Passado/Presente

a construção da memória no mundo contemporâneo

Clássicos para todos

Por Adriana Bebiano

Dentro do fenómeno recente do interesse popular pelo passado, merece particular destaque a produção que tem por matéria a Antiguidade Clássica. Toma diversas formas: desde romances e filmes que popularizam e reflectem versões estereotipadas das culturas clássicas, passando pela produção teatral de versões – por vezes, reescritas – dos dramas clássicos, pela publicação de tradução de poesia e mesmo pelo ensaio. Este representa talvez a vertente mais interessante do fenómeno, uma vez que, ao contrário da narrativa, da poesia ou do teatro, o ensaio tem por público-alvo, em regra, o círculo restrito dos especialistas de uma área específica do saber. Porém agora acontece que podemos encontrar ensaios que, sendo da autoria de académicos especialistas, são de leitura acessível aos leigos. Entre as publicações portuguesas recentes realço títulos como Grécia Revisitada (2004), de Frederico Lourenço, ou Caminhos do Amor em Roma (2006), de Carlos Ascenso André.

GoldhillAmor, Sexo e Tragédia. A Contemporaneidade do Classicismo (2006) é justamente um livro deste tipo. Trata-se da tradução portuguesa de Love, Sex & Tragedy (2004), da autoria de Simon Goldhill, classicista de Cambridge. A modulação que o subtítulo em português introduz revela-se mais adequada ao conteúdo do que o título inglês, porventura sedutor para um público mais amplo. O que Goldhill pretende demonstrar é precisamente a contemporaneidade das culturas clássicas e, mais ainda, a importância do (rigoroso) conhecimento dessas culturas para a compreensão da nossa própria actualidade, em questões como o amor, o sexo ou a tragédia – prometidos no título – mas também a política, a guerra, a língua e práticas culturais diversas.

Alguns dos exemplos citados e discutidos por Goldhill serão do conhecimento comum. A ideia de democracia, por exemplo. Ou o «amor grego», forma poética de designar a homossexualidade. No entanto, mesmo nos exemplos relativamente banais, Goldhill preocupa-se em corrigir as concepções simplificadas das culturas grega e latina, que através dos tempos têm sido usadas por políticos e por grupos sociais diversos como forma de legitimação das suas aspirações e das suas práticas. Lembra a importância de Atenas para os nacionalistas românticos, o culto de Esparta na Alemanha nazi, ou a forma como Hollywood usou as culturas clássicas para «fazer política» durante a Guerra Fria, com filmes como Quo Vadis? (1951), Ben-Hur (1959), Spartacus (1960), Cleópatra (1963), ou A Queda do Império Romano (1964).

As apropriações do passado referidas são exemplares da tendência geral: sublinham as semelhanças entre o passado clássico e o presente, apagando, nesse processo, as rupturas e as diferenças. O perigo destas rasuras, segundo Goldhill, reside na «naturalização» daí resultante. Dito de outro modo: se o passado e o presente se equivalem, logo, «é assim que as coisas são» e a possibilidade de poderem ser diferentes não se coloca. Um conhecimento deficiente do passado torna-nos mais vulneráveis à retórica que apresenta como naturais comportamentos que resultam, afinal, de opções.

Goldhill chama justamente a nossa atenção para as diferenças apagadas nas versões simplificadas dos clássicos. Tomemos, por exemplo, atitudes comuns perante o corpo e a sexualidade. Se, por um lado, a nossa concepção da beleza física é uma herança clássica – na valorização da simetria e a harmonia, bem como na mais prosaica atenção dada à dieta e ao ginásio – por outro, o corpo belo grego era, por excelência, o masculino. Ora, esta é uma representação que não se ajusta às práticas sociais e culturais contemporâneas, nas quais o feminino ocupa um lugar bem mais visível. Na forma como pensamos o desejo, Goldhill situa ainda uma ruptura importante: na Grécia Antiga – e isto vale tanto para as relações heterossexuais como para as homossexuais – não há a ideia de reciprocidade do desejo. Ora, esta é uma ideia que nos é cara, sem que, muitas vezes, tenhamos consciência da sua relativa novidade e das transformações nas relações de poder – tanto entre sexos, como entre classes sociais – que ela traduz.

Se é importante pensar as diferenças e os comportamentos historicamente situados, há figurações que se afirmam pela actualidade. Dois exemplos seriam Sócrates e os gladiadores romanos. Sócrates seria, segundo Goldhill, o «dissidente paradigmático», exemplo para «o intelectual que formula demasiadas perguntas desafiadoras», imagem já apelativa na era do génio romântico, mas que mantém a sua utilidade hoje. Por outro lado, a popularidade dos filmes de gladiadores é vista como sintoma dos «prazeres experimentados ao observar a violência praticada no corpo humano» também pela nossa sociedade. Sendo o gladiador uma figura claramente situada num passado que é apresentado como distante e já ultrapassado – afinal, não somos bárbaros – o fascínio que exerce na nossa cultura é motivo para uma reflexão sobre as posições ambivalentes que fenómenos de violência e as suas representações provocam nas sociedades ocidentais contemporâneas.

A defesa da contemporaneidade do classicismo não é feita em nome de uma qualquer concepção elitista de cultura: trata-se de uma questão política que diz respeito a todos os cidadãos. Na formulação de Goldhill, «para saber quem somos, e para onde vamos, precisamos saber de onde vimos». Reside aqui a importância deste livro: o conhecimento do passado é importante para as opções a tomar sobre o futuro, e este conhecimento é demasiado sério para ser deixado exclusivamente nas mãos das elites.

Simon Goldhill (2006), Amor, Sexo e Tragédia. A Contemporaneidade do Classicismo. Tradução de Maria Graça Caldeira. Lisboa: Aletheia Editores. 403 pp. [ISBN: 989-622-033-6]

Uma resposta to “Clássicos para todos”

  1. cfreitas said

    O facto que me intriga: Estarão as referidas “não elites” preocupadas com este facto? Terão “mãos” para abarcar que esse “conhecimento é demasiado sério para ser deixado exclusivamente nas mãos das elites” como afirma?

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