram como um tempo de transição paradigmática entre normas, estruturas e vivências. A abordagem de Serralves, só por si, reconfigura todos eles.

Anos 80: Uma Topologia, 11 Nov 06 – 25 Mar 07, Museu de Arte Contemporânea de Serralves.

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Um filme com história dentro

Posted by Miguel Cardina em 21-11-2006

La Meglio GioventùConcebido em 2003 como série para a RAI, e recentemente transferido para os circuitos cinematográficos, La Meglio Gioventù, de Marco Tullio Giordana, é um enorme fresco sobre a Itália dos últimos quarenta anos. O filme centra-se na vida de dois irmãos que em 1966 – após um encontro com Giorgia, uma rapariga perturbada que se encontra submetida aos pesados tratamentos psiquiátricos então administrados – adoptam caminhos distintos: Nicola torna-se um psiquiatra fortemente crítico dos métodos clássicos e Matteo ingressa nas forças policiais. A partir daí, a narrativa distende-se até ao presente, transitando por sobre alguns dos grandes tópicos da história recente italiana: as cheias em Florença em 1966, as contestações estudantis e a recepção da cultura popular juvenil, o terrorismo de extrema-esquerda, a reconfiguração da classe operária, a vitória, em 1982, da selecção italiana no campeonato do mundo de futebol, os esquemas de corrupção e de financiamento ilícitos dos partidos políticos, o medo da máfia, a evolução dos costumes e das relações familiares. Mais do que um filme histórico, este é um filme com história, no qual as personagens não são apresentadas como metáforas de algo que urge explicar, mas como construções complexas e ambivalentes. Todavia, se a história é apenas o pano de fundo sob o qual se desenrolam os dramas pessoais, estes apenas ganham inteligibilidade se confrontados com o rasto do tempo, como se tudo confluísse para a fronteira problemática que divide as escolhas dos destinos. Narrado sem sobressaltos, por vezes com uma ou outra tonalidade excessivamente melodramática, La Meglio Gioventù é, sobretudo, um filme que se vê de modo estranhamente natural: seis horas velozes que valem bem o preço de umas olheiras momentâneas.

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Pause | Rewind | Play

Posted by Rui Bebiano em 28-10-2006

La mémoire, l’histoire, l’oubli (2002), o seu último livro, Paul Ricouer afirmava que «o esquecimento permanece (…) como a inquietante ameaça que se perfila por detrás da fenomenologia da memória e da epistemologia da história». Deve reconhecer-se como perturbante a presente situação de vertigem informativa, a qual tem ampliado até à náusea o processo de rasura ao qual se referia Ricouer. Para Virilio, a dromologia (do grego drómos: acção de correr) tende mesmo a substituir a cronologia pela interferência crescente da velocidade nos processos de comunicação. O carácter impositivo de um certo «instante fugitivo», que corresponde ao fluir acelerado do acontecimento, induz então uma vertigem que afecta a própria compreensão da realidade. Porém, introduzindo nexos explicativos que podem ser criados a partir de relações provocadas na corrente longa que as produziu e as explica, a história emerge como uma das áreas do conhecimento que se encontra em condições de limitar essa perturbação. Pode, assim, funcionar como território de resistência face à vertigem de apagamento do passado induzida pela rapidez. Mas também como tecla de pausa, instrumento destinado a integrar a inevitável velocidade dos acontecimentos num andamento suspenso, reflectido e que, pelo menos provisoriamente, podemos compreender.

