Passado/Presente

a construção da memória no mundo contemporâneo

Cão Andaluz

Por Maria Manuela Cruzeiro

Só se possuem eternamente os amigos de quem nos separamos.
Marguerite Yourcenar

Cão AndaluzO Cão Andaluz, título estranho, roubado à dupla sagrada do surrealismo Buñuel/Dali, é, como os dois anteriores livros de Jorge Seabra, um regresso ao passado com constantes projecções no presente. Uma viagem em voo rasante, com altos e baixos, avanços e recuos, em que a proximidade do olhar se paga com a dúvida e a suspeita, por vezes a surpresa e o desconcerto, de ver o que se não tinha visto, sem que isso resolva nada do que ficou por resolver.

O passado, pois – continuando no domínio da navegação aérea – como uma espécie de caixa negra da memória, o centro de todos os centros, enigma ou oráculo cujas falas, sendo as mesmas, são sempre diferentes, porque diferentes são as perguntas que o tempo lhe vai fazendo.

As primeiras páginas do livro advertem-nos quanto ao grau de perigosidade e também de ambiguidade desse desafio. Os gestos, os rostos e as histórias que a memória resgata do esquecimento, trazem o calor de um olhar íntimo e solidário, mas também o verde frio da angústia e da dúvida insidiosa: «um verde-escuro de abismo, verde-sombra das árvores na tempestade, verde-verme de podridão» (p.11). Uma radical suspeita ameaça, pois, todas as nossas convicções, actos ou juízos porque «na vida há curvas e cotovelos que fazem parecer ser o que nunca fora, uma realidade que constantemente se ilude» (p.184).

Por isso, muito do que guardamos do passado são apenas as várias camadas, por vezes ratoeiras, de que a memória se serve para nos desviar do essencial, do que resta após o esvaziar de todas as caixas de papelão em que ela é arquivada: «Toda uma história. Ou todo o amor. Ou toda a verdade. Ou toda a traição. O que se quiser escolher.» (p.15)

E quem o pode fazer? Os próprios actores envolvidos na trama de acontecimentos narrados, fatalmente reféns da sua própria versão? Fatalmente subjectiva e parcelar? Ou alguém exterior ao labirinto em que a vida os enredou, uma espécie de narrador omnisciente?

Entre uma e outra, aparece-nos uma alternativa, tão ao gosto de Jorge Seabra: o inspector policial. Mas um inspector diferente: Júlio Reis, assim se chama, andara por Coimbra naqueles anos de brasa de 60-70, fizera a guerra colonial, que lhe causara um efeito de «abcesso de fixação, um termo da medicina antiga que designava o processo de criar uma infecção limitada, de forma a aumentar as defesas para resolver outra mais grave» (p.59). De lá trouxe uma sede de justiça e um sentimento misto de compreensão e revolta. Além disso, «lera Simenon e Freeling com gosto, apreciando também o inspector Jaime Ramos do Francisco Viegas» (p.57). Mas não era isso, ou não era sobretudo isso, que o tornava tão especial, pelo menos para os seus colaboradores: «A razão residiria nos olhos (…). Uns olhos sinceros, humanos, olhos de auxílio. Porque não seria nenhuma técnica que aprendessem na formação, ou só com a experiência, embora o inspector também a utilizasse. Talvez fosse porque não lhes mentia, e eles deviam perceber essa honestidade, essa espécie de afecto que os queria perceber, que queria fazer o que pudesse para consertar o erro» (p.36).

Um inspector que queria perceber os outros, porque se queria perceber a si mesmo. Que, por entre casos de polícia banais, como assaltos a bombas de gasolina, se confronta com um crime nada banal, não pela sua especial violência (que essa é quase normal) mas pelo que introduz de anormalidade na sua vida normal e na do seu círculo de amigos.

Um crime? Ou um acidente? É justamente em torno dessa dúvida vital que toda a narrativa avança, de par com a intriga policial. Um eficaz expediente do autor, já testado com êxito nos dois livros anteriores. Por entre reflexões sobre o quotidiano, sobre as relações humanas, feitas de pequenos prazeres secretos ou partilhados (a gastronomia à cabeça), de pequenas conquistas ou perdas, de amores mais ou menos felizes, dos vários tons da alegria, como da tristeza, da carência, ou do abandono, as personagens crescem e quase insensivelmente vêm-se num frente a frente consigo mesmas, com o presente e o passado. Uma espécie de jogo de espelhos, ou de jogo de verdade ou consequência, de altíssimo risco. E nesta fase, neste patamar de exigência, de que necessita antes de mais o investigador para sobreviver e o escritor para o ser, se joga o destino de ambos, e se confirma, em minha opinião, o lugar do Jorge Seabra como romancista, e não apenas como um talentoso contador de histórias.

