Passado/Presente

a construção da memória no mundo contemporâneo

Sobre a «terceira via»

Posted by Rui Bebiano em 17-05-2007

Raimundo NarcisoAcabei de ler Álvaro Cunhal e a dissidência da terceira via, de Raimundo Narciso, editado pela Ambar. O livro apresenta-se como narrativa pormenorizada de um episódio da trajectória pós-Abril do Partido Comunista Português. Começo por aquilo que nele me parece menos positivo. Retive, logo desde as primeiras páginas, a sensação de que este relato talvez merecesse ter sido publicado há mais tempo, contribuindo dessa forma para ampliar o combate político do qual o seu autor foi um dos protagonistas. Cerca de vinte anos depois dos acontecimentos aqui referidos, poderia também ser agora a altura para propor uma leitura interpretativa e historicamente contextualizada dos acontecimentos, o que aqui não foi feito. Além disso, perpassam por todo o volume vestígios de uma certa «língua de madeira», que nos fala ainda a partir de dentro do léxico comunista. E, como se sabe, o distanciamento crítico passa sempre pelo uso de uma linguagem diversa daquela utilizada no universo do objecto estudado. De qualquer forma, Raimundo Narciso incorpora no seu discurso um forte sentido da ironia, o qual tempera bastante a aridez. [continua aqui>>]

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Censura no Estado Novo

Posted by Miguel Cardina em 13-05-2007

Numa nota publicada no blogue do movimento Não Apaguem a Memória, Cláudia Castelo informa da recente disponibilização em linha de um trabalho de Luísa Alvim, no qual se referenciam livros censurados durante a Ditadura Militar e o Estado Novo. Este e outros documentos encontram-se já integrados na nossa bibliografia em construção sobre a censura no Estado Novo.

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O caminho sinuoso do liberalismo antitotalitário

Posted by Miguel Cardina em 09-05-2007

O Poder e os IdealistasFoi apenas um último exemplo: durante as recentes eleições presidenciais francesas, o candidato vencedor, Nicolas Sarkozy, atacou «Maio de 68» e os seus «herdeiros» por terem criado uma sociedade na qual a autoridade e a hierarquia são frequentemente postas em causa. Nada de novo, conhecendo-se a enorme dificuldade da direita em compreender as mudanças e o seu apelo estrutural à ordem. Na verdade, e no contexto em que a afirmação foi produzida, ela serviu mais para induzir a necessidade de um político duro para enfrentar o presente do que para fazer um julgamento da época. Não foi assim em 2001. Cinco fotos publicadas na revista Stern, datadas de 1973 e onde se observava Joschka Fischer em combates de rua com a polícia, e um excerto de um texto de Daniel Cohn-Bendit, de 1975, no qual se evocava o ambiente anti-repressivo de um jardim-de-infância que então dirigiu, deram azo a uma infinidade de reflexões sobre o niilismo e a apologia da violência que a época teria condensado.

Muitas das intervenções optaram pela caricatura e pelo exemplo desgarrado. Não foi o caso do americano Paul Berman, que redigiu um extenso ensaio, publicado no Verão de 2001 na revista New Republic, e que, redesenhado, constitui o primeiro capítulo de O Poder e os Idealistas, livro publicado em 2005 nos EUA e editado entre nós já este ano. Berman, também ele um antigo soixante-huitard, analisa o caso Fischer/Cohn-Bendit, integrando-o devidamente à luz das práticas e discursos da Nova Esquerda dos anos sessenta e setenta. Em última análise, o que estava em causa era tão só um confronto entre a geração idealista de 68, que havia tomado o poder, e as correntes conservadoras que se lhe opunham.

É outra, porém, a tese fundamental do livro. Nos capítulos seguintes, Berman esforça-se por demonstrar a ideia – polémica mas não completamente inovadora – de que as origens do intervencionismo liberal de hoje estão numa espécie de «Internacional imaginária de 1968», composta por antigos esquerdistas que confrontaram as suas anteriores crenças revolucionárias com a crítica ao totalitarismo efectuada, entre outros, por Arendt e Glucksmann. Este percurso geracional aparece representado simbolicamente em duas figuras que, de certo modo, assinalam o princípio e o fim deste processo: Che Guevara, o guerrilheiro internacionalista, e Bernard Kouchner, fundador da organização Médicos Sem Fronteiras, e impulsionador de uma espécie de «guevarismo dos direitos humanos» (p.221). A intervenção da NATO no Kosovo, em 1999, teria servido para colocar em prática esta ideia da autoridade moral das intervenções militares em nome das vítimas das ditaduras. Alguns dos argumentos ensaiados viriam a reaparecer no contexto pós-11 de Setembro para justificar as opções bélicas conduzidas a partir de Washington. Os antigos militantes de 68 – ou, pelo menos, uma parte deles – convertidos ao «humanismo das más notícias», dividiram-se quanto aos métodos de derrubar Saddam, mas mantiveram-se fiéis a um traço da juventude: a sua «paixão pela justiça social e pela liberdade» (p.289) acima das legitimidades impostas pelas fronteiras.

