Passado/Presente

a construção da memória no mundo contemporâneo

Archive for the ‘Opinião’ Category

V.V. Putin contado às crianças

Posted by Rui Bebiano em 02-09-2007

«Ninguém se iluda: a imagem que temos dos outros povos, ou de nós próprios, encontra-se associada à história que nos contaram quando éramos pequenos.» A frase abre Comment on Raconte l’Histoire aux Enfants, um dos mais conhecidos livros de Marc Ferro, publicado em 1981 (seguido, quatro anos depois, de L’Histoire sous Surveillance). Desde cedo perceberam os poderosos a importância da manipulação do passado no processo de perpetuação do seu poder, da sua imagem, da sua vontade e do seu legado. Foram, porém, os regimes totalitários do século XX que mais longe levaram a apropriação desse passado pelo poder e a sua manipulação como factor de controlo das sociedades e de construção do «homem novo», procurando gerir de uma forma eficaz o conhecimento do mundo vivido que deveria ser transmitido às novas gerações. Os regimes de tipo fascista e comunista, sustentados por uma representação monolítica da realidade e uma visão unívoca do seu movimento, não negligenciaram (como não negligenciam os seus sobreviventes) educar de forma «certa» as suas juventudes, mobilizando as suas organizações, controlando o aparelho educativo e propagandístico, sonegando as visões alternativas ou demonizando-as de forma liminar. As concepções fundamentalistas no domínio do religioso procuram ainda imitá-los, se bem que hoje o façam num universo onde a porosidade das fronteiras parece tornar essa acção depuradora cada vez mais difícil. Mas não impossível: nas escolas religiosas de diversos grupos ultra-ortodoxos cristãos ou judaicos, em numerosas madrassas ou centros de formação de futuros «mártires», é esse o ideal narrativo e pedagógico a perseguir. Contar da forma «certa» e camuflar o que se não deve conhecer. Fornecer certezas e elidir a dúvida.

A decisão recente do presidente russo, Vladimir Putin, no sentido de mandar redigir – não por historiadores credíveis, mas sim por um conjunto de consultores políticos – e distribuir como guia para a redacção dos novos manuais escolares, de uma História Contemporânea da Rússia. 1945-2006, comporta a semente de um retrocesso àquele estado de coisas, unindo-se a uma deriva crescentemente autoritária e expansionista que Moscovo já não esconde. Segundo um extenso artigo do Público, desvaloriza-se ali o Holocausto e os crimes de Mao, relativiza-se o genocídio perpetrado no Camboja pelos khmers vermelhos, faz-se equivaler a «hegemonia global» dos Estados Unidos à política externa do Terceiro Reich, amacia-se o Gulag, comparam-se os assassínios em massa da era soviética (a maioria deles, relembre-se, efectuada em tempo de paz) ao uso da bomba atómica norte-americana em tempo de guerra, e elogia-se José Estaline, «figura contraditória (…), demonizado por algumas pessoas e para outras um herói pelo papel que desempenhou na Grande Guerra Patriótica [a Segunda Guerra Mundial] e na expansão territorial» e também «o mais bem-sucedido líder da União Soviética». Para além, naturalmente, de se atribuir um relevo ímpar ao «rumo do presidente V. V. Putin em direcção à consolidação da sociedade», marcado principalmente por uma «restauração da posição da Rússia na política externa.» A comunidade de historiadores da Rússia tem, na sua generalidade, reagido com indignação a esta reescrita da história e à sua deriva nacionalista e autoritária, mas a verdade é que, entretanto, novos milhões de russos irão ser educados neste processo de manipulação da verdade. O resultado desta nova torrente de «lavagem» aos cérebros de toda uma geração ainda não pode ser conhecido, naturalmente. Mas permite-nos conjecturar de maneira legítima sobre o mal que transportará consigo. Pavel Danilin, um dos responsáveis por esta História putiniana, avisa: «temos que nos purgar do lixo, nem que seja à força».

Publicado também em A Terceira Noite

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Fátima revista

Posted by Rui Bebiano em 10-08-2007

Fátima Nestes dias de calor e praia, o Público tem vindo a divulgar uma selecção de textos retirados da Enciclopédia de Fátima, obra colectiva editada pela Principia e organizada por D. Carlos Azevedo, bispo auxiliar de Lisboa, e pelo cónego Luciano Cristino, ligado ao Santuário de Fátima. Numa sinopse da obra, pode ler-se que esta pretende ser um «estudo pioneiro e interdisciplinar que aborda de forma multifacetada, científica e rigorosa os acontecimentos de Fátima». Um dos organizadores afirmou ainda que se trata de «oferecer aos interessados uma interpretação aberta, serena, crítica, teologicamente fundada e historicamente objectiva». Não vi à venda este Dicionário de mais de 600 páginas e suspeito até que seja difícil encontrá-lo nas livrarias que frequento, mas depois de ler os passos seleccionados fiquei com alguma curiosidade. Não podendo fazer um comentário crítico detalhado sem o conhecer melhor, existe porém alguma coisa, nos fragmentos que tenho lido, que me deixa razoavelmente apreensivo. [continua aqui>>]