O inspector Júlio Reis é pois, quanto a mim, o seu alter-ego literário. Não será por acaso que essa personagem está presente nos seus três livros, e nos dois anteriores, até com o mesmíssimo nome: Júlio de Matos. Aqui é também Júlio, mas Reis: Júlio Reis, irmão-gémeo ou pelo menos parente muito próximo de Júlio de Matos. Na verdade, é através dos seus olhos que a realidade é captada e dissecada até ao absurdo. Perícia do investigador, que progride colado a cada sinal, a cada pista, a cada palpite? Talento do escritor que com igual persistência, em paralelo, viaja pelos obscuros recantos da alma humana? Une-os, afinal, a curiosidade voraz, a perseguição compulsiva de sentido para a vida e para a morte. Poderão, pois, ser para ambos as sábias palavras de Sofia: «Se alguma dúvida, racional ou não, uma intuição, um palpite te faz remoer a questão, tornas-te obsessivo, um perseguidor compulsivo do que falta, até encontrares uma resposta que te seja satisfatória, mesmo que não o seja para os outros» (p.160).

Dois acontecimentos-limite, separados no tempo e no espaço, ligam o fio da narrativa, ou são ligados pela investigação de Júlio Reis: a tentativa de assassinato de Mário Freitas, no Algarve, na actualidade; e a morte acidental de Rita Maia, em Coimbra, em 1970. Pelo meio, uma vasta galeria de personagens, de episódios, de ambientes, se agrupam em torno de dois triângulos estruturantes: o triângulo espácio-temporal formado por Aveiro-Coimbra-Algarve; e o triângulo amoroso Mário-Luís-Elisa, que o destino juntou «no mesmo caldeirão como se se desenhasse uma teia, o emaranhado de uma rede, um aperto de jibóia» (p.120).

Aveiro é a infância. Tempo mítico de que só se pode falar através dos sons e dos cheiros primordiais, e de uma paleta de cores tão viva e luminosa, que o pântano verde onde se afoga a vida, jamais o contaminará. Coimbra, a juventude, espaço e tempo de todas as iniciações e aprendizagens. Cidade sem muros nem ameias (do saudoso Zeca), cidade fulgorosa e limpa, a Coimbra já de angústia, mas ainda festiva, da excitação da audácia, do gosto do risco a temperar e a selar a amizade. Afinal, «éramos jovens, e na juventude os pequenos negócios, as pequenas concessões, as pequenas misérias não conseguem inquinar a alma lisa, isenta de cicatrizes» (p.49), escreve Mário para Luís dois dos vértices do triângulo, referindo-se precisamente a Elisa, o terceiro.

Estavam todos do mesmo lado, é certo, mas não da mesma maneira. A militância política tinha vários degraus, e os últimos exigiam coragem e heroicidade suplementares. E, apesar de quase insensível na altura, essa diferença era já um invisível rio subterrâneo que na idade adulta haveria de engrossar.

Afinal, já em Coimbra existia Luís, o do instinto predador e alma céptica, Elisa, condenada a sucumbir à voragem do carrossel social e às espessura das barreiras sociais (apesar do carácter generoso e impulsivo da paixão), Rita, e «o cheiro da traição, a mancha verde, as maçãs podres, o ambiente de suspeição» (p.78).

Algarve, cenário em que a plenitude da paisagem agrava a solidão, é o tempo da idade adulta, atravessado já pela asa da morte. É também num outro registo, o retrato de um presente de deceptividade e desencanto, requiem por tantos companheiros e tantos ideais desbotados pela vida, pela vidinha, ou pela vidraça. Alguns morreram, outros estão mortos sem o saber, e Mário, o sobrevivente, evoca-os e, de certa maneira resgata-os, porque aprendeu que «a amizade tinha razões complexas, não completamente compreensíveis, e por vezes paradoxais, que persistiam no tempo e resistiam a um desequilíbrio no balanço racional de virtudes e defeitos. Havia um tribunal afectivo que absolvia o erro e o integrava na tolerância de um sentimento prevalecente e favorável» (p.113).

Este é, pois, um belíssimo livro pessoal sobre a amizade. Não idealizada, mas vivida, sofrida, com todas as contradições, vicissitudes, encontros e desencontros, quase traições, de que, misteriosamente, ela é feita. E sendo um livro pessoal (não direi autobiográfico, porque todos o são afinal!), é também um livro colectivo em co-autoria secreta de uma multidão de anónimos, que pertencem à mesma geração do Jorge Seabra. Vivos ou reconvertidos, perdidos ou mortos, todos eles cabem, afinal, nos versos de Sofia: «Tive amigos que morriam, amigos que partiam. / Outros quebravam o seu rosto contra o tempo.»

Jorge Seabra (2007), O Cão Andaluz. Santa Maria da Feira: Calendário de Letras. 262 pp. [ISBN: 978-972-8985-03-5]

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