Paul Berman (2007), O Poder e os Idealistas. A geração idealista de 68 e a sua subida ao poder. Lisboa: Alêtheia Editores, 291 pp. [ISBN: 978-989-622-082-2]

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Auxiliar de memória

Posted by Rui Bebiano em 02-05-2007

Por teu livre pensamentoEditado pela Assírio & Alvim, Por Teu Livre Pensamento é um livro que evoca os rostos e as memórias de prisão de 25 ex-presos políticos portugueses e que acompanha a exposição patente no Centro Português de Fotografia, no Porto, até ao próximo dia 24 de Junho. As fotografias a preto e branco, imagens recentes sobrepostas aquelas que a PIDE originalmente tirou, são de João Pina. Os textos, da autoria de Rui Daniel Galiza, são essencialmente curtos relatos dos trajectos prisionais dos fotografados, construídos a partir de conversas que se pressente terem sido mais longas e densas.

Todos os fotobiografados são resistentes, oriundos de diversos quadrantes, embora maioritariamente do PCP, como seria de esperar e é justo que assim seja. Homens e mulheres de rostos endurecidos por anos de luta e de trabalho político, marcados pela prisão, pela tortura, por vidas em fuga que lhes foram gravando algumas das rugas que se lhes podem agora notar. Todos, sem excepção, a merecerem a admiração dos que chegaram depois e deles herdaram o sacrifício da liberdade. Os trajectos mais extraordinários são, porém, o de Emídio Guerreiro (que jamais foi comunista e cuja vida, para utilizar um lugar-comum, dava de facto um filme) e o de Edmundo Pedro (que declara ter sido afastado do partido contra sua vontade). Ambos contêm uma dimensão de imprevisibilidade, por vezes de capacidade para integrar a aventura, que nos permite adivinhar vidas particularmente únicas e complexas. Edmundo Pedro começou, aliás, a publicar entretanto a sua própria autobiografia, a qual prolonga as Memórias do seu pai, Gabriel Pedro, deixadas num documento único que o PCP, contra o desejo expresso do autor, terá sonegado ao conhecimento público.

No conjunto, o volume funciona como um precioso auxiliar da memória, destacando o rosto e a experiência daquelas pessoas, apenas 25 entre muitos milhares possíveis, de modo a que elas jamais possam ser olhadas como um simples sample do imaginário contemporâneo.

Rui Daniel Galiza e João Pina (2007), Por Teu Livre Pensamento. Histórias de 25 Ex-Presos Políticos Portugueses. Lisboa: Assírio & Alvim, 192 pp. ISBN 978-972-37-1186-8

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Cuba, a ilha imaginária

Posted by Miguel Cardina em 30-04-2007

che e sartreA imagem de Cuba como sinónimo de utopia, festa e liberdade deve-se, em grande medida, ao contexto específico dos anos sessenta e aos debates que então atravessam a esquerda. Cuba representava, simultaneamente, uma afronta veemente ao imperialismo americano e a possibilidade de um socialismo alternativo àquele que era proposto por Moscovo. Como em nenhum outro caso, os intelectuais ocidentais desempenharam um papel fundamental na disseminação deste fascínio pela ilha caribenha. O último livro de Iván de la NuezFantasia Roja. Los intelectuales de izquierdas y la Revolución cubana – fala precisamente deste «cubanismo de uma zona da esquerda ocidental» (p.15), que ainda hoje parcialmente se mantém, agora numa mistura de admiração voluntariosa pelo regime de Havana e de recuperação de temas próprios de um tempo pré-revolucionário.

Iván de la Nuez (n. 1964), um escritor cubano radicado em Barcelona, explora neste texto o fascínio dos intelectuais ocidentais comprometidos com Cuba, obsessão essa que «talvez mereça uma explicação mais psicológica do que política, mais erótica do que ideológica, mais pessoal do que social» (p.11). A viagem é feita através das representações construídas por gente tão diversa como Jean-Paul Sartre, Régis Debray, Giangiacomo Feltrinelli, Oliver Stone, Sydney Pollack, Wim Wenders, Graham Greene, Max Aub, Ry Cooder ou David Byrne. Apesar das profundas diferenças assinaladas, todos eles ajudaram a criar uma ilha paralela, que este ensaio revisita de forma crítica. [continua aqui>>]