[Original e comentários, com alguns contributos, em A Terceira Noite]

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Foi Assim para Zita Seabra

Posted by Rui Bebiano em 15-07-2007

Perante Foi Assim, o livro autobiográfico de Zita Seabra agora publicado pela Aletheia, torna-se difícil sustentar um registo de equidade crítica, quando a maior parte daquilo que lemos insinua, pelo seu conteúdo temático e pelo próprio tom da escrita, uma rejeição que nem sempre é boa conselheira. Como seria de esperar, a recusa apriorística da possibilidade de ler o livro instalou-se, de imediato, entre pessoas mais ou menos próximas do Partido Comunista ou dos sectores situados à esquerda do PS. E muitas daquelas que o leram, fizeram-no sobretudo à procura das imprecisões ou dos juízos que permitissem depreciar o que a autora escreveu. Acontece, porém, que contando-me entre os portugueses que se distanciaram no passado e se distanciam hoje das suas posições públicas, me interesso particularmente pela história recente do nosso país. Tenho, por isso, a obrigação de procurar compreender, sem preconceitos e com algum esforço de análise, o interesse prático deste volume. Foi aquilo que procurei fazer no artigo crítico que pode ser lido no blogue A Terceira Noite>>.

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Livro de memórias pouco comum

Posted by Rui Bebiano em 24-06-2007

João FreireEnquanto lia as 598 páginas e as 2.296 notas em letra pequeníssima de Pessoa Comum no seu Tempo, o livro de memórias de João Freire que a Afrontamento acaba de editar, percebi que partilhava com ele, sendo dez anos mais novo, muitas das referências da infância e da pré-adolescência. O conhecimento directo ou indirecto de muitas das figuras mencionadas, as primeiras e as segundas leituras, os hábitos comuns, determinadas imagens, valores ou maneiras de dizer, provam que, no Portugal das últimas décadas da vida biológica de Salazar, quase tudo permanecia imutável. Recordei também que, tal como o autor embora mais brevemente, passei pela experiência do serviço militar, da deserção, do trabalho operário, da militância na esquerda radical e da vida universitária. Só não estive exilado porque, in extremis, o 25 de Abril me poupou esse incómodo, quando a mala já se encontrava feita e alguns contactos estabelecidos. Estes factores determinaram, assim, uma abordagem do livro que jamais poderia ser «distanciada». Tentarei ser apenas justo.

Começo por anotar dois aspectos que conferem a Pessoa Comum no seu Tempo uma marca absolutamente peculiar. Por um lado, este é um relato de uma meticulosidade, de um pormenor, evidenciando uma tal capacidade de memorização, que, se não o tornam único, pelo menos o inserem no pequeno núcleo de textos memorialistas portugueses capazes de produzirem uma abordagem efectivamente exaustiva do passado vivido pelo autor. Ao mesmo tempo, existe aqui algo de igualmente raro, traduzido numa relação de aparente disparidade entre a vida invulgar que se descreve e uma escrita que se pode qualificar como conservadora, se não mesmo anacrónica, na sua relação com o lugar geracional e o percurso específico do autor. Para além de que lhe falta também um cuidado, no domínio do trabalho literário, que todo o texto memorialista deve conter, de forma a mais facilmente partilhar com o leitor os momentos singulares e os estados de espírito. Detecta-se em muitos momentos uma discursividade enfática, por vezes convencional e socialmente situada, certas vezes quase obsequiosa, que prejudica a fluidez da escrita e lhe retira alguma capacidade para absorver o leitor. Este é, porém, um aspecto que acaba por se revelar de reduzida importância.

Em tudo o mais, de facto, este volume revela-se absolutamente excepcional e, como se verá adiante, de uma grande utilidade. Estrategicamente, reúno os seus seis capítulos em três blocos, cada um dos quais é desenvolvido através de processos diferenciados de codificação semântica que lhe são próprios. O primeiro deles refere-se aos antecedentes familiares, ao meio social de origem, à infância e à adolescência do autor, à sua entrada no meio militar e à sua vida como oficial da Marinha, até ao momento em que decidiu desertar do teatro de guerra em Moçambique, bem como à sua carreira desportiva (capítulos 1, 2 e 3). O segundo bloco respeita à sua intensa vida como exilado político em França e ao percurso político que o haveria de conduzir ao anarquismo (capítulos 4 e 5). O último bloco reporta o trajecto de João Freire (JF) como sociólogo e professor universitário (capítulo 6). [continua aqui>>]

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Sobre a «terceira via»

Posted by Rui Bebiano em 17-05-2007

Raimundo NarcisoAcabei de ler Álvaro Cunhal e a dissidência da terceira via, de Raimundo Narciso, editado pela Ambar. O livro apresenta-se como narrativa pormenorizada de um episódio da trajectória pós-Abril do Partido Comunista Português. Começo por aquilo que nele me parece menos positivo. Retive, logo desde as primeiras páginas, a sensação de que este relato talvez merecesse ter sido publicado há mais tempo, contribuindo dessa forma para ampliar o combate político do qual o seu autor foi um dos protagonistas. Cerca de vinte anos depois dos acontecimentos aqui referidos, poderia também ser agora a altura para propor uma leitura interpretativa e historicamente contextualizada dos acontecimentos, o que aqui não foi feito. Além disso, perpassam por todo o volume vestígios de uma certa «língua de madeira», que nos fala ainda a partir de dentro do léxico comunista. E, como se sabe, o distanciamento crítico passa sempre pelo uso de uma linguagem diversa daquela utilizada no universo do objecto estudado. De qualquer forma, Raimundo Narciso incorpora no seu discurso um forte sentido da ironia, o qual tempera bastante a aridez. [continua aqui>>]

