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a construção da memória no mundo contemporâneo

A «orquestra negra»

strage di piazza fontanaEm 1981, Margarethe von Trota realizou Die Bleierne Zeit, uma visão ficcionada sobre a vida de Christiane Ensslin e Gudrun Ensslin, miltantes das RAF / Baader-Meinhof, grupo que durante os anos setenta semeou um rasto de medo e violência na antiga parte ocidental da Alemanha. O título do filme foi traduzido para italiano como Anni di Piombo (anos de chumbo), expressão que servia igualmente para caracterizar os acontecimentos ocorridos neste país sensivelmente durante os mesmos anos. Nessa altura, grupos de extrema-esquerda e de extrema-direita, fortemente críticos da democracia parlamentar e convencidos da utilidade da violência como arma política, dedicaram-se a um conjunto variado de acções terroristas que visavam desestabilizar o ordenamento político resultante do pós-guerra.

A dia 12 de Dezembro de 1969, a bomba que rebentou no interior do Banco Nacional de Agricultura, em Milão, marca o início desse processo de tensão crescente. Eram 16.37. e a explosão causou dezasseis mortos e oitenta e oito feridos. Nos quarenta minutos seguintes, outros engenhos explosivos rebentam em Roma e Milão, provocando mais 17 feridos. O episódio ficaria conhecido como «Massacre de Piazza Fontana». À comoção imediata juntou-se a certeza policial de que por detrás do atentado estariam grupos anarquistas, nomeadamente o Círculo 22 de Março, tendo sido os seus militantes capturados nos dias sucessivos. Um deles, Giuseppe Pinelli caiu de um quarto andar enquanto era interrogado pelo comissário Luigi Calebresi. Segundo os autos policiais, tratara-se de um suicídio. Apesar dos indícios apontarem para a existência de uma «pista negra» – ou seja, a implicação de núcleos de extrema-direita no atentado – essa hipótese foi debilmente investigada. Em 1990, porém, o juiz Salvini decide reabrir o processo, conduzindo as equipas de investigação a novos e surpreendentes resultados.

Sete anos depois, em 1997, os jornalistas Fabrizio Calvi e Frederic Laurent publicam Piazza Fontana – La verità su una strage, no qual relatam o complexo de relações, conluios e objectivos das várias organizações que, de uma maneira ou de outra, estiveram envolvidas na chamada «estratégia de tensão». Desde logo, Ordem Nova, uma pequena organização extremista de direita animada por um vigoroso espírito anti-comunista e pela nostalgia relativamente à República de Saló. Mas não só. O que os autores procuram mostrar, suportados em testemunhos e documentos da época, é que a «estratégia» foi teleguiada por membro da NATO e por elementos no interior do aparelho de Estado italiano, através da Gládio, organização clandestina criada no contexto da guerra-fria e destinada a responder a uma eventual invasão soviética da Europa. Em «Orquestra Negra», o documentário que Jean-Michel Meurice realizou com base na investigação dos dois jornalistas, estes fios aparentemente soltos servem para compor uma trama policial bastante plausível.

Todavia, o filme não se detém numa linha narrativa que é explorada no livro: a existência de uma espécie de internacional neofascista, inspiradora da operação de 12 de Dezembro de 1969, e que tinha a sua sede em Lisboa. Sob a cobertura de uma agência noticiosa com o nome de Aginter Press, escondia-se uma estrutura que cumpria serviços de espionagem e contra-subversão em ligação directa com os serviços secretos portugueses. Havia sido criada em 1966 por Guérin Sérac – um antigo militante da francesa OAS, conhecida pelo modo particularmente cruel como agiu durante a guerra da Argélia – e que em Portugal seria instrutor da Legião Portuguesa e da unidade anti-guerrilha do exército. Aginter albergava ainda a organização político-militar Ordem e Tradição que dispunha de um grupo clandestino destinado – segundo uma definição própria – a «intervir em qualquer parte do mundo para enfrentar as graves ameaças comunistas» (p.71). Com uma rede de informadores espalhada pela Europa, Aginter ministrava, em Portugal, cursos técnicos em campos de treino disponibilizados pela PIDE e pela Legião Portuguesa, proporcionando, em troca, acções em países africanos. O assassinato do líder independentista moçambicano Eduardo Mondlane terá sido uma delas.

A Aginter financiara e preparara, em Itália, o terrorismo de direita ocorrido especialmente entre 1969 e 1974 no âmbito da referida «estratégia de tensão», que, em última análise, deveria levar a uma «situação de antipatia perante os governos e os partidos» (p.83) que culminaria num golpe de estado de cunho nacionalista. Nesta altura, um documento da organização estipula ainda a vantagem de infiltração nos grupos da extrema-esquerda. O Partido Comunista Suíço (Marxista-Leninista), editor do jornal L’Etincelle, terá sido um desses colectivos que mantivera uma ligação estreita com Aginter. Outro caso terá sido a estranha conversão à retórica maoista de uma série de destacados militantes neofascistas italianos – como Mario Merlino e Stefano Delle Chiaie – após uma viagem à Grécia dos Coronéis, onde ocorreu uma reunião de quadros. Com dificuldades de penetrar no território filo-chinês, infiltram-se em organizações anarquistas. O primeiro cria o Círculo 22 de Março e terá sido ele a colocar as bombas em Roma, abrindo espaço à incriminação do grupo. Em Milão, as bombas terão sido colocadas por Delfo Zorzo, militante da secção veneziana de Ordem Nova.

Com o 25 de Abril, Guerin Sérac e os seus colegas refugiam-se em Espanha onde procuram manter vivo o seu objectivo. Nos primeiros anos da década de 1970, Espanha é, aliás, o refúgio de quase todos os italianos implicados na «estratégia da tensão». Recomposta a central neofascista – alimentada agora de agentes policiais dos recém-caídos governos de Portugal e Grécia – dedicam-se, entre outros projectos, à criação de um grupo anti-ETA. Em Fevereiro de 1975, agentes do MFA observam uma reunião do ELP, na qual se encontra Guerin Sérac e alguns portugueses ligados aos ambientes da extrema-direita política e militar. Um mês mais tarde, Eurico Corvacho, em nome do MFA, dava uma conferência de imprensa onde ligava o ELP ao golpe de estado falhado de Spínola, a 11 de Março, e revelava, baseando-se em documentos apreendidos, que a organização se preparava para realizar actos de desestabilização e sabotagem, entre os quais se incluiriam raptos e execuções de expoentes do MFA e de movimentos de esquerda ou interferências com a imagem de Nossa Senhora de Fátima nos discursos de Vasco Gonçalves e Costa Gomes (p.186). Nos anos seguintes, Sérac e o seu grupo iriam ainda actuar activamente em Angola, Argélia e Espanha. Entretanto, as investigações sobre o «Massacre de Piazza Fontana», reabertas pela enésima vez, concluem em 2005 pela absolvição dos arguidos levados a tribunal.

Miguel Cardina

Fabrizio Calvi e Frederic Laurent (1997), Piazza Fontana. La verità su una strage. Milano: Mondadori, 340 pp. [ISBN 88-04-40698-4]
Jean Michel Meurice (1997), Orchestre Noir. Documentário baseado na investigação de Fabrizio Calvi e Frederic Laurent (2x55mn.).

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