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a construção da memória no mundo contemporâneo

Fátima revista

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Nestes dias de calor e praia, o Público tem vindo a divulgar uma selecção de textos retirados da Enciclopédia de Fátima, obra colectiva editada pela Principia e organizada por D. Carlos Azevedo, bispo auxiliar de Lisboa, e pelo cónego Luciano Cristino, ligado ao Santuário de Fátima. Numa sinopse da obra, pode ler-se que esta pretende ser um «estudo pioneiro e interdisciplinar que aborda de forma multifacetada, científica e rigorosa os acontecimentos de Fátima». Um dos organizadores afirmou ainda que se trata de «oferecer aos interessados uma interpretação aberta, serena, crítica, teologicamente fundada e historicamente objectiva». Não vi à venda este Dicionário de mais de 600 páginas e suspeito até que seja difícil encontrá-lo nas livrarias que frequento, mas depois de ler os passos seleccionados fiquei com alguma curiosidade. Não podendo fazer um comentário crítico detalhado sem o conhecer melhor, existe porém alguma coisa, nos fragmentos que tenho lido, que me deixa razoavelmente apreensivo.

É verdade que os colaboradores convocados para as 120 entradas serão «especialistas de diversas áreas – história, teologia, arte, sociologia, etnografia e urbanismo, entre outras». Alguns deles são pessoas cujo trabalho parcialmente conheço e que respeito. Mas, dada a origem da obra e os seus coordenadores, reservo alguma perplexidade a propósito do resultado prático dos critérios que terão determinado a escolha. De facto, a maioria dos fragmentos que pude ler evidencia essencialmente uma preocupação em «actualizar» a imagem de Fátima – que tratam, aliás, como «acontecimento», e não como fenómeno cultural – colocando-a numa perspectiva que exclui a dúvida em relação ao discurso oficial da Igreja católica a propósito da sua «mensagem». O que me pareceria absolutamente legítimo não fora este upgrade ser apresentado de uma forma que se pretende «científica». E aqui é que poderá entrar-se num terreno escorregadio e algo perigoso.

Dois exemplos apenas, entre outros possíveis, retirados dos passos que o Público reproduziu.

Na entrada «Imprensa e Fátima», assinada pelo sociólogo António Teixeira Fernandes, por exemplo, fala-se da «crítica verrinosa» da imprensa republicana, «do livre-pensamento e da Maçonaria», que «procurava a todo o custo ‘desmascarar’ o ‘embuste’ [as comas são do autor] de Fátima». Mas fala-se também da imprensa católica como «prudente nas suas posições e afirmações», precisamente numa altura em que esta, após uma fase defensiva na qual se colocara durante os anos iniciais da Primeira República, passara a um então já nítido contra-ataque. Colocada nestes termos – e será nestes termos que os leitores a tomarão – esta forma de abordagem induz, obviamente, uma tomada de posição que, apesar de diferente nos termos, retoma a leitura tradicional a propósito do carácter «perverso», «diabólico», do republicanismo.

Um fragmento da entrada «Guerra», da autoria do historiador José Manuel Sardica, é, para mim, ainda mais perturbante. Nele se afirma que, nos anos 60, «o problema da guerra colonial em Portugal relançava e reforçava o repúdio fatimista dos conflitos armados», e que, «para desespero do catolicismo mais integrista e politicamente alinhado com o regime», a Cova da Iria «assumiu os contornos de ‘instância de identificação nacional’ crítica do regime», como local de «esperança, prece, consolo ou agradecimento de soldados (…) e de estropiados», tendo-se «Nossa Senhora de Fátima» transformado «numa ‘protectora dos combatentes do Ultramar’». A memória pessoal que tenho, bem como a colectiva à qual tenho acesso, apontam em sentido contrário – relembro que o país dos «três-éfes» existiu – e textos entretanto publicados por ex-«católicos progressistas», como José Bénard da Costa ou Joana Lopes, não deixam dúvidas sobre a forma como, com a anuência da maioria esmagadora da hierarquia católica, o regime se apropriou simbolicamente de Fátima. Dizer o contrário será, no mínimo, uma forma de revisionismo histórico que me parece necessário moderar.

Estes são, entretanto, apontamentos muito parciais, que gostaria de poder emendar. Fico à espera de conhecer o volume no seu todo e de confirmar – ou de remover – as cautelas que os trechos divulgados pelo Público me impõem.

[Original e comentários, com alguns contributos, em A Terceira Noite]

 
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