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A Europa, o Holocausto e o negacionismo

Posted by Tiago Barbosa Ribeiro em 24-04-2007

Foi recentemente aprovada uma proposta para proibir em toda a União Europeia a negação do Holocausto. A iniciativa da Alemanha suscitou a oposição dos países escandinavos, da Irlanda e do Reino Unido, com uma razão fundamental que também partilho: a liberdade de expressão.

Entendamo-nos sem margem para erros. O século XX europeu foi o ventre de uma das maiores tragédias da Humanidade e certamente aquela que mais brutalmente evidenciou até onde podem ser levados o anti-semitismo, o racismo e as ideologias de massas. Nada disso é discutível. O Holocausto traduziu-se num genocídio que industrializou a morte, a barbárie e a chacina metódica de seres humanos pelo simples facto de terem uma história, uma religião e uma cultura. De serem humanos. [mais >>]

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Manhãs de nevoeiro

Posted by Rui Bebiano em 11-04-2007

Publicado também em A Terceira Noite

Em 1581, Filipe II (I de Portugal, como se ensinava em tempos na Primária), fez transladar para o Mosteiro dos Jerónimos um corpo que alegava ser o de D. Sebastião. O objectivo parece ter sido o de acabar com os rumores a propósito da sobrevivência do rei em Alcácer-Quibir e do seu eventual regresso na tentativa de resgatar o trono e a independência. A incerteza, porém, manteve-se, alimentado esse «mito sebástico» que desde o início se fundou na crença do retorno messiânico de um salvífico «desejado». Em 1879, na História de Portugal, Oliveira Martins explicava-o assim: «A alma lusitana, ingénua na sua candidez – tombado agora por terra o edifício imperial (…) – rebentava em soluços, buscando no seio da natureza, onde se acolhia, uma salvação que não podia esperar mais das ideias, dos sistemas, dos heróis, nem dos reis em quem tinha confiado por dois séculos. A obra temerária dos homens caía por terra; e o povo, abandonado e perdido, abraçava-se à natureza, fazendo do lendário D. Sebastião um génio, um espírito, e da sua história um mito». Alguém, portanto, que transportava um anseio colectivo e vivia para aquém do seu desaparecimento físico.

Bastará uma consulta apressada de parte da imensa bibliografia que sobre o assunto se produziu ao longo dos últimos cento e vinte anos para se perceber que o sebastianismo não cresceu da dúvida sobre a identificação do corpo, mas de algo muito mais profundo que já as profecias do Bandarra (anteriores, aliás, à vida de Sebastião) enunciavam como a crença num herói providencial capaz de interpretar o colectivo destino dos portugueses. Sabe-se como o próprio Salazar não escapou a esta aproximação (tal como Sidónio, Sá Carneiro, e até Cavaco, na sua versão hardcore dos anos 80). Parece, porém, que dois investigadores, um português e um espanhol, defendem agora a abertura do túmulo do rei e a realização de análises às ossadas ali depositadas, para «acabar de vez com o mito sebastiânico» (sic). Talvez valha a pena lembrar a quem possa atribuir uma importância exagerada a este tipo de iniciativa, que o que importa aqui não é o corpo – muito provavelmente sem qualquer gene dos Áustrias, pois só o contrário seria surpreendente – mas sim a manhã de nevoeiro.

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O concurso e a responsabilidade dos historiadores

Posted by Rui Bebiano em 05-04-2007

De acordo com os dados divulgados pela RTP, o total de votos «válidos recebidos» no concurso Grandes Portugueses foi de apenas 159.245. Destes, 41% foram para Salazar e 19,1% para Álvaro Cunhal, o segundo classificado. Porém, se contarmos os votos militantes – que poderiam ser exercidos, via SMS, pelo menos em triplicado ou quadruplicado –, os votantes efectivos não deverão ter excedido os cerca de 60.000. Desta forma, apenas umas 24.000 pessoas, no máximo, terão votado no antigo ditador. Como qualquer cidadão, independentemente da idade ou até da nacionalidade, poderia participar no escrutínio, o efectivo valor deste número será ainda mais residual. Aliás, o mesmo pode ser constatado de forma empírica: acredito que pouquíssimos conhecerão pessoalmente um verdadeiro salazarista. Assim, para quê tanto alarido com as repercussões do pobre espectáculo televisivo?

