Passado/Presente

a construção da memória no mundo contemporâneo

Cuba, a ilha imaginária

ppA imagem de Cuba como sinónimo de utopia, festa e liberdade deve-se, em grande medida, ao contexto específico dos anos sessenta e aos debates que então atravessam a esquerda. Cuba representava, simultaneamente, uma afronta veemente ao imperialismo americano e a possibilidade de um socialismo alternativo àquele que era proposto por Moscovo. Como em nenhum outro caso, os intelectuais ocidentais desempenharam um papel fundamental na disseminação deste fascínio pela ilha caribenha. O último livro de Iván de la NuezFantasia Roja. Los intelectuales de izquierdas y la Revolución cubana – fala precisamente deste «cubanismo de uma zona da esquerda ocidental» (p.15), que ainda hoje parcialmente se mantém, agora numa mistura de admiração voluntariosa pelo regime de Havana e de recuperação de temas próprios de um tempo pré-revolucionário.

Iván de la Nuez (n. 1964), um escritor cubano radicado em Barcelona, explora neste texto o fascínio dos intelectuais ocidentais comprometidos com Cuba, obsessão essa que «talvez mereça uma explicação mais psicológica do que política, mais erótica do que ideológica, mais pessoal do que social» (p.11). A viagem é feita através das representações construídas por gente tão diversa como Jean-Paul Sartre, Régis Debray, Giangiacomo Feltrinelli, Oliver Stone, Sydney Pollack, Wim Wenders, Graham Greene, Max Aub, Ry Cooder ou David Byrne. Apesar das profundas diferenças assinaladas, todos eles ajudaram a criar uma ilha paralela, que este ensaio revisita de forma crítica.

O autor esclarece, logo a abrir, que o termo «fantasia» não é utilizado em sentido pejorativo, como uma imagem enganosa, mas sim, na linha de Peter Sloterdijk, como uma «ideia que se faz verdadeira a si mesma, como uma ficção operativa» (p.14). Deste modo, a sedução por Cuba – mais próxima da utopia do que do quotidiano –, foi também a responsável pela criação de ideias que ajudam a explicar a Revolução. Ao mesmo tempo, demonstram um punhado de teorias que pertencem, de pleno direito, à história dos discursos neo-coloniais. Apostadas em aprofundar a crítica ao capitalismo, esta vasta trama de vozes empenhadas raramente esteve interessada em conhecer com profundidade as dinâmicas reais do Terceiro Mundo, como o denunciaram, em tempos e termos diferentes, Conrad, Guevara ou Said.

Se, em 1958, Graham Greene desenvolve, na obra Our man in Havana – adaptado ao cinema no ano seguinte, por Carol Reed – um retrato paradigmático da Cuba pré-Fidel, na qual se destaca a permissividade erótica, o autoritarismo político e um olhar objectivador sobre as populações, apenas dois anos depois, Sartre inaugura um outro modelo: o de Cuba como o «país heróico da Revolução» (p.53). Na visita de Sartre ao gabinete de Guevara, então ministro de Fidel, um gesto – aquele em que o comandante argentino acende um charuto ao filósofo francês – estabelece simbolicamente a imaginada relação entre intelectuais e revolucionários. Sartre, o homem da teoria, recebe o fogo das mãos de Che, momento que se multiplicou nos anos seguintes, nas «centenas de atletas da esquerda ocidental que viajaram a Cuba, em busca da sua utopia pessoal» (p.10).

Actualmente, a reactualização do fascínio pela ilha tem sido feita através de uma espécie de reinvenção do mundo pré-revolucionário: «carros vintage, vestuário de época, sabor tropical, regresso das sonoridades típicas, a gerontocracia como portadora da verdade» (p.119). Características mais próximas da Cuba de Greene do que da de Sartre. Na opinião de Nuez, a publicidade turística tem vindo a acentuar vertiginosamente este percurso, transformando a paisagem em cenografia e a população em mais um elemento a ser fotografado e catalogado.

Por outro lado, as batalhas antiglobalização e o renovado gosto pelos localismos têm aguçado o interesse pelas origens, processo particularmente visível no campo musical, cujo exemplo maior é a concepção que preside a Buena Vista Social Club, disco e filme de Ry Cooder e Wim Wenders. Desejosos de encontrar formas incontaminadas pelas lógicas de consumo anglo-saxónicas, os novos cubanófilos têm vindo a alimentar uma conduta cultural «reaccionária» (p.18), mais preocupada com as origens e com a pureza, do que com a errância e o cosmopolitismo.

O livro termina com uma deliciosa deambulação na Berlim pós-comunista, onde se cruzam algumas personagens improváveis, como Paul Lafargue, autor de O Direito à Preguiça, cubano «incompreensivelmente não venerado» (p.143) no seu país. Nesta linha, Iván de la Nuez aponta algumas reflexões avulsas sobre a necessidade de recuperar o gozo e o ócio como armas revolucionárias, reconhecendo ao mesmo tempo que não haverá futuro para Cuba que não passe por «eleições plurais, direitos individuais, regresso dos exilados, fim da perseguição por ideias políticas, desmantelamento da censura ideológica, etc.» (p.126). Porque, como afirma Lafargue ao sogro, Karl Marx, numa conversa sobre os limites do cortejamento, «amamos e amaremos a liberdade, incluindo nela os meus ímpetos» (p.142).

Iván de la Nuez (2006), Fantasía Roja. Los intelectuales de izquierdas y la Revolución cubana. Barcelona: Debate, 143 pp. [ISBN-10: 0-307-39124-8]

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