Passado/Presente

a construção da memória no mundo contemporâneo

O salazarismo, os ismos e o debate

Tiago Barbosa Ribeiro

Nas últimas semanas, vários blogues portugueses têm discutido o corpo ideológico e doutrinário do salazarismo. Mais recentemente, partindo de um post no Kontratempos, o debate cruzou diferentes olhares e sensibilidades. Não se pretendendo uma enumeração exaustiva de todas as intervenções sobre este tema, nem sequer recuperando outras discussões que ocuparam a blogosfera nos últimos meses, reunem-se aqui para consulta e memória futura os textos mais citados e referenciados a partir de um ponto comum.

 

– Ponto de partida –

 

Kontratempos, 6.Mar.07 | Tiago Barbosa Ribeiro

«Que fascismo para Salazar?

A ligeireza histórica da RTP e do seu programa sobre alguns portugueses da nossa história só turva o que se tem dito e escrito sobre Salazar, em particular o tal museu em Santa Comba Dão. No cartaz que promove o televoto em Salazar, a RTP pergunta: «Ditador ou Salvador?». Não percebo onde está a dúvida. Que fascismo?Salazar dirigiu obviamente uma ditadura durante décadas, com censura, polícia política, repressão de dissidentes e arbitrariedade generalizada. A confusão que parece ter emergido sobre esse período da nossa história recente mistura tudo — entretenimento, hagiografia, nostalgia, ideologias — para nada clarificar. Nesse sentido, e muito sucintamente, duas notas.

1. Ainda sobre o museu, pressupondo que ele efectivamente avança, parece-me importante insistir na criação de um espaço que preserve a memória histórica da ditadura (algo que Manuel Maria Carrilho já apoiara enquanto ministro) e que a conte tal como foi. O problema começa logo aí. É que se um espaço crítico e atento à história do Estado Novo deve contrariar o bafio salazarista de alguns, também não pode estar refém da leitura «antifascista» de outros que confundem a luta contra a ditadura com a resistência comunista. São coisas distintas, que não têm sido tratadas enquanto tal e que servem os propósitos de legitimação de quem impõe uma leitura histórica pouco rigosa e ideologizada. Mais: isso ilude uma interrogação que tem sido mantida quase exclusivamente nos círculos académicos: o salazarismo foi um fascismo?

2. Na minha opinião, o salazarismo afastou-se do tipo ideal-fascista que emergiu no âmago da modernidade europeia. Como parte de um ensaio que publicarei brevemente, reproduzo aqui uma passagem já referida no Passado/Presente. Assim, ainda que globalmente identificado no campo político-ideológico do movimento fascista europeu, o salazarismo diferencia-se daquele pelas suas causalidades sociais mas também pela sua própria natureza política e ideológica. Só isso explica a sobrevivência do Estado Novo depois da derrota do Eixo em 1945, num conflito mundial em que se manteve virtualmente neutro. A sua longevidade objectiva-se por um conjunto de factores que são igualmente alicerces de estruturação identitária:

  • A hibridez constitucional, num regime que rejeita a democracia e formula o autoritarismo de Estado mas dota-o de princípios de representação democrática. Reprime a oposição, mas não a suprime tal como a sociologia política entende a concentração patológica autoritária.

  • A consagração de propósitos contraditórios na Constituição. O salazarismo não abole a representação eleitoral, mas perverte-a. Não rejeita a separação de poderes, mas hierarquiza-os.

  • A matriz católica, que restaurou as forças tradicionalistas e permitiu a neutralização das veleidades totalitárias do regime, diferenciando o autoritarismo nacionalista conservador do Estado Novo dos nacionalismos modernizantes da Itália e da Alemanha.

  • Não foi o partido que tomou em mãos o poder nem o partido existiu como estrutura clássica de enquadramento. O Estado Novo foi mais um Estado com partido único do que um Estado de partido único. Nas Bases Orgânicas da União Nacional de 1930 sublinha-se que «a organização e a vida da União Nacional são independentes do Estado» e Salazar chamava à União Nacional uma «originalidade portuguesa» que servia para consensualizar e dominar o Estado, mas não para animar ideologicamente as massas após um movimento pré-regime que em Portugal nunca chegou a existir.