Convirá recordar que o impacto político do programa foi ampliado, em primeiro lugar, pela própria RTP1, sempre interessada em tornar concorrencial o seu produto, e também por muitos jornalistas e analistas, em busca de tema para os seus artigos e crónicas, ou empenhados numa reflexão sobre o que não deixou de ser um fenómeno curioso da cultura de massas. Mas o concurso foi também exageradamente dramatizado por alguns historiadores, que se viram confrontados com algumas das hesitações e perplexidades que têm atravessado a sua área de interesses. Anoto, de uma forma obrigatoriamente sumária, três problemas com as quais o conhecimento histórico se tem debatido e que me parece terem convergido neste particular contexto. [continua aqui>>]

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Sobre um abaixo-assinado

Posted by Rui Bebiano em 12-03-2007

A declaração pública de alguns professores e investigadores universitários, sob a forma de um abaixo-assinado, a propósito do concurso televisivo Grandes Portugueses, não concita a unanimidade da comunidade dos historiadores. Apesar de simpatizar com algumas das suas preocupações essenciais, parecem-me discutíveis o formato que ela tomou e o tom em que foi redigida (daí, também, o não a ter assinado). Concordo por inteiro, aliás, com a posição crítica expressa a propósito por José Medeiros Ferreira. A qual pode ser lida aqui.

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Feminismo: um nome ainda novo

Posted by Miguel Cardina em 08-03-2007

1. Os primeiros passos do feminismo foram dados no sentido de se reivindicar a igualdade formal entre homens e mulheres. Caminho aparentemente óbvio, sobretudo na época em que nasceu (o período da Revolução Francesa e das suas proclamações igualitárias), mas que a breve trecho se veio a revelar particularmente sinuoso. Três exemplos demonstram como este foi, historicamente, um percurso minado.

Olympe de Gouges é o primeiro caso. Glosando a Carta dos Direitos do Homem e do Cidadão, Olympe escreve, em 1791, uma Carta dos Direitos da Mulher e da Cidadã, na qual defende a igualdade entre homens e mulheres no domínio público e privado. A ousadia da francesa foi severamente punida: a 3 de Novembro de 1793, Olympe de Gouge é guilhotinada. A República proclamava a universalidade dos direitos mas não podia tolerar que as mulheres deles usufruíssem.

Durante o século XIX, a revolução industrial, com o consequente abandono dos campos e o crescimento do proletariado, empurrou as mulheres para o mercado de trabalho.[mais>>]

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Órfãos do Che

Posted by Rui Bebiano em 26-02-2007

O CheNão adianta olhar para o lado e passar à frente. O Che vive e, por mais morto que esteja, insiste em confrontar-nos. Não a sua alma errante, obviamente, mas a sua imagem lembrada, evocada, manuseada, maquilhada. A suprema cosmética conseguiu-a em 1997 Fidel Castro, ao decidir – como acaba de provar a reportagem «Operación Che. Historia de una mentira de Estado», publicada num número especial da revista Letras Libres por Maite Rico e Bertand de la Grange – o enorme embuste que foi a exumação do seu cadáver (sem testes de ADN) e a deposição dos supostos restos mortais, em cerimónia apoteótica, num mausoléu em Havana voltado para o planeta. Quem no-lo lembra é Mario Vargas Llosa, no artigo «Los huesos del Che», recém-saído no El País, e que sublinha de uma forma transparente, sem marcas de repulsa ou de sedução, alguns dos sentidos tomados pela manipulação contemporânea da memória de Ernesto Guevara de la Serna.

«El Che representa una hermosa ficción, un personaje del que la historia contemporánea está huérfana: el héroe, el justiciero solitario, el idealista, el revolucionario generoso y desprendido que realiza hazañas soberbias y es, al final, abatido, como los santos, por las fuerzas del mal. No importa que los historiadores serios muestren, en trabajos exhaustivos, que el Che Guevara real, de carne y hueso, estaba muy lejos de ser ese dechado de virtudes milicianas y éticas. Que fue valiente, sí, pero también sanguinario, capaz de fusilar a decenas de personas sin el menor escrúpulo, y que, desde el punto de vista militar, sus fracasos y errores fueron bastante más numerosos que sus éxitos. Es verdad que era consecuente con sus ideas, sobrio y austero, incapaz de las payasadas y dobleces de los politicastros profesionales. Pero, también, que la violencia y eso que Freud llamó ‘la pulsión de muerte’ lo atraían y guiaron su conducta tanto como su pasión por la aventura y la revolución.»

O pior que podemos fazer, nas tentativas de traçar abordagens compreensivas dos personagens que marcam a história, é desumanizá-los, transformá-los em símbolos, confundi-los com deuses ou com heróis. Pois apenas estes são perfeitos. Nas nossas cabeças, claro.

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Pior do que uma voz que cala é um silêncio que fala

Posted by passadopresente em 06-02-2007

Por Maria Manuela Cruzeiro

Temos um problema com a memória. Sobretudo quando ela é traumática e ainda recente. Têm-no-lo dito das mais variadas formas historiadores, sociólogos, psicólogos, artistas. É talvez esse o nosso maior deficit. Maior ainda do que o económico.