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Casa Rossa

Posted by Miguel Cardina em 24-10-2006

Casa RossaA imaginação literária pode preencher os espaços vagos deixados pela história. A introdução de leituras da realidade a partir do subjectivo e do ficcional abrem espaço a uma visão mais alargada sobre o campo das experiências possíveis que um dado contexto histórico origina. Quem, por exemplo, quiser tomar contacto com o terrorismo de extrema-esquerda em Itália durante os «anni di piombo» – os anos de chumbo, período imediatamente subsequente ao assassinato em 1976 do primeiro-ministro Aldo Moro – terá uma boa porta de acesso em Casa Rossa, de Francesca Marciano, recentemente editado pela Dom Quixote. O universo mental do militante da «esquerda armada» – a retórica de violência, a linguagem estereotipada, a severidade auto-imposta – aparece ao longo do retrato da intransigente Isabella, irmã da narradora e uma das personagens centrais do livro, condenada por colaboração no assassinato de um magistrado da zona onde nascera. Num relato fluído e cinematográfico, somos levados a entrever os ecos da vivência carcerária e os reflexos do terrorismo nas vidas daqueles que, de uma maneira ou de outra, se encontravam próximos – vítimas, familiares, camaradas – dos homens e mulheres que encontraram na paixão política justificação para a matança. Mas não só. Este é também um livro que fala da Itália fascista e da Itália do pós-guerra, desse país que, de um dia para o outro, transformou a «rígida saudação» no «simples V de vitória», preocupado em eliminar com urgência «o busto de bronze do tio que fora prefetto, as cartas do Ministério do Interior que se dirigiam ao pai por Camerata, as fotografias das crianças na escola vestindo a camicia nera, de braço estendido na saudação romana». Ao invocar os segredos, as traições e as paixões de três gerações de mulheres, Francesca Marciano acaba por nos sugerir algo mais: o modo, enfim, como o passado se esquece ou recorda na vida de uma família e de um país.

Francesca Marciano (2006), Casa Rossa. Lisboa: Dom Quixote. Trad. de J. Teixeira de Aguilar. 398 pp. [ISBN: 972-20-2984-3]

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Testemunhas do esquecimento

Posted by passadopresente em 15-10-2006

Por Rui Miguel Brás

I Will Bear WitnessQuem foi Victor Klemperer? Professor universitário alemão, de origem judia, nascido em 1881 e falecido em 1960. O essencial: Klemperer, ao contrário de grande parte da comunidade judaica alemã, sobreviveu ao nazismo sem fugir do país e sem ser deportado para um campo de concentração. Improvável, mas não impossível. Por ser casado com uma ariana cristã, Klemperer, protestante por credo e judeu por descendência, manteve-se na eminência da deportação, acabando sempre por evitá-la.

De Victor Klemperer não teria ficado memória se, aos cinquenta e dois anos, não se visse no centro do fenómeno nazi. Foi em 1933, com a chegada de Hitler ao poder, que Victor Klemperer iniciou os seus diários, obra que asseguraria a permanência do seu nome na História. Asseguraria? Talvez não. Quem ainda lembra os diários?

O que encontramos em I Will Bear Witness: A diary of the nazi years, 1933-45 (dividido em duas edições – 1933-41 e 1942-45 – e ainda sem edição portuguesa), não são simples apontamentos quotidianos sobre as iniquidades do regime: são ensaios rigorosos sobre a natureza do nazismo, sobre as suas raízes culturais e sobre a utilização da linguagem na propaganda nazi. Tendo permanecido em Dresden, destituído do título de professor, desempregado e impossibilitado de frequentar bibliotecas públicas, Klemperer dedicou-se por inteiro aos seus diários e, estando no centro do horror nazi, pôde relatar as violências e as humilhações sofridas pelos judeus. Foi essa convivência quotidiana e próxima que possibilitou as reflexões presentes nos diários, que constituem um momento raro de lucidez, numa época em que quase todos os relatos sobreviventes sofriam de excesso de dramatismo ou efabulação. Denunciou o clima de ódio e desconfiança vivido entre a comunidade judaica, movida pelo medo da delação, em contraste com a ilusória solidariedade romântica que, durante muito tempo, se julgou existir.

Victor KlempererKlemperer sofreu nas mãos dos nazis, mas não cedeu: manteve sempre o tom indignado e inconformado com o conformismo dos seus compatriotas, e disse dos diários, da escrita, que era a sua forma de resistência, de se manter humano, de não deixar a barbárie cair no esquecimento – I will bear witness. Viu no nazismo, na sua motivação, o pecado tardio da pátria alemã: o pangermanismo, consequência do ultra-romantismo alemão, e identificou o anti-semitismo como um motor bem oleado, servindo de bode expiatório aos sonhos imperiais de Hitler. Estruturalmente, Klemperer considerou o Nacional-socialismo a prática rigorosa das ideias de Rousseau, pondo em causa o nazismo como fenómeno de extrema-direita.

Os diários só foram encontrados trinta anos após a morte do autor, em 1960. À época o nazismo já tinha sido estudado e mais que estudado: dissecado. Klemperer não foi uma lufada de ar fresco, porque merecia um escrutínio mais profundo. E não foi um sucesso editorial, porque não caiu na facilidade do sentimentalismo, no cliché da tragédia ou na demonização de Hitler. Klemperer sabia que o nazismo tinha sido obra de homens, não de monstros. Convém lembrar o seu testemunho. Para não testemunharmos algo de pior: o esquecimento.