  • A militarização e o milicianismo foram um valor formativo do Estado Novo, mas a Legião Portuguesa e a Mocidade Portuguesa nunca accionaram princípios de violência paramilitar como as brutais Secções de Segurança alemãs ou a Milícia Voluntária para a Segurança Nacional em Itália. O exército português também nunca se aproximou do fascínio militarista que era exercido pelo poderio da Wehrmacht nazi ou do Exército Vermelho comunista.

  • Desejando-se popular, o regime não assentou a sua força em massas politicamente activas ou fanatizadas, procurando antes inverter a mobilização que existiu durante o período da Primeira República.

  • Identificado com o chefe, nem por isso o divinizou.

Quer tudo isto dizer que o autoritarismo salazarista deva ser menorizado ou entendido como um paternalismo conservador, como no cartaz da RTP? Não, de todo. Quero simplesmente concluir que já é tempo de discutirmos o nosso passado sem complexos, suprimindo tabus no debate académico, numa primeira fase; e na discussão social e política, posteriormente. Porque enquanto o Estado Novo continuar cativo de salazaristas e «antifascistas» é que não saímos de onde estamos.»

Comentários no post

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As Vinhas da Ira, 6.Mar.07 | João Aguiar

«O salazarismo é um fascismo – um comentário

(…) os fascismos surgem sempre derivados do estado de desorganização política das classes dominantes. Ou seja, quando a instabilidade política das ditas elites é colossal, quando não há uma fracção dominante capaz de legitimar um programa político que unifique o conjunto das classes dominantes, afigura-se óbvia a possibilidade de se implantar uma forma de Estado fascista. Este apresenta-se como um Estado acima das classes e dos indivíduos procurando a unidade nacional o que é o mesmo que dizer: 1) que consegue unificar e organizar politicamente as classes dominantes. Salazar e o Estado Novo representaram a pacificação das enormes fricções entre a burguesia industrial (e comercial) e a camada latifundiária (com laivos semi-feudais) que estiveram na base de grande parte da instabilidade política da I República; 2) o fascismo desempenha não só um papel de organização política (de uma parte – restrita – da população) como igualmente desorganiza politicamente a restante maioria. Em Portugal isso é perfeitamente visível na repressão do movimento operário e dos sindicatos e partidos que rejeitavam o novo regime. Em termos de desenvolvimento processual histórico o mesmo se passou na Itália de Mussolini e na Alemanha de Hitler. Ambos solidificaram o que Gramsci e Poulantzas chamaram de bloco no poder. Na Itália entre a burguesia industrial e financeira e a burguesia agrária do Sul. Na Alemanha entre os Junkers que controlavam as terras, a burguesia industrial do Ruhr e a burguesia financeira (Krupp, etc.). Ao mesmo tempo, ambos reprimiram o movimento operário nos mesmos moldes. Se Salazar matou e reprimiu menos tal não invalida a sua profunda semelhança relativamente ao que se passou na Itália e Alemanha. Há diferenças mas de grau e não de natureza. (…)»

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Água Lisa, 6.Mar.07 | João Tunes

«Ainda o fascismo e o salazarismo (1)

O Tiago Barbosa Ribeiro, que aproveito para refelicitar pelo primeiro aniversário do seu excelente blogue, voltou à questão da definição rigorosa, historicamente canónica, sobre a natureza fascista do salazarismo.

A questão tem já algum tempo e foi suscitada por alguns historiadores puristas. Daí para cá, por ter o aliciante de comportar um contributo de precisão, a corrente correctiva que luta contra as generalizações – no caso: a identificação do salazarismo com o fascismo, ou com um tipo de fascismo -, tem vindo a aumentar, começando a generalizar-se, a preferência por definições como ‘ditadura’ (sem mais) e até o termo mais vago de ‘autoritarismo’.

No seu muito bem elaborado post, cuja leitura recomendo, o Tiago Barbosa Ribeiro diz que, na sua opinião, ‘o salazarismo afastou-se do tipo ideal-fascista que emergiu no âmago da modernidade europeia’ e que ‘ainda que globalmente identificado no campo político-ideológico do movimento fascista europeu, o salazarismo diferencia-se daquele pelas suas causalidades sociais mas também pela sua própria natureza política e ideológica’. De seguida, enumera vários pontos do seu argumentário em que explicita as diferenças que detecta entre o modelo salazarista e o modelo fascista.Mas as pechas dos ‘revisionistas’ (que se perdoe a expressão) que, alcandorados no meio académico, pretendem criar a inibição social de se continuar a falar de ‘fascismo salazarista’ (por pecado de falta de rigor), são algumas e delas o Tiago Barbosa Ribeiro não escapa. (…)»