Quando Eduardo Lourenço proclamou «O Fascismo Nunca Existiu» denunciou irónica e provocadoramente essa perturbante realidade, assinalando que a política de silêncio e invisibilidade não terminou com a liquidação da ditadura em 25 de Abril de 1974. As estratégias de branqueamento, ou mesmo de silenciamento, são mais eficazes e difíceis de contrariar quando se mascaram do seu contrário. Isto é, quando iludimos o silêncio com um permanente tagarelar inconsequente e irresponsável. A nossa sociedade está cheia de ruídos tagarelas e de pesados silêncios. Este povo tem opinião sobre tudo mas sabe cada vez menos. Entope os programas da rádio ou televisão que a custo zero preenchem horas a fio com a participação espontânea de ouvintes e telespectadores, mobiliza-se para votar democraticamente qual o maior português de sempre, comove-se com os amores de Salazar, com o exílio de Marcelo, com as vítimas da PIDE ou com a coragem de Aristides Sousa Mendes, mas não responde a um inquérito básico sobre quem foi cada um destes e de outros nomes de portugueses que numa gigantesca operação de marketing disputam os outdoors das nossas cidades com os cartazes do referendo do aborto. Tudo se equivale e iguala, porque tudo acontece nessa mágica fábrica de faz de conta que é a televisão. Aliás parece que só a televisão entusiasma este povo: ainda muito recentemente se apaixonou pelo caso do Sargento Luís – houve em tempos um outro, lembram-se? também era Luís, mas era soldado, e era do PREC – e num ápice reuniu 10.000 assinaturas para o Habeas Corpus, Como há anos se alistou nesse exército anónimo que ocupou ruas e praças por Timor repetindo em uníssono «Somos todos timorenses». Causas que até foram comparadas justamente por esse medidor (mediador) de senso comum que é a comunicação social. Como somos mestres em voos acrobáticos, e muito dados a liberdades poéticas, sem custo vamos do caso do Sargento a Timor e de Timor ao 25 de Abril.

O salto no absurdo justifica-se porque tudo se resolve num faz de conta. É ainda Eduardo Lourenço que diz que até nos grandes momentos da história sempre estivemos ausentes de nós mesmos. Por isso nem a euforia nem a tragédia deixam marcas ou inscrições, para citar José Gil. Porque «vivemo-las, mas não as somos». Nenhuma delas fura a espuma dos dias, nem custa uma insónia a este povo que, por se querer feliz, apaga (se possível pela televisão) a própria história

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Da culpa e da memória pós-ditatorial

Posted by Tiago Barbosa Ribeiro em 13-01-2007

No filme A Queda – Hitler e o Fim do Terceiro Reich, o realizador Oliver Hirschbiegel recupera as memórias da secretária pessoal de Hitler para retratar os últimos dias do regime nazi. A história é conhecida: em Abril de 1945, o Füher refugia-se no bunker da Chancelaria com os seus colaboradores mais próximos. Em Berlim vive-se um ambiente de fim e cataclismo. Tudo está reduzido a escombros e os soviéticos encontram-se a metros de detonar a última ilusão do poder nazi. Mas mesmo com as tropas absolutamente destroçadas, já sem a Luftwaffe e com a deserção quase total das patentes, os últimos dias de Hitler são de uma loucura consentida por todos – e multiplicada por Goebbels.

Consumido pela doença e pela inevitabilidade da derrota, Hitler não se inibe de desenvolver os mais megalómanos planos para reconquistar a Europa, recuperar o Lebensraum e destroçar as linhas aliadas. Perante a hesitação de alguns oficias em aceitarem ficcionar o cumprimento de uma qualquer ordem impossível, Hitler atira: «eu assumo a responsabilidade por tudo». É uma frase notável. No pós-guerra, a culpa colectiva dos alemães serviu essencialmente para negar as culpas de cada responsável na tragédia nacional-socialista e remeter o passado – aquele passado – para um domínio de não inscrição histórica que simultaneamente torna inimputável o terror totalitário e isenta quem o pratica.

Perante a justiça, evidentemente, nada muda. Mas a memória histórica pós-ditadura torna-se de certa forma mais aceitável para os envolvidos nos seus crimes quando existe essa aura de inevitabilidade, numa teia de cumplicidades em que nem sempre é claro o papel de vítima e o de algoz. Quase todos os ismos totalitários do século XX tiveram este epílogo, com duas regularidades substanciais:

•  A culpa colectiva selada pela autocrítica do autocrata é quase sempre a antecâmara do fim, seja do regime ou da vida do ditador.

•  Só as ditaduras abertamente mais violentas e repressivas, de elevada mobilização concentracionária, prosseguem este padrão. Em Portugal, por exemplo, isso nunca aconteceu.

Após quase meio século de Estado Novo, um regime autoritário conservador que verdadeiramente nunca foi fascista, ninguém achou necessário desculpabilizar-se. Nem encontrar culpados. Se é certo que um dos particularismos dessa situação decorre da sobrevivência da ditadura ao ditador, creio que o PREC foi a válvula fundamental que permitiu distribuir responsabilidades e transgressões pela memória histórica. É assim que temos hoje duas datas no Portugal democrático – o 25 de Abril e o 25 de Novembro – cuja oposição de legitimidades permite pacificar o passado. Foi isso que permitiu arrumar rapidamente a reminiscência dos responsáveis pelo aparelho repressivo do regime salazarista, partilhando-os simbolicamente no campo de vencedores e vencidos que percorreu todo o processo revolucionário português. As lógicas de arbitrariedade e suspensão da justiça foram desproporcionalmente distribuídas, mas existiram de parte a parte. E assim limitaram – ou mesmo impediram – quaisquer culpas face ao autoritarismo que existiu antes de 1974 e àquele que se impediu antes de 1975.

