Passado/Presente

a construção da memória no mundo contemporâneo

Cinzento esconjurado

Se por outra razão não fosse, O Saudoso Tempo do Fascismo, de Hélder Costa, valeria pela capa: uma foto do gigante de Manjacaze e do anão de Arcozelo – respectivamente, o homem mais alto e mais baixo do mundo, segundo certas edições do Guiness Book of Records – no velório de Salazar [1]. Lado a lado, em pose tensa e respeitosa, estes filhos que a nação passeou como aberrações, vêm dar o último adeus ao ditador. Por detrás da luz central – a vela acesa de um círio – descobrem-se, perfiladas, as forças (ainda) vivas: um chapéu da polícia militar, um lenço da Mocidade Portuguesa, os botões reluzentes de uma farda composta.

O livro é, obviamente, mais do que o seu delicioso embrulho. Escrito naquele tom descontraído de quem domina a velha arte de contar histórias, O Saudoso Tempo do Fascismo é uma colectânea de relatos situados na fronteira entre o memorialístico, o pedagógico e o humorístico. Recortes do tempo que falam dos bailes e do «arame farpado», da emancipação das mulheres, das críticas à praxe coimbrã, das arrogâncias do poder e do seu escarnecimento, das experiências teatrais, da contestação à guerra colonial, das peripécias que rodearam um inevitável «salto» para Paris. Histórias contadas com uma deliciosa dose de humor e ironia. Veja-se o exemplo da tentativa de captura do autor pela PIDE – «15 gajos de metralhadoras, partiram os teus móveis, levaram tudo» – que Hélder Costa recorda do seguinte modo:

Comecei a rir, a pensar no ódio dos Pides quando entraram no meu quarto. Eu tinha preparado um cenário para lhes fazer perder a paciência. Em cima da secretária, um livro aberto de Mao Tsé-Toung sobre tácticas de guerra, e em cima do guarda-fato tinha posto um pacote com a indicação «não mexer».
Dentro do pacote estava um enorme caralho das Caldas, com um lacinho cor de rosa… coitados, é natural que me tivessem partido a mobília… um grupo de bons rapazes amantes da Pátria e tementes a Deus, católicos, apostólicos, Romanos, com certeza habituados a transportar o andor em Fátima, funcionários da toda impune, poderosa e terrífica Polícia de Investigação e Defesa do Estado, a serem gozados por um puto estudante de Direito!

Editado pela Parvoíces – que é como quem diz, por obra e graça do escriba – o livro ocupa cerca de duas horas de leitura, que é mais ou menos o tempo necessário para que o riso e a memória esconjurem os tons cinzentos da época.

Hélder Costa (2005), O Saudoso Tempo do Fascismo. Edição: Parvoíces.


[1] Em 2001, Manuel da Silva Ramos publicou Viagem com Branco no Bolso, um romance centrado na vida destas duas personagens.

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