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Aparências do real, 6.Mar.07 | José Manuel Correia (em comentário no post original)

«Ao contrário de muitos outros, o Salazar foi um ditador ‘civilizado’. Nunca envergou qualquer das fardolas das duas organizações para-militares criadas pelo regime, mantendo a vestimenta civil, vaidade a que não escaparam outros seus dignitários; foi muito mais comedido nas opções de vida, fazendo do exercício do poder um dever de servir a pátria e não de se servir dela, rejeitando o fausto e cultivando a poupança (são célebres as solas rotas das botas, a governanta que criava galinhas no quintal e vendia ovos nas redondezas e a meticulosa prestação de contas às irmãs sobre a administração das terras da família); foi muito mais sóbrio na repressão, ficando-se em muitos casos por ‘uns safanões a tempo’, e no número dos opositores que mandou encarcerar e desterrar ou dos assassinatos que mandou perpetrar; desprezava as massas, tinha horror a banhos de multidão e só a contra gosto, de púlpito alto, se prestava ao folclore da saudação romana e das vibrantes manifestações de homenagem que as organizações do regime lhe promoviam; não apreciava os partidos políticos e as suas disputas de galos, tinha obsessão pelo poder não partilhado, e criou o fascismo português como opção ideológica e política servindo-se do poder pessoal e do Estado, de que já gozava, e não através do poder conquistado por um partido fascista, criando uma simbiose curiosa entre o Estado e o Partido Único.»

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Esquerda Republicana, 7.Mar.07 | Ricardo Alves

«O salazarismo foi um fascismo

No Kontratempos, o Tiago Barbosa Ribeiro escreveu um espantoso artigo onde defende que o salazarismo não foi um fascismo. (Felizmente, existem dois excelentes comentários em que os seus argumentos são criticados.) Algumas breves achegas. (…)»

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Rabbit’s blog, 8.Mar.07 | Luís Pedro Coelho

«Salazarismo e Fascismo

Se há uma coisa boa que pode resultar do concurso dos Maiores Portugueses é começarmos a falar do papão e, como qualquer psicanalista de vão de escada nos diria, começar a falar do papão é, em si mesmo, o princípio do exorcismo. O nosso (dos portugueses) papão é o Salazar. Falamos, falamos dele; mas nunca falamos dele (como dos papões). Quando tivermos falado o suficiente, poderemos deixar de falar. Aí, terminará este ciclo e poderá começar um regime que não seja definido por Salazar. Finalmente.

O Kontratempos falou um bocadinho e o Esquerda Republicana respondeu. Como não concordo com nenhum deles, deixo a minha achega. (…)»

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Esquerda Republicana, 9.Mar.07 | Ricardo Alves

«Salazarismo foi/não foi fascismo: mais do mesmo

No Rabbit´s blog, Luis Pedro insiste que «Salazar não era fascista». Resposta breve aos seus argumentos.

1. «Salazar combateu os verdadeiros fascistas portugueses (…) encabeçados por Rolão Preto». E lá voltamos a esta fatídica criatura. Combateu é um verbo demasiadamente forte: arrebanhou-os para o regime quando sentiu que poderiam obrigá-lo a partilhar o poder. E quanto a saber se Rolão Preto era fascista, voltamos ao mesmo: foi monárquico integralista antes e depois da «aventura» nacional-sindicalista dos anos 30, durante a qual não deixou de identificar o «Chefe» com o rei. (…)»

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Kontratempos, 11.Mar.07 | Tiago Barbosa Ribeiro

«Que fascismo para Salazar? – II

1. Retomo o tema do salazarismo e do fascismo, esperando que ninguém entenda replicar a algo que eu não tenha escrito. Insisto desde logo num ponto essencial: o «antifascismo» que alguns gostam de elevar a bandeira histórica conta pouco ou nada para o que aqui discutimos. Durante boa parte do século XX, o poder mundial com sede em Moscovo fez da luta antifascista um programa idelógico constituído — tal como «pacifismo» na década de 1980 — para formatar movimentos unitários sem margem de manobra para além daquela instituída pelo comité central. Em Portugal isso não foi excepção, como Pacheco Pereira demonstra na biografia política de Álvaro Cunhal, e actualmente mantém-se como fonte de legitimação política. A URAP, que não é outra coisa que não o PCP, insere-se no conjunto de movimentos-satélite cuja função é menos preservar a memória do que manter sobre ela um espartilho ideológico.Aí, considerar que o salazarismo possa não ter sido um fascismo equivale basicamente a dizer que ele não foi uma ditadura, desmontando a matriz identitária que sustentou as oposições comunistas a ditaduras de direita na Europa ocidental.