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A tradução como crime

Posted by Rui Bebiano em 29-04-2007

Comprei Um Olhar Sobre o Holocausto, livro já com alguns anos da historiadora e antropóloga australiana Inga Clendinnen editado agora pela Prefácio (Reading the Holocaust, Cambridge U. Press, 1999), onde esta examina testemunhos de sobreviventes como Primo Levi ou Charlotte Delbo. Não conhecia a edição original e, reconheço agora que ingenuamente, confiei no facto de a qualidade das traduções de livros editados em Portugal ter vindo nos últimos anos a melhorar bastante. O volume tem 302 páginas, mas abandonei-o num instante. É que não tinha assim tanta necessidade de o ler que justificasse o tormento que foi seguir a tradução assinada por A. Mata. E foi praticamente impossível descortinar um parágrafo que não contivesse frases inteiras absolutamente incompreensíveis ou vertidas para um português inenarrável, quase ilegível, desprovido do mínimo exigível de cuidado literário ou mesmo de sentido. Ao acaso: «Eu estava especialmente aterrorizada com os alemães porque eles claramente glorificavam a sua perversidade»; ou «apesar da similaridade dos motivos, as duas experiências estudadas [as duas Guerras Mundiais] tiveram resultados diferentes»; ou ainda «sobre o Holocausto eu não tinha nenhum sentimento de compreensão acumulada». Isto só nas primeiras duas páginas de texto. Continuando: «Experimentei opiniões académicas correntes», «face a uma catástrofe destas dimensões, tão propositadamente infligida, a perplexidade é uma indulgência», «os ciganos eram classificados como insociáveis», «os ciganos fizeram do esquecimento uma arte», «há um mistério principal sobre a compreensão», etc., etc., etc. Já agora: como pode alguém que simplesmente leia livros com alguma regularidade referir-se aos Romani (os ciganos do leste europeu) como Romanos? E parei na página 48, final do capítulo I, pois toda a paciência tem os seus limites.

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Contrabando e emigração

Posted by Rui Bebiano em 28-04-2007

Serão diversos os motivos invocados por diversas instituições autárquicas, ou por alguns grupos de cidadãos, para construírem os pequenos núcleos museológicos que se têm multiplicado pelo país. Em alguns dos casos, reconhece-se um genuíno interesse pela conservação de determinados sinais do passado, ou de objectos de natureza artística, e pela sua transformação em sinais da afirmação identitária de alguns localismos. Em outros, mais negativamente, detecta-se o desejo de criar algo artificialmente um pólo de atracção turística ou de justificar rubricas orçamentais. Os resultados serão desiguais e não se devem medir apenas pela dimensão da cada um desses espaços: mais importante será aferir do seu efectivo interesse, da sua coerência e da sua capacidade de conservação e de catalogação. Todos nós entrámos já em alguns que não passam de simples «amontoados» de «coisas antigas», dispostas de forma caótica e contendo referências inexactas (quando não inexistentes). Outros possuem um bom acervo, mas não dispõem de técnicos e de funcionários à altura. Um caso curioso, pela originalidade temática, é o do Museu do Contrabando e da Emigração Clandestina, inaugurado ontem em Melgaço. Sem hipótese ainda de o visitar e, por isso, de poder formular uma opinião, aqui fica para já a referência.

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Os jornais e o 25 de Abril – o 25 de Abril nos jornais

Posted by passadopresente em 27-04-2007

Com o intuito de assinalar ou comemorar datas e acontecimentos de relevância nacional e de interesse histórico, político e/ou cultural, no âmbito do projecto “Revelar LX” e da programação cultural da Hemeroteca Municipal, esta disponibiliza regularmente conteúdos digitalizados de documentos que marcaram a história do país. O fim da censura política do Estado Novo possibilitou a multiplicação de novas publicações, sobretudo jornais filiados em partidos ou movimentos políticos. Os anos de 1974 e 1975 foram particularmente férteis, com a esquerda e a extrema-esquerda a evidenciarem-se neste campo.

Para assinalar o 33.º aniversário da Revolução dos Cravos, a Hemeroteca põe à nossa disposição, no seu site, títulos históricos da imprensa portuguesa que surgiram logo a seguir à revolução de 25 de Abril de 1974. Tratam-se dos primeiros números das publicações Luta Proletária, órgão da LCI (Liga Comunista Internacionalista), Esquerda Socialista, do MES (Movimento de Esquerda Socialista), Voz do Povo, da UDP (União Democrática Popular), Luta Popular, órgão central do MRPP (Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado), A Verdade, do PUP (Partido da Unidade Popular) e Revolução, ligado ao PRP – BR (Partido Revolucionário do Proletariado – Brigadas Revolucionárias). A Hemeroteca disponibiliza ainda o olhar da imprensa no próprio dia e no dia seguinte à Revolução, permitindo ao leitor analisar o que se escreveu imediatamente a seguir. Podem ser observadas notícias d’ A Capital, Diário de Lisboa, Diário Popular e República. [por Alexandra Silva]

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A Europa, o Holocausto e o negacionismo

Posted by Tiago Barbosa Ribeiro em 24-04-2007

Foi recentemente aprovada uma proposta para proibir em toda a União Europeia a negação do Holocausto. A iniciativa da Alemanha suscitou a oposição dos países escandinavos, da Irlanda e do Reino Unido, com uma razão fundamental que também partilho: a liberdade de expressão.