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A voz do silêncio

Posted by Rui Bebiano em 14-12-2006

O holocausto não existiu?No epílogo a Pós-Guerra, o seu grande livro sobre a história da Europa a partir de 1945 (Edições 70, 2006), Tony Judt revolve as últimas décadas da nossa vida comum para sublinhar que a reconstrução se fez caminhando sobre as cinzas do Holocausto. Nos anos que se seguiram à derrota do nazismo e à percepção da dimensão do genocídio cometido sobre os judeus europeus, o silêncio tornou-se a atitude corrente. Havia muito para esquecer e a evocação da experiência dos deportados ou dos sobreviventes dos campos de concentração transformara-se rapidamente em qualquer coisa de incómodo, que convinha arrumar com discursos de circunstância e meia dúzia de lápides em mármore. Até porque, durante a guerra, se tinham desenvolvido teias de cumplicidade e de conivência com as perseguições, as quais conviria pôr de lado. Além disso, muitos dos honestos cidadãos dos países ocupados pelos nazis – como a Holanda ou a Polónia – haviam tomado conta das propriedades dos judeus em fuga ou desaparecidos, não tendo vontade alguma de as devolver aos legítimos proprietários ou aos seus herdeiros. De leste a oeste, de facto, o anti-semitismo continuou instalado por muito tempo, sendo o silenciamento uma das suas armas.

A informação à qual acedemos hoje, é preciso que se diga, não estava disponível, ou pelo menos não era divulgada de uma forma tão eficaz quanto o foi mais recentemente, e foram precisos acontecimentos como a Guerra israelo-árabe dos Seis Dias, em 1967, o assassínio de atletas israelitas nos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972, e, principalmente, a partir de 1978, o impacto mundial da série televisiva «O Holocausto», para que o «problema judaico» ganhasse uma nova visibilidade. Colocando-se as coisas no seu devido lugar, a caça aos criminosos nazis desencadeada em 1947 pelo grupo de Simon Wiesenthal deve ser entendida como uma resposta a esse clima de impunidade que viria a permitir, menos de vinte anos mais tarde, que na própria Alemanha «desnazificada» antigos nazis como Kurt Kiesinger e Heinrich Lübke, tivessem chegado, respectivamente, a chanceler e a presidente da república.

Talvez por este motivo se possa tornar preocupante a forma como a generalidade dos meios de comunicação a ocidente, muitos dos herdeiros políticos do antifascismo e até uma boa parte do universo académico, têm aceitado, com relativa indiferença, os tenebrosos esforços de revisionismo histórico patrocinados pelo actual governo do Irão, no sentido de negar a dimensão do Holocausto e de transformar os herdeiros das suas «putativas» vítimas – os judeus, qualquer judeu que defenda a sua identidade étnica e histórica – em terríficos algozes. A crítica dos processos de instrumentalização do passado continua a confrontar-se com a voz do silêncio.

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Grandes Portugueses para «portugueses médios»

Posted by Rui Bebiano em 06-11-2006

São muitos os exemplos da relação defensiva que a história tem mantido com a ficção. «A História é um assunto sério», ouvi há dias um historiador declarar publicamente, num sinal de menorização tácita do discurso ficcional, frequente entre as humanidades e as ciências sociais quando alguma delas procura afirmar o seu lugar diante dos outros saberes ou face à opinião pública. Ficava subentendida também uma concepção da escrita da história como vinculada de forma exclusiva à percepção «certificável» do ocorrido, desvalorizadora, no plano epistemológico, dos humores da imaginação e da comunicação enquanto arte. Escrevi há alguns anos um pequeno artigo sobre a história como poética no qual procurei abordar este tema, e conto voltar a ele. Neste momento, prefiro associar o tratamento do passado de forma despojada dos efeitos de sedução a uma outra reflexão, talvez mais urgente.

Numa altura em que o seu conhecimento – mesmo aquele mais elementar e factual – se reduz praticamente, para a maioria das pessoas, a umas quantas generalidades ensinadas até ao 9º ano de escolaridade, a notas avulsas surgidas em alguns jornais diários ou na imprensa light, a rubricas de certos programas e concursos televisivos, ou à interferência dos romances históricos de qualidade literária duvidosa, mais do que lamentar as mudanças impostas por este estado de coisas, importará questionar a concepção litúrgica da história que tem servido de álibi a essa vaga de simplificação. Essa «história-cerimónia» que, em nome da estrita «cientificidade», ou da intenção legitimadora, se exclui por vontade própria do papel pedagógico e de intervenção quotidiana no presente, desvalorizando-se enquanto instrumento da cidadania e isolando-se socialmente.