2. A quem possa interessar um pouco mais de pensamento proveniente das ciências sociais e menos de algumas sedes partidárias vagamente positivistas, existe efectivamente uma distinção entre grau e natureza nas diferentes ditaduras que emergiram no século XX europeu. Os conceitos de totalitarismo e autoritarismo não são simétricos. Designam obviamente sistemas repressivos, mas condições sociais, teóricas e ideológicas bem distintas. Os totalitarismos tiveram dois tipos-ideais, no sentido weberiano do termo, que foram o estalinismo e o nazismo. Conceptualmente, os totalitarismos afastam-se dos autoritarismos e consolidam-se como o grau superlativo de concentração do poder político, situando-se naquela «era das multidões» de que nos fala Gustave Le Bon. Ora, o fascismo italiano distingue-se de nazismo e estalinismo. E o salazarismo de todos eles.

Nuremberga
:: Nazis em Nuremberga, 1936 ::

3. O historiador Zeev Sternhell avança com a fórmula «Ni Droite, ni Gauche» (1983) para desmontar as bases do fascismo, sustentando que o fenómeno é tanto uma síntese da revisão antimaterialista marxista como uma recusa do universalismo liberal de Kant, de Rousseau e dos enciclopedistas. A recusa dos valores do século XVIII encontra-se matricialmente relacionada com o nacionalismo biológico do fascismo, extremamente vigoroso na apropriação política do temor com que as classes médias reagiram à possibilidade de expansão do comunismo na Europa e ao culminar da crise económica da década de 1920, que veio intensificar uma proletarização que já se iniciara com a guerra. Produto tardio das sociedades em modernização, como já foi escrito, o fascismo é a resposta de angústia das novas nações operárias contra as velhas nações imperialistas. Os fascismos são regimes monopartidários com propriedades históricas e sociais comuns a vários países. Mas substancialmente diferente daquilo que é o fascismo-movimento, revolucionário e secular, plebeu e miliciano, subversivo das ordens liberal e marxista, o fascismo-regime implicou lógicas de compromisso com a burguesia, o exército e a Igreja.

4. Essa cristalização de um movimento que animava as massas em torno de uma ideologia anticlerical, idealista e mítica, provocou o redimensionamento do seu programa totalitário e quedou o regime por práticas autoritárias enquadradas por um nacionalismo modernizador e expansionista, ao contrário de outros nacionalismos autoritários, conservadores e integradores, como o Estado Novo. Procurando substituir as tradicionais representações políticas e sociais que se encontram em crise após 1917, o fascismo é um fenómeno multicausal na expressão do descontentamento de classes médias polarizadas, a quem o seu tempo convoca o detrimento da liberdade em função da segurança. Veneradoras da ordem, da estabilidade e de uma coesão social tradicionalmente preservada entre o mecânico e o desigual, essas classes foram inicialmente mais permeáveis ao programa que os Fasci di Combattimento impuseram em Itália, servindo de modelo a muitos outros países europeus.

5. Mas as classes operárias, historicamente socializadas na insegurança, também não foram alheias a um movimento que procurou organizar verticalmente a sociedade, integrando a conflitualidade inerente aos processos de industrialização. Em Outubro de 1922, a Marcha sobre Roma dos camisas negras de Mussolini transformar-se-á na parábola de toda uma reacção das direitas não maioritárias embora politicamente agressivas, mobilizando uma parte considerável da Europa pelos choques da guerra e do pós-guerra, pela insegurança de um acelerado desenvolvimento industrial, pelos novos marginalizados com a violência inflacionista, pelas frustrações abertas com as derrotas da guerra e ainda por uma hábil manipulação do tema do anticomunismo, desse perigo constante de «bolchevização» que ocupou boa parte dos imaginários colectivos durante este período como um mecanismo de controlo ideológico.