Entendamo-nos sem margem para erros. O século XX europeu foi o ventre de uma das maiores tragédias da Humanidade e certamente aquela que mais brutalmente evidenciou até onde podem ser levados o anti-semitismo, o racismo e as ideologias de massas. Nada disso é discutível. O Holocausto traduziu-se num genocídio que industrializou a morte, a barbárie e a chacina metódica de seres humanos pelo simples facto de terem uma história, uma religião e uma cultura. De serem humanos. [mais >>]

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Censura antes de Abril

Posted by Miguel Cardina em 23-04-2007

A permanência de um tentacular aparelho censório ajuda, em muito, a explicar a durabilidade do Estado Novo. Convém dizer, desde logo, que os serviços de censura não se preocupavam apenas em riscar as expressões mais ou menos directas de desagrado relativamente às orientações políticas do regime. A sua verdadeira missão consistia em criar um país de ficção, do qual estariam ausentes expressões de anormalidade e tumulto social. Na imprensa, no teatro, no cinema, na rádio, na televisão, tudo aquilo que pudesse pôr em causa essa serenidade imaginada era um alvo potencial do famoso «lápis azul». Um exemplo disso pode ver-se no breve texto abaixo reproduzido, cortado da edição de 12 de Junho de 1971 do Diário de Notícias:

Retirado de: Graça Franco (1993), A censura à imprensa (1820-1974).s.l.:Imprensa Nacional Casa da Moeda, p.165

PARA UMA BIBLIOGRAFIA SOBRE A CENSURA NO ESTADO NOVO

[em construção: sugestões]

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Um retrato fundamental

Posted by Miguel Cardina em 19-04-2007

ppNo primeiro episódio, a sucessão inicial das imagens é acompanhada por um texto magnetizante, interrompido pelo verdadeiro começo – as filmagens de um parto. Quando termina o programa, e como lembrava há dias Eduardo Prado Coelho, «apetece chorar». Não por uma qualquer nostalgia induzida, mas porque vemos o passado como um país distante, com o qual, estranhamente, ainda nos relacionamos.

Numa altura em que o renascido interesse pela história recente do país tem sido marcado por alguma negligência interpretativa, a notável série Portugal, um retrato social, da autoria de António Barreto e com realização de Joana Pontes, e que a RTP1 tem vindo a exibir às terças-feiras em horário decente, é um verdadeiro serviço público.

Informam-se, por isso, todos os interessados em ver ou rever o programa que a RTP tem disponível no seu site, em versão integral, os episódios já apresentados.

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Congresso sobre os Sixties

Posted by Miguel Cardina em 19-04-2007

New World Coming – The Sixties and the Shaping of Global Consciousness é o título do congresso que, entre 13 e 16 de Junho, irá reunir em Kingston (Canadá) centenas de participantes apostados em discutir o significado e a importância dos anos sessenta na definição de novos modelos políticos, sociais e comportamentais. Organizado pela Queen’s University, o evento pretende cruzar diferentes enfoques disciplinares em torno de temáticas como a descolonização e os movimentos de libertação no Terceiro Mundo, a nova esquerda e a reconfiguração das formas de activismo, a emergência da juventude como novo actor social, a problematização social do género e da raça ou os contornos das mutações culturais ocorridas durante a década.
O programa provisório pode ser consultado aqui.

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Posted by passadopresente em 13-04-2007

No novo blogue Entre As Brumas da Memória, Joana Lopes propõe-nos debater e completar a informação que oferece no seu livro de idêntico título, já aqui referido. Hoje mesmo inserida uma útil mensagem, da autoria de Nuno Teotónio Pereira, sobre os padres e bispos que enfrentaram a ditadura.

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Manhãs de nevoeiro

Posted by Rui Bebiano em 11-04-2007

Publicado também em A Terceira Noite

Em 1581, Filipe II (I de Portugal, como se ensinava em tempos na Primária), fez transladar para o Mosteiro dos Jerónimos um corpo que alegava ser o de D. Sebastião. O objectivo parece ter sido o de acabar com os rumores a propósito da sobrevivência do rei em Alcácer-Quibir e do seu eventual regresso na tentativa de resgatar o trono e a independência. A incerteza, porém, manteve-se, alimentado esse «mito sebástico» que desde o início se fundou na crença do retorno messiânico de um salvífico «desejado». Em 1879, na História de Portugal, Oliveira Martins explicava-o assim: «A alma lusitana, ingénua na sua candidez – tombado agora por terra o edifício imperial (…) – rebentava em soluços, buscando no seio da natureza, onde se acolhia, uma salvação que não podia esperar mais das ideias, dos sistemas, dos heróis, nem dos reis em quem tinha confiado por dois séculos. A obra temerária dos homens caía por terra; e o povo, abandonado e perdido, abraçava-se à natureza, fazendo do lendário D. Sebastião um génio, um espírito, e da sua história um mito». Alguém, portanto, que transportava um anseio colectivo e vivia para aquém do seu desaparecimento físico.

Bastará uma consulta apressada de parte da imensa bibliografia que sobre o assunto se produziu ao longo dos últimos cento e vinte anos para se perceber que o sebastianismo não cresceu da dúvida sobre a identificação do corpo, mas de algo muito mais profundo que já as profecias do Bandarra (anteriores, aliás, à vida de Sebastião) enunciavam como a crença num herói providencial capaz de interpretar o colectivo destino dos portugueses. Sabe-se como o próprio Salazar não escapou a esta aproximação (tal como Sidónio, Sá Carneiro, e até Cavaco, na sua versão hardcore dos anos 80). Parece, porém, que dois investigadores, um português e um espanhol, defendem agora a abertura do túmulo do rei e a realização de análises às ossadas ali depositadas, para «acabar de vez com o mito sebastiânico» (sic). Talvez valha a pena lembrar a quem possa atribuir uma importância exagerada a este tipo de iniciativa, que o que importa aqui não é o corpo – muito provavelmente sem qualquer gene dos Áustrias, pois só o contrário seria surpreendente – mas sim a manhã de nevoeiro.