Constitui aliás um esforço inglório, e que em regra se vira contra os próprios historiadores, a concentração de energias em prédicas contra as imprecisões e as «falsificações da história» introduzidas, inevitavelmente, num número crescente de romances, filmes e séries televisivas de temática histórica, concebidos como ficções ou como documentários semi-ficcionados. [mais>>]

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50 anos depois de Budapeste

Posted by Rui Bebiano em 23-10-2006

Budapeste/56O evento que determina toda a sequência do «breve século XX» é, para Hobsbawm, a Revolução Soviética. O assalto ao Palácio de Inverno, em 1917, e a queda do Muro de Berlim, em 1989, como princípio e termo de uma experiência de poder – e também, acrescento seguindo Furet, da ilusão que ela alimentou – teriam balizado o período. Mas pode dizer-se que este começou a ser arrasado antes mesmo da sua construção, em 1961. A data de arranque dessa demolição avant la lettre terá sido 23 de Outubro de 1956, quando os tanques soviéticos entraram em Budapeste e puseram termo à Revolução Húngara. O movimento havia trazido para a rua um grande número de estudantes, intelectuais e operários apoiantes de um programa de democratização e de distanciamento em relação à União Soviética, destinado também a liquidar o regime de partido único e a levar ao poder o comunista reformador Imre Nagy.

A experiência chefiada por Nagy acabou lavada em sangue – o de muitos milhares de húngaros e o dele próprio, preso após haver recebido um salvo-conduto e executado na sequência de um julgamento similar ao dos processos de Moscovo –, provocando clivagens dentro do movimento comunista internacional e, principalmente, no interior do universo muito particular dos compagnons de route dos partidos comunistas ocidentais. Jean-Paul Sartre, Edgar Morin, Pierre Emmanuel ou Italo Calvino foram apenas alguns deles. Sartre assume a ruptura falando do horror que passara a sentir pelas iniciativas da «fracção dirigente da burocracia soviética».

No annus mirabilis de 1968, a invasão da Checoslováquia e o termo da Primavera de Praga e da experiência de Dubcek com o seu «socialismo de rosto humano», apesar de menos brutais, definiram essa incapacidade de regeneração por parte dos governos comunistas no poder, determinando um crescente isolamento internacional e a resistência, surda ou efectiva, de uma parte crescente das sociedades que controlavam. A erupção de 1989 terá marcado o termo dessa viagem dolorosa inaugurada em 1956.

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Os feriados, a ideologia e a compressão histórica

Posted by Tiago Barbosa Ribeiro em 09-10-2006

1.
A memória colectiva de qualquer acto histórico é um objecto que tende inelutavelmente a degradar-se. Sobretudo quando ele sustenta uma data de ruptura ou de convulsão social. É por isso compreensível que os marcos celebracionistas dessas memórias se estruturem numa oposição ideológica crescentemente domesticada pelas exigências de coesão social, alargando-se a institucionalização de um passado que o passar dos anos fixa entre parêntesis. Em Portugal, isso é particularmente visível nos feriados do 10 de Junho e do 25 de Abril.

2.
Para as gerações que empreenderam o 25 de Abril, Camões está imbuído de uma retórica nacionalista e conservadora que remete menos para os contornos imperialistas e republicanos do período de 1910-1926 do que para o «Dia da Raça» instituído pelo secretariado de propaganda do Estado Novo. Será sem surpresa que durante a guerra colonial seja esse o dia de distinção dos combatentes de um império então – desde sempre? – agónico. Porém, ao contrário do que comummente se pensa, Camões conviveu com leituras próximas dos círculos oposicionistas durante a longa ditadura salazarista: António Sérgio e Jorge de Sena consagrarão como poucos a dimensão «progressista» de um ícone identitário do Portugal asfixiante e circunspecto de Salazar. [mais>>]

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Ano 100 da República

Posted by Rui Bebiano em 02-10-2006

anticlericalismo
Foto: Ilustração Portugueza, 1910, 2º Vol., p. 588

Decorrerá em 2010 o centenário da proclamação da República Portuguesa. Começam a preparar-se, naturalmente, as celebrações. Algumas cerimónias, números especiais de revistas, álbuns alusivos, colóquios, exposições, eventualmente alguns festejos capazes de mobilizarem o cidadão comum, cada vez menos dado a atribuir alguma importância a estas efemérides.

Durante o Estado Novo, a Primeira República foi recorrentemente olhada como uma experiência de pendor quase maximalista, que o salazarismo execrava de uma forma absolutamente visceral por considerá-la alheia às tradições fundamentais da Nação. Nas escolas primárias, os dezasseis anos de experiência republicana eram referidos em cinco minutos, invariavelmente para serem integrados num tempo de desordem, perseguições e decadência. Num filme de propaganda como A Revolução de Maio (1937), de António Lopes Ribeiro, o período era igualmente associado a práticas de violência pública, irreligiosidade e licença, às quais, ordenadamente, os militares de Braga, e depois Salazar, teriam posto termo. E mesmo após a revolução dos cravos, Vasco Gonçalves declarou, na tomada de posse, em 1974, como chefe do governo provisório, que «de modo algum» desejava ou admitia «um regresso ao triste passado de antes de 1926».