6. O autoritarismo e o totalitarismo não são uma opção de classe, mas antes o produto das condições sócio-históricas específicas em que os seus propósitos se concretizam. As burguesias nacionais apoiaram genericamente Hitler e Mussolini, obviamente, mas não faz qualquer sentido o estrito enquadramento de classe para fascismo e nazismo. Isso é uma perspectiva marxista e não histórica nem sociológica. Tanto Mussolini como Hitler tiveram apoios consideráveis no campesinato e no proletariado. Em 1921, o conjunto de trabalhadores rurais, proletariado urbano e operariado no partido de Mussolini correspondia a 72% dos seus filiados; e no partido de Hitler, em 1933, os artesãos, operários e camponeses representavam 52% dos seus membros.

7. Contrariando os mitos existentes, S. M. Lipset refere que «os movimentos extremistas e as ideologias intolerantes da sociedade moderna são sustentados muito mais pelos meios populares do que pelas classes abastadas», com o operariado a manifestar uma forte tendência para o autoritarismo e para a resposta fácil à unicidade do todo. Nos meios populares, com o objectivo de responder a causas sociais comuns, essa propensão não é apenas política mas igualmente religiosa. Lipset vê essas disposições como resultado de uma multiplicidade de factores onde destaca «o baixo nível de educação, a atitude de indiferença em política, a falta de relações com outras esferas de actividade, a ausência de leitura, a insegurança, o abuso da autoridade familiar».

8. Tanto em La Dottrina del Fascimo (1923) como em Mein Kampf (1925), os dirigentes da Itália fascista e da Alemanha nazi contrariam prospectivamente a concepção vulgarizada pela URSS de uma contra-ideia fascista perante a ideia comunista, que procurava assim preservar o carácter inelutavelmente novo das rupturas impressas pela Revolução Bolchevique. Essa perspectiva, aliás, colide com a evidência de um corpo doutrinário fascizante que pré-existe ao marxismo, no pangermanismo anterior a 1914, no anti-semitismo, num universo de ideias que estão latentes na cultura europeia desde a reacção conservadora às Luzes e à modernidade, inteligíveis num resgate da ideia contra-revolucionária que a Revolução Francesa transformou em possibilidade permanentemente adiada até à eclosão da Primeira Guerra Mundial. É então que as revoluções nacionais autoritárias e totalitárias inauguram modalidades patológicas de concentração do poder político que vão exigir um esforço acrescido por parte da investigação social para apurar os traços que unem e que separam cada regime.

9. Onde fica o salazarismo no meio de tudo isto? Com o golpe militar de 1926, sem supresa, o programa antidemocrático que inicialmente se afirmara como reformador da República vai denunciar os processos de transformação da modernidade pela «excepcionalidade» da crise portuguesa e reclamar a «salvação da pátria» com um governo forte e restauracionista, o terreno orgânico de Salazar. No seio da Ditadura Militar vão congregar-se diferentes direitas da direita antiliberal. Aí encontraremos monárquicos que militaram contra a República até republicanos antidemocráticos, mas a disputa faz-se essencialmente entre a direita católica representada pelo Centro Católico de Coimbra e entre a direita integralista, doutrinariamente próxima da utopia passadista do Antigo Regime e de um ultramontanismo feroz.

10. Na prática, aquilo que mais tarde transita do Centro Católico de Salazar para a União Nacional do Estado Novo vai também revestir-se da apologia da nação orgânica, do ruralismo e da retórica heróica do passado, pelo que a oposição à direita integralista faz-se sobretudo em torno da desvalorização da «questão do regime», ou seja, da restauração monárquica. No debate que perpassa a Ditadura Militar, há ainda a considerar uma direita fascista que se destaca como força política influente a partir de 1927, com a Liga 28 de Maio, e sobretudo com o Movimento Nacional Sindicalista (MNS) que surge em 1932 chefiado por Rolão Preto. Desafiando a liderança de Salazar, o MNS terá um cerco apertado e os camisas-azuis assimilados pelo regime terão um papel importante numa certa ritualização fascizante do regime que emerge durante a Guerra Civil de Espanha e que não lhe sobreviverá.