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O concurso e a responsabilidade dos historiadores

Posted by Rui Bebiano em 05-04-2007

De acordo com os dados divulgados pela RTP, o total de votos «válidos recebidos» no concurso Grandes Portugueses foi de apenas 159.245. Destes, 41% foram para Salazar e 19,1% para Álvaro Cunhal, o segundo classificado. Porém, se contarmos os votos militantes – que poderiam ser exercidos, via SMS, pelo menos em triplicado ou quadruplicado –, os votantes efectivos não deverão ter excedido os cerca de 60.000. Desta forma, apenas umas 24.000 pessoas, no máximo, terão votado no antigo ditador. Como qualquer cidadão, independentemente da idade ou até da nacionalidade, poderia participar no escrutínio, o efectivo valor deste número será ainda mais residual. Aliás, o mesmo pode ser constatado de forma empírica: acredito que pouquíssimos conhecerão pessoalmente um verdadeiro salazarista. Assim, para quê tanto alarido com as repercussões do pobre espectáculo televisivo?

Convirá recordar que o impacto político do programa foi ampliado, em primeiro lugar, pela própria RTP1, sempre interessada em tornar concorrencial o seu produto, e também por muitos jornalistas e analistas, em busca de tema para os seus artigos e crónicas, ou empenhados numa reflexão sobre o que não deixou de ser um fenómeno curioso da cultura de massas. Mas o concurso foi também exageradamente dramatizado por alguns historiadores, que se viram confrontados com algumas das hesitações e perplexidades que têm atravessado a sua área de interesses. Anoto, de uma forma obrigatoriamente sumária, três problemas com as quais o conhecimento histórico se tem debatido e que me parece terem convergido neste particular contexto. [continua aqui>>]

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Coimbra entre a tradição e a mudança

Posted by Rui Bebiano em 03-04-2007

pp Entre 3 de Abril e 28 de Maio decorre em Coimbra, na Livraria Almedina – Estádio, um ciclo de debates sobre «Coimbra: Passado no Presente». Neles se abordará o impacto produzido por sucessivos momentos de mudança numa cidade cuja identidade permanece ainda, em larga medida, vinculada ao peso da tradição.

As sessões começam às 21 horas e terão lugar nos dias 3 de Abril («Uma Memória Visual», com Alexandre Ramires e Nuno Rosmaninho Rolo), 17 de Abril («A Cidade dos Estudantes», com Abílio Hernandez Cardoso e Miguel Cardina), 15 de Maio («A Invenção da Cidade», com Cristóvão de Aguiar e Rui Bebiano) e 28 de Maio («Coimbra, Anos 80», com António Augusto Barros e João Bicker). A organização é das Ideias Concertadas e da Almedina.

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Torga e a PIDE

Posted by Miguel Cardina em 28-03-2007

A recente disponibilização, no site da Torre do Tombo, do processo da PIDE de Miguel Torga, motivou uma interessante reportagem no jornal Público, assinada por Sérgio C. Andrade. Uma oportunidade para tomar contacto com o assunto enquanto se espera o lançamento de Miguel Torga e a PIDE – a repressão e os escritores no Estado Novo, do investigador Renato Nunes. [ler a reportagem]

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Um antídoto contra a intolerância

Posted by Miguel Cardina em 27-03-2007

A «ilusão da singularidade» corresponde à tentação de aprisionar o ser humano dentro de limites estreitos e unilaterais, processo que é responsável pela lógica de conflito e de violência sectária que tem vindo a recrudescer neste início de século. Este é a ideia central que atravessa Identidade e Violência. A Ilusão do Destino, o último livro de Amartya Sen, recentemente publicado entre nós pela Tinta-da-China. Problematizando as novas orientações no campo da integração das minorias ensaiadas pelo governo britânico nos últimos anos, bem como o badalado conceito de «choque civilizacional», lançado em 1993 por Samuel Huntington, Sen produz um argumentado – e, por vezes, libertador – documento que visa sobretudo «resistir à miniaturização dos seres humanos» (p.238).

Na verdade, cada indivíduo é um ser multidimensional, tecido por uma espécie de caleidoscópio de pertenças entre os quais não existe frequentemente nenhuma contradição – nem necessariamente um cruzamento. Como aponta o autor, uma mesma pessoa pode ser «um cidadão americano de origem caraibense, com antepassados africanos, um liberal, uma mulher, um vegetariano, um maratonista, um historiador, um professor, um romancista, um feminista, um heterossexual, um defensor dos direitos dos homossexuais, um amante do teatro, um activista ambiental, um entusiasta do ténis, um músico de jazz» (p.15). O que a violência sectária faz é transformar o ser humano numa criatura unidimensional, absolutizando uma identidade específica, quase sempre genuína – «um hutu é realmente um hutu, um tigre tamil é claramente um tamil, um sérvio não é um albanês e uma alemão adepto da filosofia nazi é com certeza um alemão» (p.227) – redesenhando de acordo com lógicas beligerantes de objectivação do «inimigo» que são, simultaneamente, redefinições de uma suposta identidade única e matricial. Sen identifica esta linha de raciocínio, não apenas nos fundamentalismos religiosos contemporâneos, mas nas teses de Huntington, que dividem o mundo em compartimentos civilizacionais. [continua aqui>>]

