Passado/Presente

a construção da memória no mundo contemporâneo

O celibatário e as mulheres

celibato

As ditaduras tendem a criar sistemas de valores rígidos no centro dos quais, frequentemente, o ditador se representa. Exímio neste jogo de simulacros, Salazar soube projectar-se, não como ícone, mas como um espectro indissociável do pulsar ideológico do regime. Solitário como um padre, asceta como um santo, Salazar ficcionou-se ausente do lugar que ocupava através de uma «retórica da invisibilidade», como lhe chamou José Gil. O poder era um vício corruptor que o ditador aceitava suportar como quem sofre de uma vocação sacerdotal.

Esta imagem difundiu-se junto de variados quadrantes políticos. Para os defensores do Estado Novo, Salazar governava com a sabedoria e a austeridade que apenas se permitem aos estadistas que ousam não ter vida privada. Por seu turno, militares oposicionistas, como Henrique Galvão e Humberto Delgado, criticavam o ditador por ter destruído a virilidade do povo português. Na sua Carta Aberta ao Dr. Salazar, publicada no Brasil nos anos 60, Galvão acusa-o de ter desvertebrado «oito milhões de portugueses de quem fez pobres celenterados, que para aí andam ao sabor das correntes do Fado, de Fátima e do Futebol». Para a área do velho republicanismo, o «fradalhão de Santa Comba» era o reflexo consequente de um dado país – rural, beato e estéril.

Numa altura em que alguns rumores afiançam uma votação honrosa no concurso televisivo Grandes Portugueses, uma série de livros editados nos últimos meses de 2006 permitem identificar algumas das facetas menos conhecidas do ditador. Neste particular, destaque-se Os Amores de Salazar, de Felícia Cabrita, que retrata, em forma de reportagem alargada, as «façanhas amorosas» de um homem que era tudo menos «imune às imposições ou disposições da carne». Ainda que recorrendo a algumas adjectivações porventura forçadas – «Troca-Tintas», «Casanova provinciano» ou «Don Juan» são expressões que aparecem frequentemente a colorir o texto – a autora consegue ir além do registo meramente vouyeristico. Fazendo uso de fontes pouco visitadas – cartas, diários, agendas e depoimentos –, Felícia Cabrita revela o outro lado desse espelho no qual o ditador se quis dar a ver.

Na verdade, os enlaces amorosos de Salazar não são propriamente uma novidade. Já Franco Nogueira, antigo ministro do Estado Novo e autor de uma volumosa biografia de Salazar, havia desmistificado a imagem do puritano: «ao contrário do que se supõe, existiram umas quatro ou cinco mulheres, desde Felismina de Oliveira, dos tempos de seminário, até outras a que se dedicou em idade mais madura (…) muito para além do platonismo.» Felícia Cabrita duplica a lista e revela o rosto das mulheres que com ele se cruzaram, ao mesmo tempo que esboça um retrato alternativo desse «falso beato» que sabia que «o amor era passageiro».

Crescido no meio de mulheres (a mãe e as irmãs são as presenças marcantes da infância), Salazar apaixona-se aos 16 anos por Felismina de Oliveira, dois anos mais velha que ele, e que se lhe revelará fiel e submissa, servindo durante décadas como informadora pessoal junto das elites locais de Viseu. Nesses anos de juventude, vividos entre Santa Comba Dão, Viseu e Coimbra, troca a farpela de seminarista pela capa e batina e tem namoradas. Em 1928, já ministro das Finanças, o jornal O Povo chega mesmo a noticiar o matrimónio com Júlia Moreira. Mantém, a partir daí, vários relacionamentos amorosos, vividos com um fulgor hedonista que contrasta com a glorificação da família e do lar que em público defendia. Vive um período «pecaminoso» com Maria Laura. Leva a sério os horóscopos elaborados por Maria Emília Vieira que, «para além de amante, tornar-se-ia com o tempo outra das informadoras de Salazar». Relaciona-se com Carolina Asseca, de quem chega a estar praticamente noivo. Enleia Christine Garnier numa teia de seduções, ao mesmo tempo que controla o livro que a francesa se propusera escrever sobre a sua vida.

Curiosamente, de entre as mulheres que se cruzaram com Salazar, terá sido D. Maria, a governanta, quem melhor soube posicionar-se nos bastidores escorregadios do poder. Marcada por uma paixão pelo ditador que nunca consumou – morreu virgem, segundo comprovação ginecológica realizada após o óbito –, Maria de Jesus ocupava o lugar tradicional da mulher na ficção familiar de S. Bento: influenciava, cuidava, geria. «A mulher de quem tanto se falou mas que o amou à distância». Foi ela quem, naquele dia de Verão de 1970, lhe vigiou os últimos suspiros do corpo.

Miguel Cardina

Felícia Cabrita (2006), Os Amores de Salazar. Prefácio de Diogo Freitas do Amaral. Lisboa: A Esfera dos Livros. 5ªedição [ISBN 989-626-034-6]

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