11. Ou seja, será pela capacidade de neutralização das dissidências nas direitas e pela sua incorporação na plataforma de consenso que é a União Nacional que Salazar vai construir o equilíbrio político necessário à complexa transição da Ditadura Militar de 1926/1933-34 para o longo percurso do Estado Novo. Programa de nacionalismo antiliberal, autoritarismo antidemocrático e corporativismo antisocialista, o salazarismo compõe um projecto de típica reacção conservadora à modernidade e de recusa dos valores da Revolução Francesa, procurando um modelo político que supere as limitações — no entender do regime — apontadas àqueles existentes nas sociedades contemporâneas: «O predomínio do político sobre a vida, com a democracia […] O predomínio do económico sobre o social, com o liberalismo […] o predomínio do social sobre o económico, pelo socialismo» (Salazar, 1943). A sobrevivência do regime vai explicar-se por vários factores, que já aqui identifiquei, diferenciando o salazarismo tanto do fascismo-movimento como do fascismo-regime. Não perceber isso é ignorância, cegueira, ou ambas.

:: Referências :: BERMEO, Nancy (1999), A teoria da democracia e as realidades da Europa do Sul. Lisboa: Difel // BON, Gustave Le (1981), Psychologie des Foules. Paris: PUF // LIPSET, Seymour Martin (1963), L´Homme et la Politique. Paris: Seuil.

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Rabbit´s blog, 11.Mar.07 | Luís Pedro Coelho

«Salazar e o totalitarismo

1. O salazarismo é um regime autoritário clássico, não é um totalitarismo. O regime salazarista era um regime que tentava racionalmente manter-se no poder afastando os opositores e proibindo a oposição. Não é uma diferença de grau, no sentido de o salazarismo ser um totalitarismo light que não enforca a torto e a direito (isso é verdade, mas houve outros autoritarismo que mataram a torto e a direito sem serem totalitários). 2. A diferença é uma diferença de qualidade: os totalitarismos eram movimentos e não regimes. Os totalitarismos iam sempre mais além, o salazarismo não queria ir a lado nenhum (nem sequer de volta ao séc XIX). Os totalitarismos tratavam pior os inocentes do que os culpados (um judeu que tivesse roubado era julgado e condenado a prisão, nunca levado para um campo de concentração. Só depois de cumprir a pena é que era levado para um campo de concentração.) O totalitarismo é por natureza revolucionário (da família das revoluções permanentes), o salazarismo era conservador. (…)»

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As Vinhas da Ira, 13.Mar.07 | João Aguiar

«Ainda sobre o fascismo – III

No blog Kontratempos, o seu autor e animador voltou à carga com um novo texto em defesa das teses de que o Estado Novo não foi uma variante do fascismo. Mais uma vez, os apologistas do revisionismo histórico parecem preferir a lavagem de mãos à la Pilatos a uma assunção aberta da inércia e do comodismo que boa parte da intelectualidade burguesa teve (e continua a querer ter) em relação ao fascismo. (…)»

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Grande Loja do Queijo Limiano, 13.Mar.07 | José

«Estudos sobre o Estado Novo

O jornalista José Manuel Barroso, antigo director das agências portuguesas de notícias, Anop e Notícias de Portugal, de 1977 e 1987, e actualmente da Lusa, dirigiu ainda o Diário de Notícias, entre 1987 e 1992, e antes do 25 de Abril, foi um dos obreiros intelectuais do Movimento dos Capitães, ainda na Guiné, onde prestava serviço militar, com o general Spínola. (…) Hoje, no DN, articula uma ideia simples, sobre o fenómeno sempre renovado do fascismo salazarista, fascínio antigo dos antifascistas e que dele dependem para a identificação. Descobre agora, com acuidade visual centrada na tv, que é preciso conhecer melhor Salazar e Cunhal, sem complexos de esquerda ou à direita. E para sustentar o crescimento de tal ideia, arrebimba o malho no lombo antifascista, culpando-o de obliterar imagens conhecidas, guardadas em álbuns, a fim de veicularem a mensagem convenientemente desejada. Com o balanço, faz o paralelo assimétrico, equidistanciando-se, com o salazarismo da repressão e censura prévia. (…)»

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Loja de Ideias, 13.Mar.07 | José Reis Santos

«Salazar

(…) Não tenho nenhum tipo de problemas que Salazar tenha um museu (desde que não seja um templo) ou centros de estudos a si dedicados. Falamos de memória e de preservação de um espaço de herança cultural. Mas, da mesma maneira, acho inacreditável que, por exemplo, construam um condomínio fechado nas antigas instalações da PIDE, quando a alternativa era de aí erguer um Museu. Não podemos, sob o risco de valorizarmos a história e a perpetuação de memórias oficiais, defender num caso uma solução que é aplicável ao outro. Salazar pode ter um Museu, claro. Também a PIDE.»