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O salazarismo, os ismos e o debate

Posted by Tiago Barbosa Ribeiro em 21-03-2007

Nas últimas semanas, vários blogues portugueses têm discutido o corpo ideológico e doutrinário do salazarismo. Mais recentemente, partindo de um post no Kontratempos, o debate cruzou diferentes olhares e sensibilidades. Não se pretendendo uma enumeração exaustiva de todas as intervenções sobre este tema, nem sequer recuperando outras discussões que ocuparam a blogosfera nos últimos meses, reunem-se aqui para consulta e memória futura os textos mais citados e referenciados a partir de um ponto comum. [mais>>]

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Os católicos contra a ditadura: a vez da voz

Posted by Rui Bebiano em 20-03-2007

Católicos contraSó recentemente se começaram a reconhecer de um modo sistemático as formas da oposição ao salazarismo organizadas à margem da actividade do Partido Comunista ou dos seus aliados tácticos e companheiros de jornada. A capacidade de organização e a tenacidade combativa dos comunistas, associadas às consequências da demonização que deles fazia o regime anterior, contribuíram em larga medida para fazer passar à condição de figurantes as outras formas e os outros espaços de resistência. Sem questionar a importância decisiva do PCP no combate contra a ditadura, é preciso reconhecer que se encontra ainda por estudar, por exemplo, a definição de uma «oposição cultural» crescentemente alargada e diversificada ao longo dos últimos vinte anos do Estado Novo, capaz de definir vivências e imaginários alternativos traduzíveis numa desafectação crescente de parte importante da juventude universitária e urbana, dos sectores artísticos e intelectuais e de muitos elementos das profissões liberais e da classe média. Por sua vez, a dissidência individual, inevitavelmente menos notória, permanece em larga medida por reconhecer, se exceptuarmos referências pontuais surgidas neste ou naquele obituário, ou então em homenagens públicas mais ou menos tardias.

Os grupos organizados têm também permanecido quase na penumbra. A corrente socialista ainda não possui um estudo detalhado sobre a sua génese e desenvolvimento (um livro de Susana Martins constitui uma primeira tentativa). A esquerda radical só recentemente começou a ser objecto de estudo sistemático (principalmente com José Pacheco Pereira e Miguel Cardina), enquanto a actividade dos sectores católicos de oposição, apesar de recorrentemente mencionados e hoje publicamente «representados» na intensa acção cívica de muitos dos seus antigos activistas, continua por conhecer. Se exceptuarmos alguns textos de António Alçada Baptista e de João Bénard da Costa, a importância deste grupo tem sido recordada apenas em evocações episódicas, por vezes de pendor algo nostálgico, como aconteceu na comemoração dos quarenta anos da fundação da revista O Tempo e o Modo.

Um contributo novo e relevante para alterar este estado de coisas acaba, entretanto, de ser proporcionado por Joana Lopes, autora de Entre as brumas da memória. Os católicos portugueses e a ditadura, publicado pela Ambar. [continua aqui>>]

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Representar, rasurar, apagar

Posted by Rui Bebiano em 20-03-2007

À falta de outros motivos de inspiração, a indústria da publicidade tem vindo, de uma forma recorrente e cada vez mais visível, a instrumentalizar o passado. Reescreve-o de acordo com os seus objectivos comerciais, «reproduzindo-o» a partir de temas e imagens que, em sociedades numa fase de acelerada perda da memória, passam a funcionar como sinais visíveis de um tempo irrecuperável. Este spot publicitário do Atlético de Madrid produz em nós esse efeito, remetendo para um tempo de clivagens e violência sobre o qual parece ter sido possível o emergir de uma solidariedade capaz de aproximar os contrários. Inquestionável enquanto exercício ficcional. Mas perturbante quando se sabe que, para muitas pessoas com um menor lastro de memória, estas poderão ser as únicas imagens reconhecíveis de uma «Guerra Civil de Espanha» fantasmática e já longínqua.

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Conferências na Fundação de Serralves

Posted by passadopresente em 19-03-2007

De 1 de Março a 13 de Dezembro de 2007, o auditório de Serralves acolhe relevantes figuras, a nível mundial, dos campos da filosofia, da biologia, da educação e do pensamento político contemporâneos, num ciclo de doze conferências internacionais dedicadas a essas temáticas e subordinadas ao tema Crítica do Contemporâneo. Conferências Internacionais da Fundação de Serralves. De acordo com a carta de apresentação da Fundação Serralves, o objectivo destas Conferências é «trazer a Serralves uma série de discursos que possam entrar na categoria dos diagnósticos do presente», levando obras dos convidados que partilham a característica «se confrontarem com a contingência dos acontecimentos do nosso tempo, procurando traçar uma cartografia das tonalidades afectivas, políticas e sociais que nos governam, ajudar a perceber as transformações, as inflexões e as linhas de fuga que ocorrem em vários planos da nossa realidade».