Em sentido inverso, para uma parte significativa da oposição ao regime, os republicanos prefiguravam ainda, pelo menos até aos finais da década de 1950, a imagem de uma democracia, jacobina mas respeitável, cujo regresso era julgado como possível pela própria transformação do regime, sem levar em grande consideração, para além do estritamente necessário, o papel e a influência do Partido Comunista. Mas tanto os comunistas como, mais tarde, os sectores da esquerda radical, foram evidenciando um crescente desinteresse pelo perfil deslocado no tempo e pelo discurso passadista daquele grupo de cavalheiros, saudosos de um tempo que não mais voltaria e adeptos de um «reviralho» que não passava dos seus projectos ultraminoritários.

As leituras do velho republicanismo não parecem hoje ter-se modificado muito, permanecendo na memória como mera referência histórica associada à toponímia local e às cores da bandeira. Um artigo publicado no número 19 da revista Atlântico pelo historiador Rui Ramos sugere entretanto, como forma de recuperação dessa imagem ultrapassada, que as comemorações de 2010 possam servir para apostar no «reconhecimento público de uma tradição importante do Estado, como a tradição do patriotismo cívico». Conhece-se bem a origem histórica desta aproximação, filiada na propaganda republicana das derradeiras décadas do século XIX, e sabemos quais os seus resultados quando alcançado o poder, tendentes a manter uma política capitulacionista diante das grandes potências. Não se me afigura, por isso, particularmente oportuna a sugestão. Aliás, não julgo ver a pátria de tal modo em perigo que possa requerer tal expediente. Mas já me pareceria muito mais interessante, e útil no momento actual, o aproveitamento da efeméride, e das iniciativas que a venham a rodear, para lembrar uma outra tradição que a república vigorosamente afirmou: a do laicismo e, como consequência, a da menorização da influência social do clero e da religião. Sem mimar o «anticlericalismo primário» republicano, tão ultrapassado quanto desnecessário, poderemos aprender alguma coisa, no plano cívico, com a sua luta contra o poder paralelo, recorrentemente emergente, das Igrejas e das suas ramificações.

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Pretérito mais-que-perfeito

Posted by Miguel Cardina em 01-10-2006

Aquilo que se nos aparece como imemorial foi por vezes forjado numa esquina próxima do tempo. Num texto já clássico, Eric Hobsbawm e um conjunto de outros historiadores mostraram como algumas das mais recorrentes imagens do passado são, na realidade, «tradições inventadas». A suposta origem remota do kilt escocês (criado em 1730 por um costureiro inglês), a criação das tradições nacionais galesas ou a construção, nas últimas décadas do século XIX, de uma série de cerimoniais associados à monarquia britânica, são algumas das ficções históricas cuja ancestralidade esta obra desmonta.

Criadas num pretérito pouco longínquo, estas «tradições inventadas» vivem da sua simulada colocação num locus inicial e hiper-significado. Uma panóplia de efemérides, lendas e símbolos, encarregam-se de manter viva esta presumível fonte original, dando lugar à afirmação de uma ideia fictícia de continuidade histórica. Foi, sobretudo, entre a segunda metade do século XIX e os inícios do século XX, que se deu a proliferação destes signos, num contexto de emergência dos nacionalismos e da consequente necessidade em erguer Volksgeisten que lhes servissem de base imaterial. Entre nós, é possível apontar vários exemplos desta fabricação institucional de marcas identitárias designadas como eternas ou imutáveis. Dos ranchos folclóricos à domesticação do fado, do galo de Barcelos à portugalização da saudade, uma boa parte da cobertura ideológica do Estado Novo foi construída com recurso a este expediente.

Nos dias de hoje, o processo de revalorização cultural das particularidades e dos localismos deixa-se frequentemente seduzir pela invocação de uma memória supostamente mais «remota» e «autêntica». Repare-se como nos vulgarizados festivais étnicos ou feiras medievais é comum observar-se uma ânsia de reproduzir fragmentos cristalizados do passado, que acabam por patrocinar uma formatação mitológica da memória colectiva. Esta romantização do tempo e do espaço actual tem ainda um outro reflexo na rapidez com que se criam «tradições» e no modo indiscriminado como a palavra vem sendo usada: nos meios estudantis, as praxes, reinventadas há pouco mais de vinte anos, são referidas como se existissem inalteráveis há séculos; nos noticiários, os acidentes de viação ou as fracas prestações escolares a matemática são considerados «tradições nacionais»; em diferentes lugares e circunstâncias, um acontecimento que se realize pela terceira ou quarta vez consecutiva arrisca-se a ser visto como uma «tradição recente».

Curiosamente, o recurso constante à «tradição», mais do que introduzir acrescentos de memória, induz à amnésia. Uma comunidade obcecada pela nostalgia não é necessariamente uma comunidade mais atenta ao substrato cultural de onde vem. Pelo contrário, ela vive numa constante presentificação do tempo acontecido que dificulta a retrospecção crítica e tende a eliminar a diferença que o próprio passado constitui. Felizmente, esta é uma utopia irrealizável: no trabalho monótono de estabelecer o mesmo, haverá sempre quem plante um acrescento, uma divergência, um descaminho. Enfim, uma invenção.

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