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Água Lisa, 14.Mar.07 | João Tunes

«Ainda o fascismo e o salazarismo (3)

Tiago Barbosa Ribeiro insistiu e desenvolveu a sua tese, no que é acompanhado há largo tempo por uma corrente académica do «revisionismo histórico-sociológico», afincada no purismo quanto aos requisitos da «qualidade de fascismo», sobre o «erro» de qualificar o «salazarismo» como um «fascismo». A sua reinvestida constitui um texto interessante mas mostra, também, as fragilidades da espiral revisionista. Pois que agora, até já o fascismo italiano (o modelo fascista mais copiado com Salazar) não seria um verdadeiro «totalitarismo» (qualidades reservadas ao nazismo e ao estalinismo). E, de degrau em degrau, na perda da «qualidade fascista», o salazarismo ficaria nas águas turvas de uma mistura de «nacionalismo antiliberal, autoritarismo antidemocrático e corporativismo antisocialista» (…)».

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O Tempo das Cerejas, 14.Mar.07 | Vítor Dias

«Outras vozes, o mesmo debate

Em alguns blogues, reavivou-se recentemente o mesmo debate – sobre o carácter fascista ou não do regime derrubado em 25 de Abril de 1974 – que travei no Verão passado, nas páginas do Público, com Vasco Pulido Valente (e em que as minhas opiniões essenciais foram expressas em dois artigos, consultáveis aqui e aqui). Mais recentemente, tudo terá começado com textos (6 e 11.3.2007), dotados de alguma elaboração, mas, a meu ver, profundamente erróneos de Tiago Barbosa Ribeiro no «Kontratempos» que tentava demonstrar a incorrecção da qualificação de fascista do regime de Salazar e Caetano mas que, entre outras, recebeu na respectiva caixa de comentários uma devastadora resposta ponto por ponto de João Aguiar que merece ser lida.

Nas variadas derivações deste debate aparecem posições de todo o tipo em que se incluem, por exemplo, as de João Tunes («Águalisa6») que, rejeitando correctamente o «revisionismo histórico» que pretende negar a natureza fascista do regime instaurado a partir de 1926 (e, mais precisamente, da sua institucionalização em 1933), se dedica simultaneamente a debitar inacreditáveis aleivosias e calúnias sobre o PCP. (…)»

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A Terceira Noite, 15.Mar.07 | Rui Bebiano

«Antifascistas

Um post de Tiago Barbosa Ribeiro sobre a caracterização do «fascismo português», ao qual respondeu João Tunes alargando-se depois a discussão, fez regressar uma polémica que não é tão velha quanto a nossa democracia: é mais velha do que ela, pois vem do próprio pré-Abril. A oposição ao regime nunca se entendeu verdadeiramente a propósito da essência deste, e o labéu de fascismo passou a servir para designar uma ordem que foi «coisas diversas» entre 1926 e 1974. Neste sentido, e sem querer servir aqui de mero «conciliador» – serei suspeito, pois prezo os dois envolvidos – acredito sinceramente que ambos têm razão. (…)»

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Aparências do Real, 21.Mar.07 | José Manuel Correia

«Acerca do fascismo português

A polémica é recorrente, ressurgindo ao mínimo pretexto. Desta vez, o pretexto foi o museu que querem dedicar ao Salazar e a estúpida embirração dos comunistas com a iniciativa. Passado este tempo, os comunistas ainda não aceitam que um regime que teve tantos seguidores possa ter ainda alguns saudosistas convictos e desperte a curiosidade de uns quantos palermas; a sua concepção de liberdade não chega a tanto, à liberdade do outro. Detentores de uma ideologia totalitária, os comunistas apenas concebem a liberdade como obrigação de segui-la, não toleram o pensamento plural, tampouco o adverso. Estas suas reacções não denotam qualquer receio fundado de que o tal museu possa vir a constituir um embrião para o ressurgimento de um qualquer neo-salazarismo, porque o genuíno jaz morto e enterrado e não deixou seguidores suficientes. Também para eles, é apenas pretexto para relembrarem e desfiarem o seu longo martirológio. (…)».

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