No bloco sobre biologia reflectir-se-á, perante os recentes avanços neste domínio do conhecimento, concretamente da genética, sobre os resultados que alteraram a forma de nos olharmos e aos outros. O ciclo de conferências sobre política é orientado por uma lógica de diagnóstico e de observação crítica do presente. Por sua vez, o ciclo de conferências-debate sobre educação ilustrará a contemporaneidade da educação e o papel do professor e do aluno na complexidade do mundo actual. Os comissários são António Amorim (biologia), António Guerreiro (política) e Alberto Amaral (educação), sendo coordenador do evento Rui Mota Cardoso.

A FNAC Coimbra receberá no próximo dia 26 de Março, pelas 21h30m, a apresentação deste ciclo em Coimbra, contando com a presença dos comissários envolvidos. Mais informações podem ser encontradas aqui. [Alexandra Silva]

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O Labirinto do Fauno

Posted by Miguel Cardina em 17-03-2007

Em 1944, enquanto Franco consolida a sua vitória sem nenhuma complacência para com os vencidos, permanecem fogachos da resistência republicana em algumas zonas de Espanha. Numa delas – uma montanha a norte de Navarra – Ofélia acompanha a mãe no seu encontro com o odioso capitão franquista com quem recentemente casara e de quem espera um filho. Partindo deste cenário concreto, Guillermo del Toro, constrói o premiado O Labirinto do Fauno. Depois de já ter abordado a temática em «A Espinha do Diabo» (2001), o realizador mexicano volta novamente a tomar como pano de fundo a curva da década de 1930 para 1940, esse tempo propício, nas suas palavras, «para falar de monstros e de opções». Um tempo paradoxal, onde a urgência das escolhas conflui com a força avassaladora das circunstâncias, como se as acções humanas tivessem constantemente de se confrontar com um guião pré-estabelecido. É contra essa «ditadura do real» que a jovem Ofélia se insurge inconscientemente, mostrando que a ilusão que alimenta as fábulas é a mesma que mantém uma rapariga vigilante por entre a sombra dos dias. Relato híbrido – feito de seres mitológicos e dramas realistas que lembram por vezes o universo de Tim Burton ou o último (e algo desastrado) filme de Night Shyamalan – «O Labirinto do Fauno» é também uma poderosa alegoria sobre o franquismo. Uma fábula contra todos os sistemas que absolvem a brutalidade e sublimam a obediência.

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ESSHC 2008

Posted by Miguel Cardina em 15-03-2007

A sétima edição do European Social Science History Conference, organizado pelo International Institute of Social History será realizada em Portugal, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, entre 27 de Fevereiro e 1 de Março de 2008. A organização aceita propostas de artigos até ao próximo dia 1 de Abril.

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Cão Andaluz

Posted by passadopresente em 15-03-2007

Por Maria Manuela Cruzeiro

Cão AndaluzO Cão Andaluz, título estranho, roubado à dupla sagrada do surrealismo Buñuel/Dali, é, como os dois anteriores livros de Jorge Seabra, um regresso ao passado com constantes projecções no presente. Uma viagem em voo rasante, com altos e baixos, avanços e recuos, em que a proximidade do olhar se paga com a dúvida e a suspeita, por vezes a surpresa e o desconcerto, de ver o que se não tinha visto, sem que isso resolva nada do que ficou por resolver.

O passado, pois – continuando no domínio da navegação aérea – como uma espécie de caixa negra da memória, o centro de todos os centros, enigma ou oráculo cujas falas, sendo as mesmas, são sempre diferentes, porque diferentes são as perguntas que o tempo lhe vai fazendo.

As primeiras páginas do livro advertem-nos quanto ao grau de perigosidade e também de ambiguidade desse desafio. Os gestos, os rostos e as histórias que a memória resgata do esquecimento, trazem o calor de um olhar íntimo e solidário, mas também o verde frio da angústia e da dúvida insidiosa. [mais>>]

Uma leitura proposta durante a apresentação pública do romance, ocorrida em Coimbra no último dia 10 de Março.

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Sobre um abaixo-assinado

Posted by Rui Bebiano em 12-03-2007

A declaração pública de alguns professores e investigadores universitários, sob a forma de um abaixo-assinado, a propósito do concurso televisivo Grandes Portugueses, não concita a unanimidade da comunidade dos historiadores. Apesar de simpatizar com algumas das suas preocupações essenciais, parecem-me discutíveis o formato que ela tomou e o tom em que foi redigida (daí, também, o não a ter assinado). Concordo por inteiro, aliás, com a posição crítica expressa a propósito por José Medeiros Ferreira. A qual pode ser lida aqui.

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Mudança

Posted by passadopresente em 12-03-2007

Tal como o leitor habitual pode constatar, Passado/Presente foi objecto de algumas mudanças nos planos gráfico e da arrumação dos conteúdos. Esperamos que, a partir de agora, a leitura e a pesquisa se tornem mais intuitivas e agradáveis. Passamos também a editar alguns posts mais curtos e circunstanciais, voltados para temas da actualidade que se prendam com os nossos objectivos e que possam dialogar com a informação e a opinião circulantes no universo dos blogues.

