Passado/Presente

a construção da memória no mundo contemporâneo

«Crítica e Alternativas para uma Civilização Diferente»

Por Alexandra Silva

Raiz & Utopia Com os acontecimentos do 25 de Novembro de 1975, que dá a vitória às forças moderadas democráticas, lideradas pelo chamado «grupo dos Nove» e pelo Partido Socialista, termina a agitação revolucionária que se seguiu ao golpe militar do 25 de Abril. Nos anos seguintes viria a viver-se uma democracia marcada pelo processo revolucionário. No panorama político e social a cultura não tende a ser um território prioritário, daí ir construindo a sua história de adiamentos e de exigências impossíveis.

A problemática da cultura que acompanhava de perto a modernização viria a constituir um dos vazios mais gritantes da reflexão teórica do pós-25 de Abril. Diário de Notícias, Diário de Lisboa e Vida Mundial constituíam a excepção num universo em que a colaboração dos intelectuais era restrita.

Se no período imediato ao pós-25 de Abril se verifica uma quase-ausência de intervenções culturais marcantes, elas pronunciar-se-ão mais claramente a partir do ano de 1976. Com a restauração da liberdade de imprensa assistira-se ao aparecimento de inúmeras publicações de carácter doutrinário e partidário e o aumento considerável de tiragens e vendas. Como consequência dos acontecimentos políticos, a ordem cultural pós-25 de Abril sofreria uma mutação radical, perdendo a função simbólica de espaço de disputa e conflito de ideologias para se transformar, como diz Eduardo Lourenço, numa «espécie de transcendência». Em 1977 amplia-se a reflexão pela escrita: nascem revistas, algumas de efémera duração, muitas delas editadas fora de Lisboa, em várias áreas da cultura. A maioria teve uma duração brevíssima. Podem destacar-se a Arco-íris («cadernos de ideias literárias», Porto), a Persona (revista de crítica literária, Porto), os Cadernos de Literatura (Coimbra), a Sema («ou a significação que se pretende possível dum traço duma letra dum sinal», Lisboa) e a Fenda («magazine frenética», Coimbra).

Neste contexto, um conjunto de mentes inquietas que no rescaldo do Verão quente de 1975 procurava novos rumos para o pensamento, distintos da influência do modelo político de leste, mas que recusassem também o modelo economicista de mercado que se apresentava então como única solução, criou a revista Raiz & Utopia («crítica e alternativas para uma civilização diferente»). Carlos Medeiros, um dos fundadores, situou o começo da ideia da revista nos inícios de 1975, quando o seu manifesto apresentado no número 1 foi escrito. Eram três homens: ele próprio, António José Saraiva e José Baptista. O objectivo consistia em centrar a sociedade no homem, uma espécie de solução libertária nem ligada ao mercado nem ao Estado. Não esqueçamos que o regime político de então ensaiava uma aproximação ao modelo do «socialismo real» existente no leste Europeu. António José Saraiva apontava no primeiro número, a Raiz como a crítica da sociedade e a Utopia como o futuro. A Raiz, surgia como sendo o estado da sociedade actual, a «Civilização Organizacional ou Burocrática»; a Utopia, por sua vez, é onde se revela o desejo de libertação, de alternativa de acção, fazendo uma «análise crítica impiedosa e sem compromissos».

O Centro Nacional de Cultura (CNC) acaba entretanto de lançar a antologia Raiz e Utopia: Memória de uma revista 1977-1981. Trata-se de uma reedição em fac-simile, apoiada pela Fundação Calouste Gulbenkian, dos 19 números da revista (exceptuando o número 9/10, reeditado já por aquele Centro, em 1998 e que se encontra ainda disponível). Inicialmente pretendendo ser uma publicação trimestral, acabou por nunca ter uma edição regular, razão que se prendeu sobretudo com dificuldades de financiamento. Helena Vaz da Silva, que veio a assegurar a direcção da revista desde o seu nº 5/6 (de finais de 1977) foi, juntamente com António José Saraiva, uma das figuras de proa do projecto. Em 1998, Helena Vaz da Silva, nessa altura Presidente do Centro Nacional de Cultura confessa, num prefácio à reedição do nº 9/10 (edição especial sobre educação), que a revista «quando parou não foi por falta de leitores, foi por entendermos que se tinha esgotado o seu projecto, que estava cumprida a sua missão de proclamar uma nova atitude face à vida e à política».

