Passado/Presente

a construção da memória no mundo contemporâneo

História e fotografia em exposição

Por Sandra Guerreiro Dias

O Museu de Fotografia de Reiquiavique, na Islândia, tem em exibição a exposição de fotojornalismo Afternoon Press Photography in Iceland: 1960-2000, uma retrospectiva que materializa a fotografia como suporte documental da recuperação narrativa da história do passado recente daquele país.

Na origem do projecto encontra-se o conceito de fotografia jornalística enquanto objecto simultaneamente estético e documental, que, pela sugestão e pela evocação concisa e permanente, resgata fracções de segundo de momentos que são parte integrante da história. Como referiu Susan Sontag, o jornalismo fotográfico tem desempenhado um papel insubstituível na forma como condiciona e influencia a nossa percepção dos eventos contemporâneos.

Entre os muitos acontecimentos evocados pelas mais de 150 fotografias expostas nesta galeria da capital islandesa, encontra-se a muito controversa entrada da Islândia na então recém-formada NATO. A 30 de Março de 1949, em Austurvöllur, nome do famoso parque situado em frente do edifício do parlamento islandês, organizava-se um protesto popular de contestação contra a admissão da Islândia naquela organização. Os confrontos com as forças policiais e os célebres cartazes exibindo as frases «Ísland úr NATO og herinn burt!» («Islândia fora da NATO e fora com a Armada!», referindo-se aos navios da marinha de guerra norte-americana que então ocupavam a base militar de Keflavík), figuram como representações simbólicas marcantes da história de uma nação cuja independência havia acabado de ser conquistada (1944). Não será alheio a esta tomada de posição da população o facto da Islândia ser ainda hoje um dos poucos países do mundo que não possui um exército oficial.

O histórico encontro entre Gorbachev e Reagan na Islândia em 1986, cujas negociações conduziriam à assinatura do Tratado sobre Mísseis Nucleares de Alcance Intermédio em 1987, é outro dos destaques desta exposição. De 1986 são também as fotografias do afundamento de vários navios de caça à baleia nas docas de Reiquiavique, acção levada a cabo por activistas que assim se manifestavam contra uma prática então comum naquele país. Disponíveis estão igualmente fotografias do dia do ano de 1989 em que a cerveja foi legalizada na Islândia e do regresso a casa dos primeiros e antiquíssimos manuscritos islandeses que desde o séc. XVI se encontravam integrados em colecções dinamarquesas (o processo de devolução deste património arrastou-se, aliás, entre os anos de 1973 e 1997).

Além de lançar a reflexão acerca do modo como o trabalho dos repórteres fotográficos islandeses tem vindo a reflectir a história da Islândia, esta exposição desafia a recuperação da identidade de uma nação que se oferece através do espaço evocativo de um passado que de certa forma se materializa na memória recuperada de cada um dos acontecimentos revistos. Segundo Gunnar V. Andrésson, um veterano da fotografia, a fotografia mais não é do que a captação de uma narrativa que se concretiza no diálogo entre passado e presente, ensaiando a explicação simultânea de um e do outro, de um através do outro. Esta mostra fotográfica constitui, além disso, um pretexto para pensar a história no que dela é decifrado pela fotografia, reforçando o valor de uma abordagem histórica que integre sistematicamente o contributo da produção fotográfica contemporânea.

 
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