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Feminismo: um nome ainda novo

Posted by Miguel Cardina em 08-03-2007

1. Os primeiros passos do feminismo foram dados no sentido de se reivindicar a igualdade formal entre homens e mulheres. Caminho aparentemente óbvio, sobretudo na época em que nasceu (o período da Revolução Francesa e das suas proclamações igualitárias), mas que a breve trecho se veio a revelar particularmente sinuoso. Três exemplos demonstram como este foi, historicamente, um percurso minado.

Olympe de Gouges é o primeiro caso. Glosando a Carta dos Direitos do Homem e do Cidadão, Olympe escreve, em 1791, uma Carta dos Direitos da Mulher e da Cidadã, na qual defende a igualdade entre homens e mulheres no domínio público e privado. A ousadia da francesa foi severamente punida: a 3 de Novembro de 1793, Olympe de Gouge é guilhotinada. A República proclamava a universalidade dos direitos mas não podia tolerar que as mulheres deles usufruíssem.

Durante o século XIX, a revolução industrial, com o consequente abandono dos campos e o crescimento do proletariado, empurrou as mulheres para o mercado de trabalho.[mais>>]

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Cinzento esconjurado

Posted by Miguel Cardina em 27-02-2007

Se por outra razão não fosse, O Saudoso Tempo do Fascismo, de Hélder Costa, valeria pela capa: uma foto do gigante de Manjacaze e do anão de Arcozelo – respectivamente, o homem mais alto e mais baixo do mundo, segundo certas edições do Guiness Book of Records – no velório de Salazar. Lado a lado, em pose tensa e respeitosa, estes filhos que a nação passeou como aberrações, vêm dar o último adeus ao ditador. Por detrás da luz central – a vela acesa de um círio – descobrem-se, perfiladas, as forças (ainda) vivas: um chapéu da polícia militar, um lenço da Mocidade Portuguesa, os botões reluzentes de uma farda composta.

O livro é, obviamente, mais do que o seu delicioso embrulho. Escrito naquele tom descontraído de quem domina a velha arte de contar histórias, O Saudoso Tempo do Fascismo é uma colectânea de relatos situados na fronteira entre o memorialístico, o pedagógico e o humorístico. Recortes do tempo que falam dos bailes e do «arame farpado», da emancipação das mulheres, das críticas à praxe coimbrã, das arrogâncias do poder e do seu escarnecimento, das experiências teatrais, da contestação à guerra colonial, das peripécias que rodearam um inevitável «salto» para Paris. Histórias contadas com uma deliciosa dose de humor e ironia. [mais>>]

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Órfãos do Che

Posted by Rui Bebiano em 26-02-2007

O CheNão adianta olhar para o lado e passar à frente. O Che vive e, por mais morto que esteja, insiste em confrontar-nos. Não a sua alma errante, obviamente, mas a sua imagem lembrada, evocada, manuseada, maquilhada. A suprema cosmética conseguiu-a em 1997 Fidel Castro, ao decidir – como acaba de provar a reportagem «Operación Che. Historia de una mentira de Estado», publicada num número especial da revista Letras Libres por Maite Rico e Bertand de la Grange – o enorme embuste que foi a exumação do seu cadáver (sem testes de ADN) e a deposição dos supostos restos mortais, em cerimónia apoteótica, num mausoléu em Havana voltado para o planeta. Quem no-lo lembra é Mario Vargas Llosa, no artigo «Los huesos del Che», recém-saído no El País, e que sublinha de uma forma transparente, sem marcas de repulsa ou de sedução, alguns dos sentidos tomados pela manipulação contemporânea da memória de Ernesto Guevara de la Serna.

«El Che representa una hermosa ficción, un personaje del que la historia contemporánea está huérfana: el héroe, el justiciero solitario, el idealista, el revolucionario generoso y desprendido que realiza hazañas soberbias y es, al final, abatido, como los santos, por las fuerzas del mal. No importa que los historiadores serios muestren, en trabajos exhaustivos, que el Che Guevara real, de carne y hueso, estaba muy lejos de ser ese dechado de virtudes milicianas y éticas. Que fue valiente, sí, pero también sanguinario, capaz de fusilar a decenas de personas sin el menor escrúpulo, y que, desde el punto de vista militar, sus fracasos y errores fueron bastante más numerosos que sus éxitos. Es verdad que era consecuente con sus ideas, sobrio y austero, incapaz de las payasadas y dobleces de los politicastros profesionales. Pero, también, que la violencia y eso que Freud llamó ‘la pulsión de muerte’ lo atraían y guiaron su conducta tanto como su pasión por la aventura y la revolución.»

O pior que podemos fazer, nas tentativas de traçar abordagens compreensivas dos personagens que marcam a história, é desumanizá-los, transformá-los em símbolos, confundi-los com deuses ou com heróis. Pois apenas estes são perfeitos. Nas nossas cabeças, claro.

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