Demarcando-se, desde o início, de qualquer filiação político-partidária, embora, em sentido lato, qualquer das edições pudesse ser classificada de revista política ou eminentemente política, o certo é que os colaboradores da R&U assumiram diferentes opções políticas. Pretendia ser fundamentalmente um espaço de debate e polémica, uma publicação de «crítica e alternativas para uma civilização diferente», como assentava no seu subtítulo. Como tal impôs-se muito rapidamente como uma espécie de esperança. A Raiz & Utopia foi um espaço literário por excelência onde autores novos e consagrados puderam partilhar os seus escritos. Nesse espaço se conheceram novos e reconhecidos poetas portugueses, obras inéditas (por exemplo de Fernando Pessoa e Ruy Belo), se leu ficção de vários autores, se fez crítica literária, se discutiu a condição e o papel do escritor em Portugal. Alguns dos intervenientes foram António Ramos Rosa, Eugénio de Andrade ou Luísa Dacosta. A Antologia que o CNC agora publica constituirá pois um acervo de uma extrema actualidade, um cruzamento de diálogos e pensamentos oferecendo uma panóplia de leituras que vão desde o socialismo, o marxismo, o pós-25 de Abril, ao radicalismo político e ao terrorismo, à nova filosofia, ao nuclear, à ecologia e à sociedade, à agricultura biológica e ao ambiente, à psicologia, à educação, à reforma prisional, à emigração e à homossexualidade.

A revista mostrou-se também muito aberta no campo das artes, contando entre os colaboradores com grandes nomes da pintura como Ana Vieira, António Palolo, Noronha da Costa, Carlos Nogueira, Jorge Martins, e da poesia como Fernando Pessoa, Jorge de Sena, Vitorino Nemésio, Eugénio de Andrade, Ramos Rosa, Cinatty, Rui Bello, Alberto Pimenta, Joaquim Manuel Magalhães e João Miguel Fernandes Jorge. Colaboraram também Jorge Molder ou Syberberg.

Sendo um projecto assumidamente demarcado da realidade cultural da época, a Raiz & Utopia contou com a participação de diversos colaboradores da cultura de alternativa ou da vanguarda portuguesa de então. João Fatela, Nuno Bragança, António Mega Ferreira, António Alçada Baptista, Eduardo Lourenço, A. H. Oliveira Marques, Mário Baptista Coelho ou Teresa de Sá foram também alguns dos seus participantes regulares. Tiveram ainda lugar algumas colaborações internacionais de vulto como Edgar Morin, Marguerite Yourcenar, Garaudy, Ivan Illitch ou Umberto Eco. A revista manteve uma relação estreita com a revista francesa Esprit (fundada em 1932 pelo filósofo Emmanuel Mounier, para a qual os colaboradores enviavam frequentemente textos e da qual recebiam igualmente originais).

Considerada, na época, «uma pedrada no charco», esta iniciativa do CNC, agora disponível, assume-se como um acontecimento literário, esperando-se que, pelo exemplo, possa agitar algumas águas. Num contínuo entrecruzar da Raiz e da Utopia, que, tal como declara Alberto Vaz da Silva num dos prefácios ao volume, «no presente sistema solar continuarão incessante e pacientemente a surdir enquanto durar o contexto do espírito humano».

Raiz e Utopia: Memória de uma Revista 1977-1981 – Antologia (2007). Centro Nacional de Cultura, 2007. Textos introdutórios de Alberto Vaz da Silva, Helena Vaz da Silva, João Fatela, Regina Louro e Guilherme d’Oliveira Martins [ISBN: 972-8945-03-5 e 978-972-8945-03-9]

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