Passado/Presente

a construção da memória no mundo contemporâneo

Um antídoto contra a intolerância

A «ilusão da singularidade» corresponde à tentação de aprisionar o ser humano dentro de limites estreitos e unilaterais, processo que é responsável pela lógica de conflito e de violência sectária que tem vindo a recrudescer neste início de século. Este é a ideia central que atravessa Identidade e Violência. A Ilusão do Destino, o último livro de Amartya Sen, recentemente publicado entre nós pela Tinta-da-China. Problematizando as novas orientações no campo da integração das minorias ensaiadas pelo governo britânico nos últimos anos, bem como o badalado conceito de «choque civilizacional», lançado em 1993 por Samuel Huntington, Sen produz um argumentado – e, por vezes, libertador – documento que visa sobretudo «resistir à miniaturização dos seres humanos» (p.238).

Na verdade, cada indivíduo é um ser multidimensional, tecido por uma espécie de caleidoscópio de pertenças entre os quais não existe frequentemente nenhuma contradição – nem necessariamente um cruzamento. Como aponta o autor, uma mesma pessoa pode ser «um cidadão americano de origem caraibense, com antepassados africanos, um liberal, uma mulher, um vegetariano, um maratonista, um historiador, um professor, um romancista, um feminista, um heterossexual, um defensor dos direitos dos homossexuais, um amante do teatro, um activista ambiental, um entusiasta do ténis, um músico de jazz» (p.15). O que a violência sectária faz é transformar o ser humano numa criatura unidimensional, absolutizando uma identidade específica, quase sempre genuína – «um hutu é realmente um hutu, um tigre tamil é claramente um tamil, um sérvio não é um albanês e uma alemão adepto da filosofia nazi é com certeza um alemão» (p.227) – redesenhando de acordo com lógicas beligerantes de objectivação do «inimigo» que são, simultaneamente, redefinições de uma suposta identidade única e matricial. Sen identifica esta linha de raciocínio, não apenas nos fundamentalismos religiosos contemporâneos, mas nas teses de Huntington, que dividem o mundo em compartimentos civilizacionais.

Para além de reduzir o indivíduo a uma única dimensão, a ideia da existência de um «choque civilizacional» entende de forma esquemática as civilizações, tornando-as muito mais homogéneas do que na realidade são. O autor dedica, por exemplo, algumas páginas a criticar a percepção dominante da Índia enquanto «civilização hindu» – quando, na verdade, a presença dos muçulmanos ou dos siques, dos cristãos ou dos budistas, sempre foi significativa neste território. De modo semelhante, procura demonstrar que aquilo que se designa como «civilização ocidental», mais não é do que uma manta de retalhos, plena de heterogeneidades e contradições. A tradição de tolerância e debate público, tidos como próprios da «civilização ocidental», tiveram expressões evidentes noutras zonas do globo, por vezes a contra corrente daquilo se passava na Europa. «No início do século XVI, quando o herético Giordano Bruno foi queimado na fogueira no Campo dei Fiori, em Roma, o grande imperador mogol Akbar (que nasceu e morreu muçulmano) terminara, em Agra, o seu grande projecto de codificar legalmente os direitos das minorias, incluindo a liberdade religiosa para todos.» (p.45)

Mesmo os adversários da teoria do «choque de civilizações» são por vezes levados a agir de acordo com esta «presunção de que os indivíduos têm uma única afiliação» (p.53). Os frequentes programas de diálogo entre civilizações, centrados no elogio dos livros religiosos e no pressuposto da bondade intrínseca das religiões, são disso exemplo, ao amplificarem a voz religiosa – tratando os clérigos como porta-vozes civilizacionais – e subalternizando outros posicionamentos, mais laicos e plurais.

É nesta linha que Amartya Sen se mostra crítico da actual caminho que nações como a Grã-Bretanha têm vindo a percorrer, e que consiste em entender o país como uma espécie de federação de comunidades específicas. Promovendo a categorização dos indivíduos de acordo com a religião ou a cultura da comunidade na qual nasceram – que tem, como um dos efeitos colaterais, o incremento do apoio estatal às escolas confessionais – esta via tende a privilegiar a preservação da herança cultural em detrimento da liberdade de escolha. É, pois, necessário remodelar o multiculturalismo, transformando-o naquilo que ele já é para muitos dos seus defensores: ou seja, um «monoculturalismo plural» (p.206), capaz de considerar as identidades múltiplas e complexas que tecem cada indivíduo, incluindo obviamente a liberdade de abraçar ou rejeitar tradições herdadas ou atribuídas.

Amartya Sen (2007), Identidade e Violência. A Ilusão do Destino. Trad.: Maria José de La Fuente. Lisboa: Tinta-da-China, 254 pp. ISBN 978-8955-19-9

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