Victor Klemperer (1998), I Will Bear Witness: A Diary of the Nazi Years, 1933-1941. London: Random House. 544 pp. [ISBN: 037-5753-78-8]

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Portugal aos olhos de um espião

Posted by Miguel Cardina em 04-10-2006

Portugal NowA Tinta-da-China – editora que tem mantido uma atenção especial ao domínio da história – publicou recentemente Portugal Now. Um espião comunista no Estado Novo, pequeno relato escrito por Ralph Fox, membro do Partido Comunista da Grã-Bretanha, aquando da sua passagem por Lisboa, em Junho de 1936, para sondar os caminhos do tráfico de armas em Portugal e as vias de apoio do regime português às tropas sublevadas de Franco. Especificamente sobre isto o livro tem pouco, mas o conteúdo restante compensa essa carência. Para além de algumas notas avulsas sobre a realidade histórica e política do Portugal dos anos trinta, o texto abunda de descrições coloridas, muitas vezes apoiadas em lugares-comuns acerca do temperamento do português – sossegado, burocratizado e amante do ócio. A isto se junta uma acerada crítica de costumes, visível, por exemplo, na forma irónica como o autor, depois de atestar a generalização do trabalho infantil, comenta a existência de «dezenas de rapazinhos» que, nos clubes nocturnos, levam «mensagens escritas das raparigas para os seus clientes», contornando deste modo a norma que considera como «incorrecto o comportamento de uma mulher, mesmo uma prostituta, que aborda directamente um homem». Nos antípodas desses bares e clubes da noite, onde negociantes, conspiradores e comissários políticos tecem notas de rodapé sobre um presente demasiado imediato, esconde-se um país de «camponeses morenos» com barretes negros «que fazem lembrar toucas de dormir», gente embalada pela pobreza, pelo analfabetismo e pelo espectro autoritário do «regenerador» Salazar. O livro vale ainda pelas ilustrações de António Paredes e pelo prefácio de José Neves, que nos informa da morte de Ralph Fox em pleno combate, poucos meses depois, na província de Córdoba. Talvez recordando, quem sabe, a «doce luz de Lisboa», diante da qual «até mesmo a pobreza parece suportável».

Ralph Fox (2006), Portugal Now. Um espião comunista no Estado Novo. Lisboa: Tinta-da-China. 125 pp. [ISBN: 972-8955-11-1]

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Salazar contado de novo

Posted by Rui Bebiano em 03-10-2006

Salazar, agora na horaAcaba de ser editado Salazar. Agora, na hora da sua morte, um livro de banda desenhada da autoria de João Paulo Cotrim e Miguel Rocha. Os sucessivos episódios da vida e da acção do ditador servem, dentro de um universo concebido em tons de preto envelhecido e de um branco desgastado, para cruzar afirmações do próprio e de alguns dos seus contemporâneos com um fraseado, inventado embora plausível, que os completa. Veja-se, como exemplo, a sequência que parte do quadro mais conhecido da «lição de Salazar»: aquele que mostra o cavador a chegar a casa, no interior da qual, com a singela mesa preparada para a refeição familiar, o esperam já a mulher e os filhos. Sugerem-se então, prolongando a narrativa, frases ríspidas, ausências decomunicação, ameaças de violência, indícios de alcoolismo, que não constam do quadro mas procuram olhar por detrás dele. Mais à frente, as reconstituições de conversas privadas de Salazar desenvolvem-se de acordo com a mesma técnica, combinando o que se sabe ter acontecido com aquilo que, se não aconteceu, pelos menos não contraria o acontecido. Um ambiente permanentemente frio, lúgubre, que eventualmente corresponderá à forma como os autores, crianças ainda quando da queda do regime, conceberam o país que o acompanhou. Uma forma de rememorar o Portugal do Estado Novo que vai sublinhando alguns dos seus contornos, e das marcas que legou, tornando-os, sob a forma de lição, quase insuportavelmente presentes.

João Paulo Cotrim e Miguel Rocha (2006), Salazar. Agora, na hora da sua morte. Lisboa: Parceria A. M. Pereira. [ISBN: 972-8645-36-8]

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